Na manhã de 19 de novembro de 2014, Luís e Sandra Rodrigues viajaram para Paris com o objetivo de verem Elton John ao vivo no Palais Omnisports de Paris-Bercy. Até partilharam o voo da EasyJet com José Sócrates que, três dias depois, no regresso a Lisboa, seria detido. Ao contrário do ex primeiro-ministro, o casal tem memórias bem melhores dessa viagem. Pagaram 400 euros por cada bilhete de concerto para ficar na terceira fila da plateia. “Até a cor das meias do Elton John conseguíamos ver”, recorda Luís. Era só ele e o piano em palco, sem banda, o que tornou o espetáculo muito mais intimista do que aquele a que assistiram esta quinta-feira, no primeiro dia do festival Marés Vivas.

Ainda assim, apesar de ter sido “uma experiência inesquecível”, gostaram mais do concerto desta noite, na Praia do Cabedelo, cujo bilhete custou apenas 35 euros e onde não tiveram direito a lugar sentado, muito menos a ver de perto as meias do autor de “Your Song”. “Este concerto foi mais longo e o som estava muito bom. O pavilhão de Bercy não tinha grande acústica”, diz Luís ao Observador, no final de duas horas de música dada por Sir Elton John.

Comecemos pelo princípio. O dia pôs-se quente, bonito e, mais importante para a qualidade do som, sem vento, coisa rara na Afurada. Os barcelenses Glockenwise e os Killimanjaro abriram o dia com rock no palco secundário, Kelis, nascida no Harlem, trouxe os teclados, o R&B e a soul para o local onde o rio e o mar se encontram, e fez a transição do dia para a wonderful crazy night que a maioria dos presentes esperava de Elton John. A entrada do piano em palco, 20 minutos antes da entrada do cabeça de cartaz, teve tantos aplausos do público quanto a entrada de Kelis, meia hora antes (sim, ela tocou pouco mais de 30 minutos).

Festival Maré Vivas Elton John

“Boa noite, Porto! É a primeira vez que atuo nesta bela cidade”. © Artur Machado / Global Imagens

Às 20h59, Sir Elton John, 69 anos, entra em palco já ao som de “The Bitch is Back”, de 1974. Bem humorado, veste um fato pouco discreto, como ele: preto com brilhantes vermelhos por todo o lado, sapatos vermelhos a condizer. No primeiro minuto de música já se estava a sentar em cima do piano e a pedir palmas. Quem sabe, sabe.

Acompanhado por cinco músicos, um deles nas teclas, para dar apoio ao piano, os cabelos brancos estão em claro domínio no palco, mas não no público. Há pessoas de todas as idades. Afinal, quem não conhece pelo menos “Daniel”, a eterna “Your Song” ou “Sorry Seems to be the hardest word”? Ouviram-se as três esta noite e muitas mais, num alinhamento que serviu como montra de uma carreira com mais de meio século.

Boa noite, Porto! É a primeira vez que atuo nesta bela cidade“, diz o britânico no final da segunda música, “Bennie and the jets”, mais uma velhinha, de 1973. Já tem o público na mão, pelo que arrisca duas canções do novo disco, Wonderful Crazy Night, após 10 anos sem editar: “Looking Up” e “A Good Heart”. Os fãs acalmam, há que lançar rapidamente e em força “Rocket Man”, introduzida com um longo solo de piano, só Sir Elton e os festivaleiros. No final, prolonga a parte instrumental, já com banda, e protagoniza um dos momentos mais bonitos até ali. No final, levanta-se do piano para ir cumprimentar o outro lado do palco e recebe de presente e um fã uma bandeira de Portugal, que levanta e coloca no piano. Depois de tantos minutos concentrados num sucesso, a música que se segue, “Tiny Dancer” serve para muita gente postar fotos no Instagram ou dizer em que está a pensar no Facebook.

Festival Marés Vivas

O recinto foi enchendo e ficou lotado para ver Elton John. © Artur Machado / Global Imagens

“Don’t let the sun go down on me” faz as delícias da maior parte dos ouvidos deste recinto, tanto que, no final, os aplausos podiam prolongar-se com facilidade. Mas há um espetáculo para fazer e o guitarrista escocês Davey Johnstone chega-se logo à frente com o riff que introduz “All the girls love Alice”, mais uma de 1973 e uma das canções mais rock da noite. Daí até ao encore é sempre a abrir.

Quase às 23h00, os seis saem do palco sem dizer palavra, mas todos sabem que Elton John, que se mostrou tão simpático toda a noite, não se vai embora assim, sem se despedir. De qualquer maneira quase não haveria tempo para ficar na dúvida. O homem da noite regressa sozinho passados 10 segundos, faz uma vénia ao público, senta-se ao piano e brinda os presentes com “Candle In the Wind“. Os fãs respondem com mais luzes de telemóvel do que propriamente lume a sério. Outros aproveitam para filmar. Apetece gritar bem alto que este é um momento demasiado bonito para estar a ser visto através de um ecrã de telemóvel, mas não há nada a fazer. No mar está um iate parado o mais próximo possível do palco, a aproveitar a borla (quem tem um barco daqueles bem que podia pagar os 35€, mas o conforto há de ser outro, e de certeza que ali dentro não há filas para a casa de banho).

E para que ninguém saia da Praia do Cabedelo a pensar na morte prematura de Norma Jean, ou Marilyn Monroe, Elton John e os seus músicos deixam como última memória a Vila Nova de Gaia a agitada “Crocodile Rock”, carregada de “lá lá lá lá lá” que a multidão pode entoar para a despedida.

Festival Marés vivas elton john

© Artur Machado / Global Imagens

Musicalmente, foi uma noite maravilhosa, sim. Mas, ao contrário do título do álbum, não foi louca. Loucura é o que se pode chamar ao que aconteceu em Nice. Ao mesmo tempo que em Gaia se celebrava a música de Elton John e em Lisboa a dos The National, outras 70, 80 ou 90 pessoas que se divertiam nas ruas e esplanadas da cidade francesa morreram num ataque.

“It’s sad, so sad
It’s a sad, sad situation.
And it’s getting more and more absurd.”

No dia 11 de dezembro, Elton John regressa a Portugal com “Sorry seems to be the hardest word” e muitas mais, para um concerto na Meo Arena. Luís e Sandra, claro, já têm bilhete. E a esperança de que a acústica do pavilhão português se porte melhor do que aquela do Palais Omnisports de Paris-Bercy.

Alinhamento do concerto de Elton John no festival Marés Vivas:

  1. The Bitch is Back
  2. Bennie and the jets
  3. I guess that’s why they call it the blues
  4. Looking Up
  5. A Good Heart
  6. Philadelphia Freedom
  7. Rocket Man
  8. Tiny Dancer
  9. Daniel
  10. Levon
  11. Goodbye Yellow Brick Road
  12. Burn Down The Mission
  13. Sorry seems to be the hardest word
  14. Your Song
  15. Sad Songs (say so much)
  16. Don’t Let The Sun Go Down On Me
  17. All The Girls Love Alice
  18. I’m Still Standing
  19. Your Sister Can’t Twist (but she San rock n’roll)
  20. Saturday Night’s Alright For Fighting

Encore:

  1. Candle In the Wind
  2. Crocodile Rock