Uma equipa de investigadores chineses, de um hospital afiliado da Universidade Médica de Guangzhou, manipulou geneticamente embriões humanos para demonstrar que antes de se prosseguirem com estas técnicas ainda é necessária muita discussão sobre o assunto, conforme concluem no artigo publicado na revista científica Journal of Assisted Reproduction and Genetics.

“Defendemos que se evite qualquer aplicação da edição do genoma na linha germinal humana até que seja feita uma avaliação e discussão rigorosa e exaustiva pelas comunidades científicas e éticas”, concluem os autores no artigo.

A equipa liderada por Yong Fan introduziu com sucesso o gene CCR5Δ32, usando a técnica CRISPR/Cas (como se fosse um “corta e cose” dos genes), em embriões inviáveis (que não poderiam ser usados na técnicas de reprodução medicamente assistida). O gene CCR5Δ32, que ocorre naturalmente, aparece associado a uma resistência contra a infeção com o vírus da imunodeficiência humana (VIH).

O gene introduzido não conseguiu emparelhar-se como desejado, mas na verdade isso não incomodou os investigadores. “A nossa investigação serve dois propósitos: primeiro, avaliar as tecnologias e estabelecer os princípios para a introdução de modificações precisas em embriões humanos e identificar quaisquer obstáculo técnico importante; segundo, alertar para os potenciais desafios legais e éticos que a sociedade terá de enfrentar graças ao aumento do acesso às tecnologias de engenharia genética.”

Uma das críticas a este trabalho é a utilização de embriões triploides, ou seja, que têm três cópias de cada cromossoma, em vez de duas. “Este artigo, como o de 2015, demonstram a dificuldade na aplicação [da tecnologia CRISPR/Cas9] a embriões humanos, embora de forma imperfeita, tendo em conta o estado triploide dos embriões usados, o que levanta questões sobre o valor científico deste trabalho”, refere num comentário Debra Mathews, adjunta do diretor dos Programas Científicos do Instituto de Bioética Johns Hopkins Berman (Estados Unidos).

“Trabalhar com embriões humanos normais, com foco nas questões da biologia humana básica, produzirá provavelmente dados mais úteis”, afirma Debra Mathews do Instituto de Bioética Johns Hopkins Berman.

A única vantagem deste trabalho, e ainda comparando com a investigação publicada em 2015 na Protein & Cell, é que confirmam os resultados alcançados anteriormente, ou seja, “isto indica a reprodutibilidade da ciência, uma parte importante do processo científico (mostrando que da primeira vez não tinha sido um acaso), que deve aumentar a confiança do público no trabalho”, nota num comentário Peter Donovan, professor de Química Biológica e de Biologia Celular e do Desenvolvimento, na Universidade da Califórnia (Irvine, Estados Unidos).

Já o trabalho proposto por Kathy Niakan, investigadora do Instituto Francis Crick (Reino Unido), pretende usar embriões viáveis – com as duas cópias dos cromossomas -, mas doados para investigação. “Embriões viáveis doados para investigação são a única opção viável para nos referirmos à eficácia e melhorarmos a precisão da edição genética em embriões humanos”, diz num comentário Amander Clark, professor do Departmento de Biologia Molecular, Celular e do Desenvolvimento, da Universidade da Califórnia (Los Angeles, Estados Unidos).

A utilização de algumas técnicas de edição do genoma dos embriões poderá, no futuro, permitir a introdução de novos genes ou a correção de genes que apresentem mutações. Esta correção promete resolver um determinado problema genético, não só no indivíduo em questão, mas na sua descendência, porque a manipulação genética do embrião é hereditária. E é aqui que reside um dos maiores problemas desta técnica: as alterações serão replicadas na descendência, com as vantagens e desvantagens que isso possa trazer.

Os autores reconhecem que, apesar das questões científicas e éticas levantadas, é necessário continuar a desenvolver técnicas melhores de manipulação genética, seja usando modelos animais, células estaminais ou sistemas in vitro.

Para Amander Clark é claro que esta área de investigação não tem os conhecimentos técnicos suficientes para dar início à manipulação genética com fins reprodutivos. O professor felicita que neste trabalho nenhum embrião tenha sido manipulado com esse objetivo, porque isso “é uma linha ética clara que não deve ser atravessada até que se demonstre que a tecnologia é segura”.