Estava perdida de feliz. Ouviu-se a corneta e Tyler Wright soube logo que a vitória era dela. Já o sabia desde que Courtney Conlogue, a única mulher que lhe fazia companhia na água tinha a prioridade e deixou-a passar para a australiana, que reparou no que a americana não viu: uma onda com potencial para o 8.17 que lhe daria a vitória. Quando saiu da água, Tyler foi carregada em ombros. Um dos irmãos aguentava-a, de um lado, e sussurrou-lhe algo que a fez sair disparada, mal os pés tocaram na areia, em direção às escadas. Galgou-as a correr porque lá em cima estava Owen Wright, já com lágrimas nos olhos.

O irmão fizera-lhe uma surpresa. Aparecera em Snapper Rocks para ver Tyler a vencer a primeira etapa do circuito mundial, ali, a quase 1.300 quilómetros de casa. E chorou, porque os manos dão-se bem e o ano não tem sido fácil para ambos — porque a irmã sofre com o sofrimento do irmão, que não vai surfar durante meses desde que, em dezembro, sofreu um traumatismo craniano no Havai, em Pipeline, que o obrigou a esquecer o surf e a pensar em repouso. “Os últimos meses, com tudo o que aconteceu, têm sido uma experiência louca. Trouxe-me muita clarividência, fez-me simplificar as coisas e querer chegar aqui e ser a melhor. Quero vencer o título mundial à minha maneira”, desabafou Tyler, no final.

Está no bom caminho e lembraram-lhe disso mesmo quando saiu da água: 60% das surfistas que venceram a primeira etapa em Snapper Rocks viriam a tornar-se campeãs do mundo. “Pois, eu não contribui para essa estatística”, disse a australiana, de 21 anos, que em 2013 venceu na Gold Coast e não conseguiu chegar ao título mundial. Algo que, confessou, nem sequer tentou fazer a sério durante os primeiros cinco anos que passou no circuito (isso mesmo, já lá anda desde os 16). “Decidi que [agora] quero melhorar naquilo em que já sou boa e realmente tentar ganhar o circuito. Tentá-lo mesmo em vez de estar a armar-me em esperta”, explicou ao Gold Coast Bulletin, antes de surfar a final. Na mesma entrevista, reconheceu como o novo treinador a tem ajudado a surfar mais e melhor — é Glenn Hall, o irlandês nascido na Austrália que se retirou do circuito em 2015.

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Foto: WSL / Kirstin

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Tyler Wright irá agora para Bells Beach, a cerca de 100 quilómetros de Melbourne, surfar a segunda etapa do mundial com a licra amarela, a que distingue a líder do circuito. Também haverá um homem vestido dessa cor e a história de quem é ele poderia começar com um wildcard. A World Surf League (WSL) decidiu convidar Stuart Kennedy, um surfista local, de 26 anos, para fazer as vezes de um lesionado. E foi por pouco, um pouco que são 0.03 décimas, que o australiano não chegou à final, após eliminar Kelly Slater, Gabriel Medina e John John Florence ao longo da competição.

O brilharete só não ofuscou Kolohe Andino. O norte-americano, de 21 anos, a quem muitos vaticinam um futuro dos bons, eliminou-o para chegar à segunda final de um evento na carreira. O homem da Califórnia surfava as direitas de Snapper Rocks de frente para a onda (com o pé esquerdo à frente, na prancha) enquanto Matt Wilkinson as surfava de costas (com os pés trocados, portanto). E foi o australiano, de 27 anos, que melhor rasgou as ondas, com manobras que lhe chegaram para ter as duas melhores ondas avaliadas, no conjunto, em 14.20, contra os 13.66 de Kolohe Andino.

Pelo caminho livrou-se de um par de brasileiros. Ganhou a Adriano de Souza, o vencedor do circuito em 2015, nos quartos-de-final, e a Felipe Toledo, campeão em título em Snapper Rocks, nas “meias” — aproveitando uma lesão na anca que o pequeno surfista sofreu durante a bateria, ao aterrar uma manobra aérea. “Estava à espera de acabar este ano no top-5 ou top-10. Tenho ficado atrás dos adolescentes nos últimos anos, por isso este é um começo diferente. Sinto que o meu surf de competição cresceu muito e espero conseguir vencer o título”, revelou Matt Wilkinson, depois de celebrar a vitória.

A moral destas duas histórias é que, ao fim da primeira etapa do circuito, há dois líderes que poucos esperavam ver. E ambos, pelos vistos, querem acabar o ano como campeões mundiais. Ou seja, isto vai ser giro.