Dos 56 anos de vida, Kerry Kennedy tem pelo menos 35 de luta pelos Direitos Humanos. Tem o peso da “família política” desde cedo, porque havia que continuar o legado: o tio John F. Kennedy foi assassinado quando Kerry tinha 4 anos e o pai Robert F. Kennedy foi também assassinado, quando Kerry tinha 8 anos. Hoje, a ativista e advogada é presidente da organização Robert F. Kennedy Human Rights, criada para continuar o trabalho do pai e senador em prol dos Direitos Humanos.

Kerry Kennedy é também responsável pelo projeto Diz a Verdade ao Poder (Speak Truth to Power), que consiste num programa de formação para estudantes e escolas, uma exposição fotográfica, uma peça na Broadway, um documentário e um livro, que é agora lançado em português. Kerry Kennedy está em Portugal no âmbito da conferência da Fundação Gulbenkian “Os Direitos Humanos e os desafios do século XXI”. Em entrevista ao Observador, diz que o discurso de ódio e a exclusão dos outros são os grandes desafios do momento, conta uma história de JF Kennedy com os Açores, explica como é que se ensina a mudança através de uma Coca-Cola e de um jornal e considera que a possível eleição de Donald Trump será “um desastre” para os EUA e para o mundo.

O que é que a expressão Speak Truth to the Power significa?
Significa que devemos todos falar com franqueza quando vemos alguma coisa que está a correr mal ou que precisa de ser alterada. Eu escrevi um livro com entrevistas a 51 das pessoas mais corajosas na terra. Pessoas que arriscaram prisão, tortura e morte por causa de direitos básicos, que a maioria de nós tem a sorte de tomar por garantidos, como a liberdade de expressão, o direito a reclamar, o direito a votar, ou o direito a publicar este artigo no jornal — um artigo que fala sobre Direitos Humanos. Essas pessoas dispuseram-se a dizer a verdade ao poder.

E como é que o programa funciona exatamente?
Speak Truth to Power é um programa de educação de educação para os Direitos Humanos. Vai desde os cinco anos até à universidade. Ensina os alunos sobre como criar a mudança e ensina-os a tomarem a responsabilidade por assegurar a justiça e a paz. Isto na turma deles, na escola, na terra onde vivem. Este programa vai entrar no programa português de educação, tal como já fizemos em todo o mundo: do Camboja, até Itália, Suécia, Libéria e Ruanda. É muito fácil adotar este programa em países diferentes, porque os valores são universais.

O que é que tem a dizer sobre o caso português?
Portugal tem uma grande história de abraçar estes valores. Foi o primeiro país no mundo a abolir a pena de morte. Foi um país que terminou uma grande repressão que existiu nos anos 70. Acho que há uma grande consciência de Direitos Humanos. Há uma grande vontade de que a próxima geração os entenda, mas que também se empenhe neles e pense: “Eu posso fazer a diferença.”

Como é que ensina os Direitos Humanos?
De muitas maneiras. Às vezes através da Matemática, outras das Artes da Linguagem e outras através da aprendizagem de Línguas Estrangeiras. Podes usar o currículo todo. Um exemplo: na aula de Artes da Linguagem, os alunos iam aprender Poesia. Nós falámos com eles sobre o facto de haver crianças em situações de trabalho infantil e escravatura nos campos de chocolate. 70% do chocolate que é consumido em Portugal é feito por crianças em situação de escravatura ou de trabalho infantil, por exemplo. A maioria das crianças não sabe isso, a maioria dos professores e dos adultos não sabe isso. Nós entregámos dois ou três artigos de informação a alunos de 12 anos sobre o assunto. Eles leram os artigos e depois tiveram de escrever um poema da perspetiva da criança que faz aquele trabalho infantil. Neste exemplo, eles estão a aprender várias coisas: estão a analisar texto, estão a estimular a empatia e estão a aprender poesia. Umas semanas depois, esses alunos aprenderam a expor o seu trabalho e a escrever uma carta de negócios. Nós demos-lhes os nomes e os endereços dos CEO’s de algumas empresas que usam esse trabalho infantil e eles tiveram de escrever uma carta em que diziam: “Temos aqui um problema. O que é que vão fazer em relação a isto?”. Aqui, outra vez, temos análise de texto, mas temos também advocacy, aprender a colocar as ideias, a definir argumentos e a escrever uma carta formal.

Há um exemplo do resultado do programa. Aconteceu com um grupo de Itália, que usou uma Coca-Cola e um jornal.
Ah, sim. Eram crianças que viviam numa pequena cidade. Dois deles decidiram fazer um projeto fotográfico sobre a reciclagem, no âmbito dos direitos do ambiente. Então, foram e tiraram fotografias a comprar uma Coca-Cola e um jornal. Depois, tiraram fotografias a beber a Coca-Cola e a ler o jornal. Depois, a pôr a Coca-Cola e o jornal nos recipientes da reciclagem. Depois tiraram fotografias da equipa da recolha da reciclagem a chegar e a recolher os recipientes, onde estavam o jornal e a Coca-Cola. Depois, seguiram o camião durante todo o caminho até ao depósito do lixo. E aí, tiraram fotografias da equipa de recolha a misturar o lixo para a reciclagem com todo o outro lixo doméstico. Ficaram estupefactos. Aquilo era completamente ilegal. Agarraram naquelas fotografias e levaram-nas até ao jornal da cidade. O jornal pô-las na primeira página. Depois agarraram no jornal, levaram-no ao presidente da câmara e perguntaram: “O que é que vai fazer em relação a isto?”. O presidente da câmara despediu aquela empresa de reciclagem. Isto é uma forma de os estudantes perceberem que não é preciso ser adulto nem é preciso ganhar o Prémio Nobel da Paz, para fazer a mudança acontecer.

2016, catarina marques rodrigues, kerry kennedy, entrevista, apoio humanitário, social,

Kerry pertence aos conselhos de administração do U.S. Institute of Peace, da Human Rights First e da Kailash Setyarthis Children’s Foundation. Tem três filhas: Cara, Mariah e Michaela. (ANDRÉ MARQUES/OBSERVADOR)

Quando se refere aos ativistas de Direitos Humanos, usa muito a palavra “coragem”. A coragem é feita de quê?
A coragem tem duas fases. A primeira é a bravura. Bravura é ter medo e ultrapassar o medo por um bem maior. Tu és valente. Eu sou valente. E a prova é: lembras-te do teu primeiro dia de escola? Quando estavas com medo de deixar a tua mãe e de lhe largar a mão? Mas largaste-a, mesmo com medo, e foste para a escola, certo? Isso foi um ato de bravura, porque ultrapassaste o medo por um bem maior. Outro exemplo: alguma vez foste para um teste sem teres estudado nada? Sim? Isso foi bravura. Porque sabias que não tinhas estudado mas foste na mesma. Tens um medo, mas consegues ultrapassá-lo. A coragem, no sentido maior da palavra, é ser valente não só por ti mas pela sociedade. Como o Nelson Mandela. “Vou arriscar ir para a prisão para que o meu povo possa ser livre.” Isso é a verdadeira coragem.

A Kerry também fundou o RFK Compass, que trabalha no investimento sustentável com líderes da comunidade financeira. É fácil convencer alguém a gastar dinheiro em Direitos Humanos?
Bem, neste programa nós usamos a lógica inversa: se pensarem nos Direitos Humanos, vão poupar dinheiro. Um exemplo: se quiseres investir na Benetton, tens de saber que a Benetton pratica violações de Direitos Humanos no Bangladesh. As condições nas fábricas lá são terríveis. A Nike também tinha essas condições terríveis, mas acabou com isso. O teu investimento na Benetton tem um risco mais elevado, porque a fábrica pode colapsar e isso será muito mau para a tua reputação. Não vais conseguir ter camisolas nas tuas lojas e vais perder o investimento que fizeste. Isso faz com que o teu investimento seja de alto risco. Vais ter de gastar mais dinheiro na Benetton para compensar o investimento, porque o risco é maior. Se não pensares nos problemas de Direitos Humanos da empresa, o teu investimento fica em risco.

Pode dar outro exemplo?
Sim. Este aconteceu nos Estados Unidos. Havia uma mina chamada Big Branch Mine, que era de uma empresa chamada Massey Energy. O Governo federal descobriu que estavam a ser praticadas 64 violações da segurança dos trabalhadores, grande parte delas no sistema de ventilação. Isto só no prazo de um ano. Em abril de 2010, a mina desabou e morreram 29 mineiros. Foi um desastre ambiental e de Direitos Humanos gigante. Esse desastre custou 10 mil milhões de dólares às pessoas que investiram naquela mina, entre despesas de tribunal e outras. Perderam e gastaram montes e montes de dinheiro. A ideia é: se estás a pensar em investir numa mina, tens de ver se há ou não violações da segurança das pessoas. Porque, se não o fizeres, podes perder milhões de dólares. Percebes o que quero dizer? É uma questão de protegeres o teu investimento. Para isso, tens de olhar para estas questões.

A Kerry trabalha em diversas questões, como o trabalho infantil, pessoas desaparecidas, liberdade de expressão, violência étnica, direitos das mulheres e do ambiente. No mundo de hoje, quais são os desafios mais difíceis?
Acho que o maior problema que enfrentamos hoje é a combinação do ódio com a marginalização. Se olharmos para as manchetes dos últimos anos, vê-se ou pessoas a odiarem-se umas às outras ou a excluírem os outros. Exemplos disso são a crise de refugiados na Europa, os ataques do Boko Haram às meninas da Nigéria, a ação do ISIS. São tudo crimes de ódio e intolerância. Os partidos neonazis e de extrema-direita ganharam espaço na Suécia e na Grécia nas últimas eleições. O terceiro partido com mais votos na Itália foi a Northern League, que é o partido anti-imigrantes. No ano passado fizeram um inquérito a sete mil judeus em França e metade deles disse que estava a pensar deixar o país por causa do crescimento das ideias antissemitas.

E nos Estados Unidos?
Nos Estados Unidos vemos um crescimento do discurso de ódio por alguns dos candidatos presidenciais. Acho que este é o assunto mais perverso. É também o assunto que impede as mulheres de serem promovidas a determinados trabalhos, como cargos governamentais. É o assunto que impede as minorias sexuais e LGBT de serem aceites como são. Essa [direitos LGBT] é uma área em que Portugal está muito à frente. O resto do mundo precisa de acompanhar as mudanças que aconteceram em Portugal.

O que é que vai acontecer se Donald Trump for eleito?
Acho que ele seria um desastre. Não só para o nosso país, mas para o mundo. Eu venho de uma família política e penso que há duas maneiras de ganhar uma eleição: a maneira mais fácil é apelando à raiva, ao medo e ao ódio das pessoas. E isso é o que ele tem feito. Foi isso que o fez dizer: “Vamos construir um muro e barrar a entrada dos mexicanos” ou “As mulheres são inferiores”, entre outras coisas horríveis que ele disse contra tanta gente. A forma mais difícil de ganhar uma eleição é apelando à melhor parte da natureza das pessoas. É apelando à confiança no futuro, à capacidade de a comunidade trabalhar em conjunto e à necessidade de todos nós darmos tudo de nós e de nos esforçarmos pela partilha e pelo bem do grupo. Eu acho que essa forma vai vencer. Acredito que Hillary Clinton vai vencer.

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Kerry é a fundadora do programa RFK Compass, que organiza reuniões de investidores que controlam 5 a 7 mil milhões de dólares em ativos para lidar com o impacto das violações dos Direitos Humanos nos resultados do investimento. (ANDRÉ MARQUES/OBSERVADOR)

O que é que aprendeu com o seu pai (Robert Kennedy) e com o seu tio (John F. Kennedy)?
O meu tio morreu quando eu tinha 4 anos e o meu pai morreu quando eu tinha 8 anos. Uma das minhas histórias favoritas sobre o meu tio tem a ver com Portugal. Foi nos anos 50, nos Estados Unidos, quando havia um grande preconceito anti-imigração, em especial no Congresso. O meu tio, John Kennedy, era um jovem senador em Massachusetts. Nessa altura [1957] houve uma erupção do vulcão dos Capelinhos [no Faial], nos Açores, e milhares de pessoas afetadas pelo vulcão quiseram ir para os Estados Unidos. Mas os EUA tinham uma regra que dizia ‘não’ à imigração vinda dos Açores. Havia uma exceção, caso se conseguisse que um senador assinasse os os papéis e concedesse um visto. Aí podia-se entrar à vontade. Um senador só assinava dois ou três, mas o meu tio assinou imensos, dias e dias seguidos, noites e noites seguidas. Assinou dezenas de milhares de pedidos para que os açorianos pudessem entrar nos EUA. Por isso é que tantos açorianos se fixaram em Massachusetts. Para mim, aquilo é um exemplo do sentido de liberdade e de abertura ao mundo, de dar valor a todas as pessoas e da consciência de que todos somos parte do mundo e de que temos de nos apoiar mutuamente. Sobretudo quando há pessoas a sofrer, temos de fazer alguma coisa.

A Kerry escreveu também o livro “Being Catholic Now, Prominent Americans talk about Change in the Church and the Quest for Meaning”. Como é que a Igreja se relaciona com os Direitos Humanos? Acha que podemos ser católicos e defender a contraceção ou os direitos LGBT, por exemplo?
Já pensei muito sobre isso e a minha conclusão é: claro que sim. Se formos ler as histórias de Jesus e da Bíblia, ele passou o tempo todo a questionar as autoridades e as escrituras. E, no fim de tudo, foi isso que o fez ficar naquela situação — ser crucificado. As pessoas não gostaram que ele tivesse ‘dito a verdade ao poder’. Quando o Papa Bento XVI foi a Nova Iorque, disse que um dos pilares do catolicismo é procurar a verdade. Devemos estar constantemente à procura de atingir a verdade. Se tu procurares a verdade, vais questionar a autoridade. E eu acho que essa é a única maneira de procurar a verdade. Tens de estar sempre a perguntar: “Será que isto é mesmo assim?”, “Será que isto está certo?”. Acho que é bom questionar a Igreja nos assuntos relacionados com o controlo das mulheres sobre o seu próprio corpo, por exemplo. Deves sentir-te sempre confortável em questionar. É um dever. Se fores uma católica como deve ser, vais questionar.

E seguindo os ensinamentos de Jesus, considera que ser católica é aceitar toda a gente?
Bem, o padre da paróquia onde eu vou diz sempre: “Que Deus abençoe o mundo inteiro”. Não fala em exceções. Por isso, acho que sim (risos).