Numa vasta bacia do “Coração de Plutão”, a região de Sputnik Planum, apareceram umas figuras poligonais irregulares e misteriosas, espalhadas por vários quilómetros. Agora, a revista científica Nature publicou os resultados de dois artigos (este e este) em que é revelado o interior da grossa capa de nitrogénio (azoto) que cobre o planeta anão. Por baixo desta capa ocorrem processos de convenção que originam estas formações geométricas.

Este mecanismo de propagação do calor, provocado por diferenças de densidade entre os materiais, origina uma contração do terreno à superfície, deixando as distintas figuras poligonais. Têm entre 10 e 40 quilómetros de diâmetro e muitas delas apresentam os lados elevados.

“Estes trabalhos de investigação demonstrou que o Sputnik Planum é uma das superfícies mais jovens do sistema solar”, asseguraram Andrew Dombard e Sean O’Hara, do Departamento de Ciências Ambientais e da Terra, da Universidade do Illinois (Chicago), num comentário aos trabalhos publicados. “É um planeta anão e gelado, mas é geologicamente dinâmico.”

Para resolver o mistério sobre estas formações, a equipa liderada por William McKinnon, investigador no Centro McDonnell para as Ciências da Terra e Planetárias da Universidade de Washington (Saint Louis, Missouri), usou as medições feitas pela nave New Horizons para mostrar que as capas de gelo, de mais de um quilómetro de espessura, apresentavam fluxos de calor no seu interior. Os autores consideraram que as convecções poderiam explicar a grande largura lateral dos polígonos.

Por sua vez, a equipa liderada por Alexander Trowbridge, investigador no Departamento de Ciências da Terra, Atmosféricas e Planetárias da Universidade Purdue (West Lafayette, Indiana), analisou a existência dos polígonos usando outra técnica. No seu trabalho aplicaram modelos numéricos ao nitrogénio sólido e também comprovaram que este gelo está sujeito a mecanismos de convecção no interior.

Há mais polígonos no sistema solar?

Os autores pensam que este tipo de mecanismos, como os que renovam as capas de gelo continuamente, podem ocorrer noutros planetas anões da cintura de Kuiper – um conjunto de objetos que se localizam além da órbita de Neptuno, dos quais pouco se sabe. A explicação sobre a formação de polígonos sobre a superfície dos planetas gelados permite arriscar dizer que possam existirem situações como esta noutros pontos do espaço.

“Plutão mostra-nos que os processos planetários funcionam da mesma maneira independentemente do lugar do sistema solar onde ocorram”, estimam Paul Schenk, investigador do Instituto Planetário e Lunar do Texas, e Francis Nimmo, investigador na Universidade de Santa Cruz, num outro artigo publicado na Nature Geoscience.

Artigo adaptado de Agencia Sinc (artigo original aqui)