Política

O novo ministro da Cultura em 10 poemas

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Poeta, embaixador, cinéfilo e novo ministro da Cultura. Recorde 10 poemas do penúltimo livro lançado por Luís Filipe Castro Mendes, "Lendas da Índia", com o qual venceu o Prémio António Quadros.

ANTONIO COTRIM/LUSA/LUSA

Conheça alguns dos poemas escritos pelo novo ministro da Cultura, o embaixador Luís Filipe Castro Mendes, que até 14 de abril – dia em que tomará posse – representa Portugal junto do Conselho da Europa, em Estrasburgo. São do penúltimo livro que escreveu,”Lendas da Índia”, publicado pela Dom Quixote, em 2011, e que foi distinguido com o Prémio António Quadros no ano seguinte, pela Fundação com o mesmo nome.

Cavalos da Arábia

Aqui chegavam os cavalos da Arábia,
sempre prontos para cavalgar os desertos
e enfrentar as espadas:
e aqui eram trocados por especiarias,
essas que aos homens do deserto
faziam tanta falta para conhecerem
o sabor do paraíso.
Assim se passavam as coisas,
ou assim as contaram nos livros
em que as lemos e acreditámos.

Foi antes de nós chegarmos. Os cavalos
olhavam para esta terra com a mesma maravilha,
mas sem o nosso terror.
Mas que fazer,
se para nós é do terror a maravilha?

Ainda a poesia

A poesia não é feita por um nem por todos,
nem esteve nunca na rua.
A poesia está na aspereza das coisas contra nós,
tão mais nítidas ao nosso olhar isento
quanto mais doem no coração silencioso.

A Camilo Pessanha, passando em Jaipur

Uma imagem a passar pela retina
e nada mais: venham outros falar-nos de experiência,
de transformar o vivido em consciência,
de reter o que é fugaz!
Uma imagem a passar pela retina,
porque o sentido de tudo está na velocidade do carro
que me permitiu fotografar…

1507-1

Pessoana pobre

Como nas ruas de Roma
ou no caos de Deli,
esta ruína que assoma
diz que não somos daqui.

Passado, terra estrangeira:
e o nosso em particular
é palavra derradeira,
não se pode articular.

Toda a memória que fui
longe de mim se escondeu.
E de muitos céus azuis
se fez noite neste céu.

A religião do meu tempo

Sim, meus caros, é mágoa, é desalento
e se uma leitora ao menos der por isso
vale a pena fingir
o que deveras sente.

Os toldos vermelhos fecharam-se nas praias.
Faltam homens sem qualidades.
Já todos entendemos
que um tempo acabou.

Acabou o seu tempo,
diz-me o psicanalista, lá nos anos 70,
a acordar num bocejo e a olhar para o relógio.

Os argonautas

Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo:

só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.

Glosa a uns versos de Nemésio

Se com quase quarenta anos mal começa,
ovo de tanta coisa, o coração,
que direi hoje, com quase sessenta anos?

Que névoa fria cerca agora o coração
e que voz de dentro resiste a essa névoa,
pois o amor não pára enquanto continuar
o mundo?

Abre os olhos, meu amor:
o mundo é vasto e diverso e brilha
por entre a névoa mais densa.

Os ghats

Antes da pira
limpam os pés do corpo no rio sagrado,
antes mesmo de chegarem os padres, os familiares, os amigos.
Só vemos aqui o povo e os intocáveis (diz-se dalits, my friend)
encarregados de manejar a morte.
Vi num documentário um desses : «Ninguém mais pode tocar
[nos mortos»
dizia com orgulho o sem-casta. «Mesmo que seja o Primeiro
[Ministro.
Só nós podemos preparar os mortos para o seu final.»
Eles não têm medo de olhar os mortos.
Apenas têm quem cuide deles,
quem prepare a lenha, a amontoe,
quem embrulhe o corpo nos panos,
o limpe nas águas sagradas
e ofereça ao filho mais velho a tocha para acender a pira.

O traidor

Tomaste o chá de folhas negras da melancolia?
Porque fugiste às palavras que te deixaram?
Espera-te o mais amargo fruto e depois vão-te sorrir.
E tu? Porque não disseste simplesmente quem eras?
Sabes que é tarde e já nada podemos fazer.
Como um médico na sala de operações, a tua alma encolhe os ombros,
porque tu renunciaste às palavras
e escolheste o silêncio das convicções.

Lendo traduções de poemas antigos
(traduções de poemas sânscritos)

Que ficará das palavras
que tantos escreveram sobre a terra?
Às vezes, num velho mosteiro, aparece um rolo
manuscrito e os poemas sânscritos são tão vivos, maliciosos,
e ao mesmo tempo tão obedientes às fórmulas e às metáforas
consagradas,
como os poemas helenísticos da Antologia Palatina.
Um mesmo espírito liga esses gregos romanizados
aos hindus decadentes e fesceninos que tais versos escreveram
no oitavo século já da nossa era.
Os corpos reinam: próximos, confundem-se
numa aproximação eterna de tão efémera
e assumidamente mortal. Eram assim os deuses, dizes?
Algum dia saberemos?

Além de “Lendas da Índia”, Luís Filipe Castro Mendes publicou, em 1985, “Seis Elegias e Outros Poemas”, que foi distinguido com o Prémio da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Em 1991, publica “Ilha dos Mortos” e dois anos depois de “Viagem de Inverno”. Em 1994, publica “O Jogo de Fazer Versos”, dois anos depois o “Modos de Música”, em 1998, “Outras Canções”, em 1999 “Poesia Reunida” e “Os Dias Inventados”, em 2001. EM 2016, a Assírio & Alvim publicou “Outro Ulisses Regressa a Casa”.

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