O povo britânico votou a saída da União Europeia e, momentos depois, desaparecem biliões de euros dos mercados financeiros. Apenas na bolsa de Londres, evaporaram-se 150 mil milhões de euros nos primeiros minutos da sessão desta sexta-feira.

Também houve muitas desvalorizações nos mercados da dívida, excluindo os títulos classificados como mais seguros, como os papéis soberanos da Alemanha e da França. A queda da libra esterlina – que chegou a cair quase 8% contra o euro – também eliminou valor das carteiras dos investidores portugueses.

Que fazer neste cenário? “Nada”, responde a maioria dos vários especialistas consultados pelo Observador. Se estiver confiante no futuro no longo prazo, deve comprar e nunca vender, acrescentam.

“Se for um [investidor] particular, deve estar quieto. Não deve mexer no seu portefólio que deve estar devidamente balanceado. Tratar-se-ão de poupanças para a vida, portanto, não há nada que deva fazer”, explica Rui Bárbara, gestor de ativos do Banco Carregosa. Mesmo os aforradores que aplicam maioritariamente em instrumentos de baixo risco, o conselho é ficar quieto. “Se [o aforrador] tem uma carteira adequada aos objetivos e ao seu perfil, deve deixar-se estar”, acrescenta Rui Bárbara.

Miguel Gomes da Silva, o diretor da sala de mercados do Montepio, concorda. “Os investidores de médio e longo prazo devem wait and see”, isto é, esperar para ver o que acontece nas próximas horas e dias, avisa o autor de Ganhar na Bolsa com Análise Técnica.

Tiago da Costa Cardoso, gestor da XTB, afirma que, “nesta altura, há que ser moderado e não assumir riscos desnecessários”.

É uma boa altura para reforçar as aplicações?

Emília Vieira, a presidente da Casa de Investimentos, revela ao Observador que a sociedade gestora de fortunas está ativa no mercado a comprar. “Estamos a aproveitar a volatilidade para comprar excelentes negócios”, explica a especialista, que viveu muitos anos em Londres. É uma oportunidade para “comprar negócios sólidos com balanços fortes e com vantagens competitivas”, conta a presidente da sociedade gestora que investe no longo prazo.

Emília Vieira não revela o que anda a comprar – embora desvende que poderá aproveitar para fazer o rebalanceamento da carteira, que estava muito exposta à América –, mas é transparente no que não anda à procura. “A banca europeia não tem interesse para nós; não queremos especulação”, afirma a presidente que forneceu uma rentabilidade anual de 10,97% entre novembro de 2010 e maio de 2016.

Emília Vieira conclui que é possível que a liquidez da carteira dos clientes – a parte não investida – fique “muito, muito reduzida”. Em novembro passado, quando o Observador entrevistou a presidente da Casa de Investimento, Vieira explicou que “a liquidez não é mais do que flexibilidade para comprar negócios extraordinários que entretanto ficam baratos”.

Steven Santos, gestor do Banco de Investimento Global, aconselha os investidores portugueses a procurar algum refúgio, “como no iene, ouro, prata e, talvez, franco suíço”, embora a divisa helvética corra algum risco de o banco central intervir no mercado. “O mercado está emotivo”, acrescenta Steven Santos, cujo conselho é, para os que puderem, evitarem a bolsa.

Nem todos concordam que é uma boa altura para comprar. Miguel Gomes da Silva diz que não se vive um verdadeiro crash, uma queda acentuada da bolsa que, para o diretor do Montepio, começa nos 20%. “Numa perspetiva de day-trading [negociação diária], hoje é um bom dia”, porque os investidores podem aproveitar a volatilidade a seu favor, mas os outros devem afastar-se – das compras e das vendas.

Paulo Rosa, economista e corretor da GoBulling, aconselha mesmo os investidores de longo prazo a não comprar. “Devem esperar para ver qual o caminho que os mercados vão tomar”, avisa. João Pereira Leite, diretor de investimentos do Banco Carregosa, que detém a marca GoBulling, acrescenta que os investidores não devem seguir “decisões emocionais”.

No caso de um aforrador mais conservador, João Pereira Leite afirma que “deve equacionar a hipótese de ter a sua carteira custodiada num banco fora do sistema financeiro português”. Os clientes de banca privada podem, muitas vezes, solicitar ao seu banco a garantia que o seu dinheiro é guardado numa instituição de um determinado país ou, eventualmente, num banco específico.

As recomendações feitas antes do referendo para um cenário de Brexit publicadas pelo Observador no passado domingo mantêm-se válidas. Depósitos a prazo mais longos e Certificados do Tesouro Poupança Mais em vez de Certificados de Aforro foram algumas das ideias sugeridas.