Quando tinha uns 13 anos, colei uma página de revista ao lado da minha cama, entre posters de bandas e clichés da pré-adolescência. Era uma entrevista com o Johnny Depp com uma grande foto, meio desfocada e sem pose — despenteado, a sorrir, com um cigarro na mão. Sendo que não tinha grandes pancadas por atores, aquele eu sentia que dava para casar.

Mas não representava só isso, aquela cara bonita cujo nome era mal pronunciado pela maioria das minhas amigas — Johnny “Dipe”, diziam elas, que gostavam de lhe ver a poupa na série “21 Jump Street”. O privilégio de ter um irmão mais velho cinéfilo obrigava-me a ver os galãs de outras perspetivas, que geralmente não eram abordadas nas conversas de balneário das raparigas. É que Depp também era, para mim, um respeitável ator, protagonista de filmes que ainda fazem a Ana Markl adulta respeitar a Ana Marta pequenita (escrevi “Marta” porque as pessoas se enganavam muito na altura).

“Cry Baby”, de John Waters, “Eduardo Mãos de Tesoura”, de Tim Burton, “Arizona Dream”, de Emir Kusturica, e “Gilbert Grape”, de Lasse Hallström, foram os primeiros que me chegaram ao coração. Neste último, também o jovem Leonardo di Caprio fazia um brilharete o que faz pensar que, na Hollywood dos anos 90, o visual vinha por acréscimo ou talvez a ditadura da beleza se insinuasse mais sorrateiramente por entre a coincidência do talento.

A verdade é que nenhum destes papéis fazia de Depp um estereótipo bonitão. E nesta altura, era ele que servia os filmes e não o oposto, como viria a acontecer anos mais tarde. Ser bom ator e blasé dava-lhe um carisma irresistível. Um tipo bonito que não tem medo de ser feio é das coisas mais sexy que há e por isso é que, anos mais tarde, em 1998, eu desejei ir a Las Vegas com um Benicio del Toro gordo e um Johnny Depp careca a fazer de Hunter S. Thompson — drogados, loucos, cartoonescos… E eu cada vez mais com idade para apreciar essa opção de Depp de deixar para trás qualquer resquício de bonitinho.

Em 2007, fui a Londres cobrir uma conferência de imprensa a propósito da estreia de “Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street”, de Tim Burton. Entre os atores, estava, claro, o protagonista Johnny Depp — para quem olhei fixa e demoradamente, num esforço para resgatar a Ana Marta dos 12 anos e dizer-lhe: “Olha aqui, em carne e osso, o homem para quem tu olhavas ao adormecer”. Senti alguma emoção, confesso, mais por me ter aproximado dessa pubescente Ana do que propriamente daquele tipo de chapéu e óculos que estava à minha frente.

Mas, nessa altura, Johnny Depp já era quase só um ator fetiche e produto da imaginação de Tim Burton. Um bocadinho igual a si mesmo, podem acusá-lo, mas não tão igual como quando incorporou o Jack Sparrow de “Os Piratas das Caraíbas”. Para que percebam melhor as consequências deste papel para a sua carreira — ou, melhor, para a minha visão da sua carreira –, descobri há dias um concorrente de um reality show português que é fã de Depp, tatuou a cara de Jack Sparrow num braço, usa uns penachos nas orelhas e diz que é sósia do ator. Quando muito seria da personagem. Agora pensem, como se costuma dizer nos concursos do género.

Nos anos 90, Johnny Depp tinha uma banda, os P, juntamente com o vocalista dos Butthole Surfers. Eu gostava dos P, eles correspondiam musicalmente àquela imagem do Johnny Depp que estava na parede junto à minha cabeceira: um tipo cool, uma banda cool. Mais de 20 anos depois, o Johnny Depp vem ao Rock in Rio Lisboa com um grupo que parece formado por vários Jack Sparrows (sendo que nenhum deles, ainda por cima, é o Keith Richards), em que todos partilham o eyeliner: Alice Cooper e Joe Perry.

Entretanto, no cinema, estreia “Alice do Outro Lado do Espelho”, sequela do filme bastante irrelevante de Tim Burton (que, desta vez, dá lugar ao realizador James Bobin), em que Johnny Depp volta a fazer de Chapeleiro Louco antes de voltar a fazer de Jack Sparrow num novo tomo da saga em 2017. Já não sei onde é que pára o tipo blasé que fazia o que lhe apetecia e começa o senhor que não tem mais nada para fazer. Eu sei que ele se está a divorciar e tudo, mas já não me casava. Nota: ao lado do Johnny Depp, estava colada outra página de revista com o Keanu Reeves de rabo ao léu.

Ana Markl é guionista, apresentadora no Canal Q e animadora de rádio na Antena 3