A pergunta, mais do que o surpreender, arranca-lhe um riso. A gargalhada prolonga-se, ele não parece importar-se muito com isso. “Eu não respiro futebol todos os dias e também estou careca!”, diz, quando lhe volta a sobrar fôlego para falar sobre Pep Guardiola. É careca como o treinador espanhol, mas não é viciado em ter mais bola que os adversários e abusar dela para lhes fazer mal. Apenas esteve um ano na sombra de quem faz disto vida, em Munique, a ver como foi a primeira época de Pep a mandar no Bayern. Se aí já pensava “em futebol 24 horas por dia”, então hoje andará a dedicar muito desse tempo a gastar no Benfica os neurónios que lhe foram roubando o cabelo.

Não é difícil de imaginar porquê e tão pouco é preciso perguntar à “árvore de Säbener Strasse” — como os jogadores do Bayern apelidavam Martí Perarnau, autor do livro “Herr Pep”, com quem Observador falou o ano passado — para deduzir que Guardiola não pensará em outra coisa. O catalão vai na terceira época na Baviera, que também será a última por já se saber que, no verão, o treinador vai para o Manchester City. E antes de ir, ele, os jogadores, o clube e os adeptos gostariam que Pep deixasse na Baviera aquilo que o contrataram para ir buscar.

O Bayern quis Guardiola para ser o clube mandão na Europa, mas o que treinador fez em três anos foi torná-lo ainda mais dono da Alemanha. Aos dois campeonatos e à Super Taça que lhe deu parece que vai juntar mais uma Bundesliga (está em primeiro, com mais cinco pontos que o Borussia Dortmund). Falta-lhe agarrar-se à Liga dos Campeões, prova que o clube venceu meses antes de o espanhol chegar ao clube para sobrecarregá-lo com um pouco mais de pressão. A verdade é que o Bayern de Pep nunca passou das meias-finais da competição: em 2014, foi o Real Madrid de Ronaldo e das cabeçadas de Sérgio Ramos a travá-lo; em 2015 foi a máquina do Barcelona que um dia pôs a carburar.

Sei precisamente por que o Benfica está nos quartos-de-final. Porque é uma equipa brilhante. A sua linha de quatro defesas é das melhores da Europa”, Pep Guardiola

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Agora entra o Benfica que deixou Guardiola “muito, muito impressionado”. O espanhol disse ao jornal Record que gostou do que viu em quem defende mais próxima da baliza e elogiou “uma linha de quatro defesas como há muito tempo não via”, por todos serem “muito compactos”. O que abona muito a favor de Eliseu, Lindelöf, Jardel e André Almeida, os que mais têm jogado para a “super organização defensiva” que o catalão reconhece aos encarnados. E isto só pode abonar ao bom nome de Rui Vitória, que foi limando a equipa que lidera o campeonato e vai defrontar nestes quartos-de-final da Liga dos Campeões a equipa que mais gula tem por bola.

Todas as equipas que ainda estão na Liga dos Campeões vão com oito jogos feitos na prova e nenhuma conseguiu passar mais tempo com a bola em 720 minutos de futebol. A média do Bayern está nos 66,5%, diz o site WhoScored, enquanto o Benfica tem o nono melhor registo, com 53,7%. Ter a bola só por ter não quer dizer nada, veja-se o Manchester United de Louis Van Gaal, por exemplo, mas o Bayern de Guardiola costuma usá-la bem. Além de acertar mais ou menos nove em cada 10 passes que tenta (90,4%) — esta média, nos encarnados, está nos 81,6% –, é também a segunda equipa que mais remates à baliza tenta, por jogo (22), só aquém do Real Madrid (23,1).

Bayern Munich's Spanish head coach Pep Guardiola throws the ball during the UEFA Champions League, Round of 16, second leg football match FC Bayern Munich v Juventus in Munich, southern Germany on March 16, 2016. / AFP / TOBIAS SCHWARZ (Photo credit should read TOBIAS SCHWARZ/AFP/Getty Images)

Foto: TOBIAS SCHWARZ/AFP/Getty Images

Pior (para o Benfica) do que o Bayern ser uma equipa bem certinha com a bola é a forma como os alemães reagem às raras vezes em que a perdem. Pep Guardiola tem a mania de pedir aos jogadores que pressionem o adversário mal fiquem sem ela: por norma, quem está mais perto vai “à queima” enquanto a restante equipa aperta os espaços nessa zona para, durante quatro segundos, pressionarem intensamente. É muito por isto que os bávaros são quem mais tem jogado no meio campo contrário nesta Liga dos Campeões (35% do tempo em que têm a bola, em média).

E é talvez também por isso que o Bayern é a quarta equipa que menos faltas (dez) faz por jogo. A equipa recupera tantas vezes a bola perto da área adversária que, nos casos em que não o consegue fazer, nem sempre reage como deve ou tem os jogadores nos sítios certos para ligar com um contra-ataque. Como no segundo golo que a Juventus lhe marcou em Munique, quando ninguém foi capaz de parar a mal uma correria de Álvaro Morata. O contrário do Benfica, que é das equipas que menos golos sofre na Europa e a que mais passes interceta (20,3) e faltas comete (14,3) entre as que ainda estão em competição.

Porque saber defender como o Benfica sabe e como Guardiola o reconhece, também implica que os jogadores sejam duros quando é preciso: os encarnados são a equipa com mais cartões amarelos (24). Pode ser que Pep não tenho perdido muito mais cabelo por culpa da equipa de Rui Vitória, mas nos últimos tempos não terá pensado em outra coisa.