Prince não gostava de dar entrevistas. Mas nos dias que se seguiram à sua morte, vários foram os jornais e revistas que republicaram as raras ocasiões em que o cantor falou aos jornalistas. Este domingo, o britânico The Guardian, divulga parte de uma entrevista concedida em 1997 que na altura foi publicada com cortes e edição, por ser considerada demasiado sincera. Agora, surge a versão integral. Também a Rolling Stone revela excertos de uma conversa, de janeiro de 2014, que nunca chegaram a ser publicados. É aí que Prince fala de como nunca pensou na morte, nem tão pouco na reforma. “Só penso no futuro quando não quero falar no presente”, dizia. “Acredito que Deus tem um plano e que tudo acontece por uma razão”. Prince morreu na passada quinta-feira, aos 57 anos.

Numa entrevista feita pelo jornalista Brian Hiatt, em janeiro de 2014, Prince fala do futuro, de sexo, de música inédita que mantinha guardada, e da morte. “Não penso na morte, só penso no futuro quando não quero falar no presente”. Nem tão pouco na reforma. “Nunca senti que tivesse um trabalho”, por isso nunca é que nunca pensou em reformar-se dele.

Então via-se a trabalhar com 70 e 80 anos?, perguntava o jornalista. Prince, que acabou por morrer esta quinta-feira aos 57 anos, não via qualquer problema nisso, até porque “as pessoas vivem cada vez mais até mais tarde”. “E uma das razões porque isso acontece é porque as pessoas estão a aprender mais sobre tudo, o que faz com que o cérebro funcione melhor”, dizia, acrescentando que um dia chegar-se-ia ao ponto em que as mentes pudessem ser “eternas”.

Depois de ter passado pela provação da morte de um filho, em 1996, Prince reconhecia numa outra entrevista, dada em fevereiro de 1997 ao antigo editor do Top of the Pops, que essa tinha sido a “altura mais traumática” da sua vida, mas mesmo assim considerava-se um otimista. “Acredito que Deus tem um plano. E que tudo o que acontece, acontece por uma razão”, dizia, recusando-se a usar a expressão “ele morreu” por achar que havia sempre maneira de as pessoas “regressarem”. A versão integral dessa rara entrevista é publicada este domingo pelo Guardian. Na altura o artigo foi considerado demasiado sincero para ser publicado na íntegra, mas agora o jornal britânico publica a versão sem cortes.

Temas inéditos para mais tarde compilar

“Eu nunca disse isto antes, mas nem sempre dou às editoras discográficas as minhas melhores músicas”, disse o músico à Rolling Stone, reconhecendo que há músicas suas que nunca foram ouvidas por ninguém e que mantém guardadas em cofres. Muito ao estilo de “máquina do tempo”, o objetivo era um dia vir a compilar tudo o que gravou em determinado período da sua vida e então divulgar os temas inéditos dessa altura, dizia.

Questionado sobre se era viciado em gravar música, Prince admitia que adorava a sensação de ouvir “alguma coisa acabada” e que às vezes brincava com a ideia de que precisava de “reabilitação dos estúdios”. “Sabe porque é que o Woody Allen faz filmes a toda a hora e a cada três sai uma obra-prima? Porque tem que se passar pelo processo e fazer o download de dentro da cabeça. Está tudo lá, eu consigo ouvir tudo agora. Consigo ouvir cinco álbuns na minha cabeça agora”, dizia.

Ao jornalista Brian Hiatt, em janeiro de há dois anos, Prince dizia que não queria falar sobre Michael Jackson porque estava “demasiado próximo”.

Provocador como gostava de ser, dizia-se “celibatário”, apesar de as suas canções falarem tanto em sexo. E comparava as relações sexuais ao jejum: depois de alguns dias sem comer deixa de apetecer comida. “Quando o corpo, que antes pedia comida, se apercebe que não vai ter comida, a vontade desaparece”, afirmava, dizendo que era tudo físico e que a libido era apenas “energia”.