Houve uma altura em que o Egito teve de olhar para a balança e comparar os pesos nos pratos. Um lado aguentava as consequências de uma região árida do país, onde a agricultura sofria e os solos suplicavam por água. No outro, estavam as dezenas de monumentos que se tornariam subaquáticos caso, de facto, decidisse matar a sede aos terrenos agrícolas. Causa e consequência. A primeira era impossível de ignorar, mas o país quis tornear a segunda, sobretudo porque colocaria em perigo um dos mais conhecidos templos escavado em pedra do mundo: Abu Simbel.

O monumento, construído no século XIII a.C. por ordem de Ramsés II, ergueu dois templos: um em tributo a Nefertiri, mulher preferida do faraó, e outro a honrar o próprio Ramsés II. Na fachada deste templo estão quatro estátuas, cada uma representativa de um deus egípcio — de Ra, deus do sol, de Ámon, rei dos deuses, Ptah, deus que as crenças do Antigo Egito ligavam ao submundo, e de Ramsés II. No interior do templo estão outras quatro estátuas, cuja disposição foi desenhada de forma a que, dois dias ao ano, ao nascer do sol, apenas três das figuras sejam iluminadas pelos raios solares que entram na estrutura. Este fenómeno acontece há séculos e voltou a suceder esta segunda-feira, 22 de fevereiro. O problema é que foi um dia depois do que o originalmente previsto.

E isto faz-nos voltar à parte em que o Egito quis ludibriar a consequência. Em 1959, e face à construção do lago Nasser, o governo do país aprovou um plano para realocar os templos de Abu Simbel. O novo reservatório de água, que fica ligado à barragem de Aswan, implicaria que dezenas de monumentos na região de Nubia, sul do Egito, fossem engolidos pela água. A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Cultura e a Educação) lançou um apelo internacional para salvar os templos de Abu Simbel (entre outros) e o governo egípcio apostou num projeto desenhado por um escritório de engenharia sueco, recorda o diário ABC.

O plano propôs que ambos os templos fossem erguidos uns 60 metros, para ficarem em planos superiores à cota de água máxima que o lago daria ao local. As obras, iniciadas em 1963, implicaram o corte dos templos e das estátuas em blocos, que pesavam entre as sete e as 30 toneladas. Foram cortados mais de mil blocos de pedra até que, com a ajuda de gruas, os templos foram reconstruídos a cerca de 200 metros do local original. O projeto, que seria concluído em 1968, decorreu sob a chancela da Unesco e custou cerca de 41 milhões de euros — metade dos custos foram suportados pelo Egito e o restante foi repartido pelos 48 países que financiaram a obra.

Parte do projeto implicou medir e calcular a orientação original dos templos, para que o fenómeno da iluminação das fachadas se mantivesse. A verdade é que ainda hoje acontece, embora com atraso. Antes do reposicionamento dos templos, os rostos das estátuas recebiam os primeiros raios solares a 21 de outubro e 21 de fevereiro, um dia antes do que acontece agora.