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Chamaram-lhe “profeta”. Não profeta da desgraça, mas profeta da “luz ao fundo do túnel”, por ter previsto, num dos últimos discursos que fez na Festa do Pontal, que a partir de 2014 e 2015 a economia ia começar o sentido da recuperação, como lembrou o presidente da distrital do PSD Algarve, David Santos, momentos antes de Pedro Passos Coelho subir ao palco do jantar comício da rentrée social-democrata, em Quarteira. Passos subiu, não para fazer nenhuma profecia mas para dizer que tinha razão: o caminho estava certo, foi alterado e agora os sinais dados pela economia, que antes eram positivos, apontam para a “estagnação”. E agora? Agora, o líder do PSD quer saber o que pretende o Governo fazer para voltar a pôr a trajetória em crescendo e acusa a “troika das esquerdas” de já ter “esgotado” todos os pontos que tinha em comum. E nem esses deram certo. “Que coisas novas têm para propor ao país?”, perguntou.

“Depois de terem reposto os feriados, os dias de férias, as 35 horas, o Governo praticamente esgotou o seu compromisso dentro dos partidos que formam a maioria e o resultado é a estagnação económica. O que teremos daqui para a frente? Que coisas novas tem o Governo para propor ao país?”, questionou, numa intervenção de pouco mais de meia hora, onde reforçou que vai “aguardar com muita curiosidade” o que vai acontecer nos próximos meses. Não por achar que PS, PCP e BE não se vão conseguir entender para elaborar o Orçamento do Estado para 2017, mas sim por querer saber que medidas vão tomar, numa altura em que a recuperação de rendimentos da função pública está concluída. “Alguma coisa populista que não custe dinheiro?”

É esperar para ver. Só “há uma coisa que não é preciso esperar para concluir desde já: que esta solução de Governo está esgotada, e não tem nada para oferecer do ponto de vista económico, a não ser estagnação e conflito com os credores”, disse. E acrescentou: “Esta troika governativa só sabe fazer o que é fácil, depois do que é fácil acabam-se as boas ideias” já que “o que exige reformismo e coragem não mora neste Governo”.

Na base da argumentação estão os dados económicos divulgados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística, que apontam para um crescimento económico no segundo trimestre de apenas 0,2% em comparação com o primeiro trimestre. “Lembro-me bem de como no mês de agosto de 2015 tínhamos boas razões para estar confiantes com o que estava a acontecer: o consumo estava a retomar, o investimento a atingir o ponto mais alto de que tínhamos memória, havia boas notícias do lado das exportações e toda a atividade económica mexia”, “no espaço de um ano as coisas alteraram-se e não foi para melhor”, afirmou, sublinhando que agora o país está a crescer “metade do que estava a crescer há um ano”.

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“Não seremos cúmplices do que está a acontecer em Portugal”

Mas Pedro Passos Coelho não tem dúvidas de que, qualquer que seja a ideia que saia da cartola, o Governo, o PS e os parceiros parlamentares não vão ter problemas em aprovar o Orçamento do Estado para 2017 — mesmo que PCP e Bloco de Esquerda “ensaiem algumas discordâncias para ver se conseguem manter um espaço próprio que não se confunda com o Governo”. Antevendo a discussão que se segue, e que vai marcar a agenda política dos próximos meses, Passos deixou claro que não vai compactuar com o atual Governo. “Se há um esgotamento desta solução de Governo nós temos de permanecer fiéis ao que é o nosso compromisso com o país”, disse, acrescentando que “enquanto líder do PSD” nunca abdicará “de lutar por esta visão e por este futuro para o país”. “Não seremos cúmplices do que está a acontecer em Portugal”, rematou.

Em março, quando o Parlamento discutiu o Orçamento do Estado para 2016, o PSD adotou a postura de não apresentar propostas de alteração, chumbar as propostas do Governo e abster-se em todas as propostas de alteração dos restantes partidos. Tudo para não ser cúmplice de um orçamento em que não acreditava. Agora, em vésperas de novo orçamento, Passos Coelho afirma que o importante é “arrepiar caminho” e construir “outra solução”. “Temos de acabar com esta política de fingimento, superficialidade e ligeireza, que empurra com a barriga e logo se vê”, afirmou.

O futuro Orçamento do Estado e o estado da economia, a par da insistência sobre a necessária reforma da Segurança Social, dominaram a intervenção de Passos na Festa do Pontal, um jantar comício em mangas de camisa, bronzeado e algumas barbas de dias de férias, que, segundo a organização, terá contado com cerca de 2 mil participantes, mas que não teve o entusiasmo de outros dias.

O caso das viagens de governantes ao Europeu de futebol pagas pela Galp passou incólume, e sobre a resposta do Governo à tragédia dos incêndios que deflagraram no país Passos disse que chegará a “hora” de falar. Mas não agora, para não ser confundido com “aproveitamento político”. Também as eleições autárquicas, que já agitam o partido por dentro, ainda não saltaram para fora: para isso estará reservado o Pontal de 2017, esse sim realizado em plena campanha eleitoral.