Harper Lee, autora de Mataram a Cotovia, morreu esta sexta-feira aos 89 anos. A notícia foi avançada pelo site al.com, da cidade do Alabama, e confirmado pelo presidente da Câmara Municipal de Monroeville, a cidade natal da autora, refere a BBC. A editora HarperCollins também já confirmou ao New York Times a morte da escritora. Afastada dos olhos do público, como era seu costume, há vários anos que Lee vivia num lar perto da casa onde tinha crescido em Monroeville, no Alabama.

Num comunicado citado pelo Guardian, Andrew Nurnberg, agente literário da autora, escreveu “perdemos uma grande escritora, uma grande amiga e um exemplo de integridade”. “Conhecer a Nelle foi, não só um grande prazer, mas também um grande privilégio. Quando a vi há seis semanas, estava cheia de vida, a sua mente e perspicácia aguçadas como sempre. Citou Thomas Moore e introduziu-me à história dos Tudors.”

No Twitter, as reações já começaram a multiplicar-se. Tim Cook, diretor-executivo da Apple, partilhou uma citação de Mataram a Cotovia: “A única coisa que não segue a regra da maioria é a consciência humana”. A realizadora norte-americana Ava DuVernay também homenageou a autora com uma citação da sua obra mais emblemática, acrescentando “obrigada, Harper Lee”.

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A eterna escritora de Mataram a Cotovia

Nelle Harper Lee nasceu a 28 de abril de 1926. Em 1949, mudou-se para Nova Iorque para trabalhar como agente de viagens, escrevendo nos tempos livres. Oito anos depois, enviou o primeiro manuscrito de Mataram a Cotovia para a editora J.B. Lippincott & Co., que lhe sugeriu que o reescrevesse da perspetiva de uma das personagens, Scout Finch.

O romance, sobre a injustiça racial no sul dos Estados Unidos da América e a perda da inocência, saiu em 1960 e foi um sucesso instantâneo. No mesmo ano, foi-lhe atribuído o Pulitzer Prize. Em 1962, foi adaptado para o cinema. O filme, realizado por Robert Mulligan e protagonizado por Gregory Peck, venceu em 1962 o Óscar de Melhor Guião Adaptado.

Apesar de aclamada pela crítica, Lee afastou-se dos olhos do público, assumindo por diversas vezes que não voltaria a publicar outro livro. Ainda durante a década de 60, regressou a Monroeville, para onde se mudou definitivamente depois de a irmã Alice ficar doente. Raramente dava entrevistas e quase nunca aparecia em eventos públicos.

Os elogios a Mataram a Cotovia somam-se até aos dias de hoje, assim como as vendas, que ascendem aos 40 milhões de exemplares.

Vai e Põe uma Sentinela. O regresso inesperado de Harper Lee

Apesar das promessas, Harper Lee voltou aos lançamentos em 2015, com Vai e Põe uma Sentinela. Escrito em meados da década de 50, o romance serviu de base para Mataram a Cotovia, publicado em 1960. O segundo livro de Lee conta com muitas das personagens do primeiro (mas também muitas novas) e passa-se na década de 50 (20 anos depois do primeiro) na cidade fictícia de Maycomb, no Alabama. Vai e Põe uma Sentinela acompanha a visita de Scout Finch, já adulta, ao pai, Atticus, que ali vivia. “Era o meu primeiro livro e fiz como me disseram para fazer”, disse a escritora em comunicado, citada pelo New York Times.

A mulher que ajudou Truman Capote na investigação que deu origem à obra A Sangue Frio pensava ter perdido o manuscrito há décadas. Porém, após uma amiga o ter encontrado, decidiu publicá-lo. Assim que este foi anunciado, levantaram-se várias questões sobre a sanidade da autora que não conseguia falar nem ouvir desde que, em 2007, sofreu um AVC. Porém, a obra tornou-se rapidamente o livro impresso de maior pré-venda na Amazon desde 2007, altura em que foi editado o último livro Harry Potter e os Talismãs da Morte, o último da saga de J.K. Rowling.

“Não sabia que tinha sobrevivido. Fiquei tão surpreendida e feliz quando a minha querida amiga e advogada Tonja Carter o descobriu. Depois de muito pensar e duvidar, dei-o a ler a algumas pessoas em quem confio e fiquei muito satisfeita quando me disseram que achavam que devia ser publicado. Sinto-me grata e maravilhada por saber que este livro será publicado depois de tantos anos.”

Num texto publicou no The Wall Street Journal, em julho de 2015, Tonja Carter contou em primeira mão como é que tinha encontrado o manuscrito. E deixou em aberto que poderia haver um terceiro romance ou, quem sabe, até mais. “E as outras páginas que ficaram durante décadas paradas na caixa Lord & Taylor, sobre Watchman?”, questionou.