Cristina Branco e Mário Laginha não tiveram de voltar a ouvir a discografia de Chico Buarque. Não foi preciso fazer pesquisa, nem sequer o exercício mais simples de ginasticar a memória para ir atrás daquela canção que nunca se esquece mas cujo título ficou meio perdido. Nada disso. Veio a proposta e seguiu um sentido “vamos a isso” com uma lista de temas prontos para serem tocados e cantados. Aconteceu assim quando o convite foi feito pela primeira vez, no ano passado, para um concerto no Folio, o festival literário de Óbidos. Repete-se a ideia a partir desta quinta-feira e até dia 12, sempre entre quinta e sábado, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, às 19h.

“O convite foi-me feito pela Anabela Mota Ribeiro, para o Folio”, recorda Cristina Branco. A cantora sempre teve Chico Buarque como referência. Correcção: sempre foi fã do brasileiro, o resto veio por arrasto, daqueles que vale a pena deixar acontecer. Este foi o pretexto perfeito para juntar as duas dimensões, a admiração e a inspiração artística. “Imediatamente pensei no Mário [Laginha], para fazermos isto juntos”, lembra. “Fazia sentido porque a linguagem do Mário de alguma maneira vai também beber àquele universo brasileiro.” O músico diz que sim, só podia, negar as evidências nunca ficou bem a ninguém. E viaja até à primeira lista de canções sugeridas por Cristina Branco para montar o espectáculo: “Achei que era tudo bom, que todas as canções teriam o seu lugar.”

E depois? “Depois seguimos em frente”, conta, tarefa que afinou com os músicos que habitualmente o acompanham em trio, Bernardo Moreira no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria. “Foi preciso trabalhar detalhes, como tocar e cantar determinados temas ou partes de canções, definir o que seria para repetir ou não, mais rápido ou mais lento, esse tipo de coisas mais técnicas, que deram trabalho mas que sobretudo deram muito gozo.” É a velha história do “fazer o que se gosta”, nada mais do que isso. Mas sempre com regras e disciplina para cumprir.

Por serem fãs e conhecerem de coração as canções de Buarque, Cristina Branco e Mário Laginha vestiram o fato da responsabilidade. “Esta música foi originalmente feita com bom gosto e profundidade, de acordo com a personalidade de Chico Buarque. Nunca poderia ser maltrado”, reforça a cantora: “Do nosso lado nada pode estar fora do lugar porque se assim acontecesse seria como desvirtuar o trabalho que está ali feito.” Ou seja, esperemos ouvir os temas e reconhecê-los, ainda que esteja presente o inevitável espaço para que os músicos se apropriem da obra de Buarque, mesmo que seja só ali, naquele palco e naqueles concertos.

Mesmo com anos de audição apaixonada sobre alguns dos temas incluídos no alinhamento, fácil é que isto não foi. Cristina Branco: “Não foi porque ele não faz as coisas fáceis. Pode ser simples de memorizar algumas canções, de sabermos dizer os nomes assim que começam a tocar. Mas quando é preciso cantá-las é que percebemos que essa emoção pode esconder a complexidade do trabalho de Chico Buarque.” Do lado da interpretação instrumental, Mário Laginha explica que “algumas canções podem parecer simples mas tecnicamente não é bem assim, têm sequencias harmónicas nada óbvias, num dado momento parece que vamos estar perante um determinado acorde mas de repente afinal é outro completamente diferente que nos aparece pela frente. E é muito típico do Chico Buarque fazer com que tudo isso soe natural.”

Aritmética musical à parte, o que é que tem esse brasileiro que o torna tão cativante, o que é que faz com que a palavra “Chico” seja sempre sinónimo de Buarque e de mais nenhum, ai de quem se atravesse nesse caminho? “Enquanto músico, a fazer as canções, ele é fantástico mas há outros fantásticos”, confessa Mário Laginha. “Talvez nas letras seja ainda maior o seu talento. “Ele tem o dom de fazer com que a letra abrace a música de uma maneira que poucos conseguem. Envia mensagens fáceis de perceber e que entendemos sempre como profundas. Parece que entra na nossa vida. Essa capacidade poucos têm, ouvimos as canções do Chico e parece que aquilo que está a cantar nos aconteceu, que foi  tudo escrito para nós. E uma coisa é escrever poemas, outra é escrever letras de canções. E estas palavras deste espectáculo, como outras que ele escreveu, têm uma musicalidade própria que se encaixa nas canções. São raros os que conseguem fazer isto.”

A propósito de canções, o propósito maior deste encontro em volta da obra de Chico Buarque, pedimos a Cristina Branco e a Mário Laginha uma curta selecção de temas essenciais. Com a certeza de que se o tivéssemos feito dias ou até horas depois a escolha poderia ser outra, ainda que sempre acertada:

“Construção”

Cristina Branco: “Esta é sempre a minha primeira escolha [Cristina Branco gravou uma versão de ‘Construção’ para o álbum que editou em 2013, ‘Alegria’]. Pelo lado literário, pela carga ideológica e social que a letra contém.”

Mário Laginha: “Foi o primeiro tema que ouvi repetidamente, em jovem adolescente, fascinado com aquela ideia repetitiva da melodia. Como aquilo se cola de forma brilhante à letra. O texto tem um peso enorme e quando ele começa a trocar os adjectivos a música vai ficando mais dramática, é uma composição genial.”

“Sabiá”

Cristina Branco: “A música é do Tom Jobim, a letra é do Chico. E escolho-a em parte pela mesma razão de ‘Construção’, porque marca um período da história do país, é um tema que diz muito aos brasileiros.”

“O Meu Amor”

Cristina Branco: “Tenho de escolher esta, sou quase obrigada a escolher esta. Isto não é amor nem paixão, é algo maior.”

“Beatriz”

Mário Laginha: “É uma cancão que me tem acompanhado há anos e anos. A música é do Edu Lobo e é rara, há poucas assim. A letra é também daquelas que são mágicas. E uma das características notáveis desta canção é ter uma amplitude tão grande que são raros os cantores que a conseguem cantar com a nota aguda e a nota grave. E a mais aguda canta a palavra ‘céu’ e a mais grave a palavra ‘chão’. Existe a inteligência e a emoção, esta música mostra a ligação entre as duas.”

“O Que Será”

Mário Laginha: “Nem a tocamos no espectáculo mas ouvia-a tanto em casa… É do Chico e do Milton Nascimento. Outra vez aquelas repetições, também na estrutura musical, os acordes vão mexendo e a harmonia vai avançando. É impossível fugir-lhe.”

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