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Depois de ter estado agarrado à guitarra e ao microfone durante quase uma hora, na abertura do palco principal do segundo dia do NOS Primavera Sound, Cass McCombs foi pôr em prática o lema sexo, drogas e rock’n’roll para o backstage. Mentira. O californiano tem um álbum pronto a sair no dia 26 de agosto e, em vez de ir beber umas cervejas, reservou tempo na agenda para dar algumas entrevistas a meios portugueses e estrangeiros. O que, até há um par de anos, era coisa rara.

Bom, não podemos garantir que não tenha bebido qualquer coisa antes. Durante a conversa com o Observador, esteve sempre descontraído, sorridente e até um pouco gozão, característica que não se colaria automaticamente ao autor de canções como “County Line” ou “Morning Star”, duas das músicas que tocou naquela tarde de sexta-feira.

O concerto começou às 17h55, hora a que habitualmente as pessoas estão a chegar ao festival e em que muitos dos presentes estão sentados a apanhar sol e a conversar sobre o que gostaram de ver no dia anterior, ou a enumerar o que não vão querer perder naquele dia. No rescaldo, Cass McCombs não se queixa da hora atribuída, dada a menos introspeção do que a noite. “Foi bom, foi bom! Eu adoro tocar, a qualquer hora”, diz com simplicidade e um sorriso nos lábios.

Perguntamos se não se incomoda com o facto de as pessoas não estarem particularmente atentas nas primeiras horas de um festival. “Eu odeio pessoas. [risos] Estou ligeiramente a brincar. Não estou nada [risos]. As pessoas são pessoas… Não, o público foi bom hoje. Foi quase o máximo de pessoas para quem já toquei, estava algo nervoso, não sabia bem com que posição devia estar em palco.”

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“Eu odeio pessoas. Estou ligeiramente a brincar. Não estou nada”, diz, invariavelmente, a rir-se. MICHAEL M. MATIAS / OBSERVADOR

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Hmmm… Isso não pode ser verdade. “OK, talvez seja mentira”, admite. “Mas por alguma razão estava nervoso. Foi bom, e tivemos oportunidade de fazer jams.” Verdade, sendo que a mais longa talvez tenha sido “Dreams Come True Girl”, que ocupa cinco minutos do disco Catacombs, de 2009, e que no Porto teve direito a longa viagem instrumental de guitarra. “Por causa das jams tivemos de cortar várias músicas [do alinhamento], acabámos por nos deixar ir. Cada músico pode chegar-se à frente e tomar o controlo da canção, seja o baixista, o baterista ou o teclista. Há muita improvisação. E não podes dizer a um gajo para parar, sabes? É contra o código.”

Que canções ficaram de fora então? “Uma delas foi ‘What Isn’t Nature’, que o Lee [baterista] lembrou, do primeiro álbum. Mas não tivemos tempo. Houve mais uma ou duas a ficar de fora. Às vezes consegues tocar todas. Outras vezes perdes-te no desconhecido. Nunca sabes! E não queremos saber. Há muitas bandas que parecem estar num turno, que sabem exatamente o que vão fazer, ou está tudo no computador. Nós somos o oposto.”

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“Às vezes consegues tocar todas. Outras vezes perdes-te no desconhecido. Nunca sabes! E não queremos saber.” MICHAEL MATIAS / OBSERVADOR

Tocar é o que importa. Compor também, sobretudo para que não falte material para mostrar ao vivo. Lá isso é o que não falta: em 2013, Cass McCombs lançou Big Wheel and Others, disco duplo carregado de identidade americana. No ano passado saiu A Folk Set Apart. Em 2011 tinha lançado dois álbuns, este ano repete a façanha, com Skifflin’, fruto de um projeto paralelo, e em breve Mangy Love, com data de saída marcada para 26 de agosto.

Peço desculpa se é demasiado para digerir“, comenta, para invariavelmente acabar a frase a rir-se. “E não chega sequer a metade do que tenho em casa. Todos os dias conheço músicas, velhas músicas folk, em livros e em discos. O projeto Skiffle começou por causa disso, porque conheço muitas canções tradicionais, de folk, country, blues, também britânicas, irlandesas, e foi uma maneira de separar as águas em relação a isto.”

Voltemos então a “isto” e a Mangy Love. “Tocámos algumas jams novas hoje no concerto”. “Opposite House“, divulgada há três semanas, é a única que se conhece do novo disco. O que tocou mais? McCombs reconsidera. “Bom, talvez tenha sido a única nova que tocámos hoje”.

Mangy Love foi feito “rapidamente, há um ano” e conta com colaborações de vários músicos, como já é habitual. Em “Opposite House”, por exemplo, temos a voz de Angel Olsen. “Conhecemo-nos num festival há um par de anos, trocámos correspondência, mandou-me música dela e eu achei que ela era perfeita para esta canção em particular.” McCombs enviou-lha sem qualquer indicação e Angel Olsen pintou-a como quis, inspirada pelo grupo soul Chi-Lites. “Foram um dos melhores grupos vocais dos anos 70”, explica o músico de 38 anos. “Sem soar a eles. A música soa totalmente a Angel Olsen”.

E a ele, já que Mangy Love não fugirá à identidade McCombsiana. “Mais do que tentar fazer álbuns diferentes, tento fazer cada canção diferente da última“. Palavras sábias, logo contrabalançadas com uma confissão. “A maior parte das minhas merdas são roubadas“, diz, entre risos. A quem? Músicas tradicionais, contemporâneas? “Yeah. Festivais… ‘Olha que giro, vou roubar’. Ponho o meu nome e tento vender”. Engana-nos mais, Cass.

Talvez os sorrisos e a extrema descontração perante o gravador não fossem o resultado de álcool bebido no backstage para enfrentar entrevistas. Quem chega a um palco e toca as músicas que quer, com as improvisações que entende, durante o tempo que achar que elas devem durar, tem todos os motivos para se sentir feliz.

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“Vá, já chega de fotografias”. MICHAEL M. MATIAS / OBSERVADOR