Mas, onde é que ele anda?

Já passaram por ali quase todos. O nome, a reputação, o que fizeram no jogo e, no fundo, quem são, determina o tempo que demoram a sair dali. As perguntas assaltam-nos, a zona mista é o único espaço que nós, jornalistas, temos para falar um para um com os craques da bola. Ou um para dezoito, porque depende, lá está, de quem eles são e do interesse que geram. Só alguns polacos apareceram e, dos alemães, já quase todos se desfilaram pela passadeira dos microfones e telemóveis em punho, com o gravador ligado.

Thomas Müller, o brincalhão que tem fama de brincalhão e bem-disposto, sorri e diz que “não, desculpa”, quando lhe peço tempo em inglês. Mezul Özil, o pintor com pincel no pé esquerdo, apenas diz “não”, enquanto ajeita o boné que tem na cabeça, com a pala para a frente. Ambos fazem o mesmo após darem uma nega ao português que não sabe patavina de alemão — vão falar alemão com uma avalanche de jornalistas alemães. É a vida. Pouco depois, agradeço a Ter Stegen por ser quem é, um guarda-redes simpático, com inglês perfeito e com paciência de sobra para conversar. Danke. Mas o outro, aquele com quem mais quero falar, continua sem aparecer.

Olho em volta e reparo numa das televisões. Percebo a demora. Jérôme Boateng está a falar na conferência de imprensa, não parece muito animado, mas ao menos ainda aí vem. Não era preciso ter feito o jogo que fez para querer (muito) dar-lhe uma palavrinha e pedir-lhe as dele em troca. Mais do que um rapaz grandalhão, defesa dos bons, atlético como poucos e que acabou de secar Robert Lewandowski em campo, este alemão dá-se muito a conhecer. Sei que este Europeu é a competição que mais quer ganhar de sempre, que acha Lewandowski o “melhor avançado do torneio”, que estava “ansioso” por o enfrentar, que tenta ser confiante ao máximo por saber que avançados como ele “cheiram o medo de os enfrentares num duelo”.

E sei isto tudo porque Jérôme Boateng, além de jogador, parece ser um tipo porreiro, já que escreve na primeira pessoa — ou alguém escreve o que ele diz para um site chamado Player’s Tribune. É por isso que, mal ele aparece no corredor da zona mista do Stade de France, fico contente. Em pulgas até. Aí vem ele, só que vem apressado, olhos cravados no chão, a caminhar sem olhar para o lado. Suspeito que ele não terá falado com ninguém antes, mas é impossível saber. Estico a mão, faço-lhe sinal, peço-lhe que pare um pouco, pergunto-lhe se podemos falar. “Uma pergunta”, responde-me, algo bruto e cabisbaixo. Alguém está maldisposto, afinal.

PARIS, FRANCE - JUNE 16: Jerome Boateng of Germany blocks the shot by Robert Lewandowski of Poland during the UEFA EURO 2016 Group C match between Germany and Poland at Stade de France on June 16, 2016 in Paris, France. (Photo by Shaun Botterill/Getty Images)

Foto: Shaun Botterill/Getty Images

Quero perguntar-lhe sobre o jogo, a forma como defende, os passes que faz, o Ronaldo, a forma como o anula há quatro anos, Pep Guardiola, como estuda os avançados, tanta coisa. Ele encosta-me à parede. O empurrão que me sai é atirar-lhe com um avançado polaco que não deixou jogar no Stade de France.

— A Alemanha empatou, mas não deste hipótese ao Lewandowski, ganhaste-lhe todos os duelos e bolas. Como foi defrontá-lo?

“Foi como sempre. Duro, difícil, ele é um dos melhores avançados. Hoje defendemos bem como equipa, não fui só eu.”

— Já o conheces do Bayern de Munique. Mesmo assim, estudaste-o muito antes do jogo?

“Bem, eu conheço-o muito bem, sim, mas ele conhece-me também. Ele jogou bem, beneficiou de ter muito apoio de outros jogadores mais atacantes da Polónia. Foi difícil, mas controlámo-lo bem como equipa.”

A ouvir e a responder, Boateng não muda a postura. Está colado a mim, bem junto à grande que nos separa, mas tem a cabeça em baixo. Não tira o olhar dos pés, nem quando fala. Tem uma mochila às costas e óculos de ver na cara. Tento espreitar-lhe a cara, de vez em quando, e não se altera. Parece um miúdo no corpo de um adulto, que fez asneira na escola e baixa a cabeça enquanto leva um raspanete.

Antes, sequer, de poder tentar a sorte com mais uma pergunta, ele diz “OK, bye”, e zarpa dali para fora. Uns dois metros ao lado estão mais de dez jornalistas alemães, acabados de interrogar com Thomas Müller, e viram-se logo para Boateng. Uma nova presa. Uns mais altos que outros, começam a dirigir-lhe pequenas frases em alemão. Ele abana a cabeça e não abranda a marcha, segue para a porta de saída. Está cheio de pressa, com o humor difícil, vê-se que não lhe apetece nada estar ali.

Tenho pena, fico desiludido, não fiz as perguntas que queria. Mas algo contente ao mesmo tempo, por o ver sair dali rápido e sem falar com mais alguém. Ao menos isso, consegui arrancar-lhe algo, mesmo que pouco. Só não consegui que erguesse a cabeça enquanto respondia. Talvez fosse do empate sem golos com a Polónia, da conferência de imprensa anterior ao jogo, da noite mal dormida, da falta de paciência. Ou do mau humor da altura, às vezes acontece.