Esta é uma história de amor. Bem, não é, mas podia ser, já que inclui a “tampa” de uma “miúda”, de seu nome Manuela Ferreira Leite. E esta é uma história antiga, tão antiga quanto a da democracia. Já lá vão 40 anos e como todas as histórias que se prezem também esta tem os seus altos e baixos, tem aquele período de rutura em que se dá “um tempo”, e tem um episódio de rivalidade entre machos alpha. Afinal talvez pudesse mesmo ser uma história de amor. Mas já lá vamos.

Começa assim. Corria o ano de 1976, o PSD tinha conseguido eleger apenas um deputado no Algarve, contra seis do PS, e o contraste de apoiantes laranja entre o norte e o sul do Tejo era evidente. Era preciso fazer alguma coisa. Então porque não aproveitar a altura em que a política vai a banhos para levar os banhos à política? Como os escassos apoiantes do PSD no Algarve não chegavam nem para preencher a linha da frente de um qualquer auditório, a ideia foi realizar uma festa no local indicado para os apoiantes de todo o país se deslocarem em dias de sol. Assim nasceu o Pontal, num pinhal de Faro com o mesmo nome, junto ao aeroporto, que começou por ser um autêntico festival de verão, com todo o pó, música e atividades lúdicas a que tem direito.

Francisco Sá Carneiro deu o exemplo e foi, no seu tempo, frequentador assíduo da festa, mas o gás foi-se perdendo com os anos. Cavaco Silva, algarvio de gema, procurou dar um novo impulso e foi com o cavaquismo de Boliqueime que a festa de verão do PSD teve maior atenção mediática. Começou a depositar-se uma grande expectativa no discurso do líder, e as televisões não perdiam pitada — mesmo numa altura em que não havia ainda canais noticiosos. Mas mais uma vez o gás espumou-se e, no pós cavaquismo, o Pontal, que entretanto tinha passado do pinhal para a baixa de Faro, viu uma interrupção significativa — ora por falta de dinheiro, ora por falta de vontade. No primeiro ano de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto líder, o Pontal só se realizou porque o agora Presidente da República desembolsou um cheque de 5 mil contos. Desembolsou, sim, do próprio bolso. Depois de Marcelo mais nada, até Marques Mendes.

E a seguir veio Passos, que fez questão de quebrar o jejum da presença de líderes no Algarve. Este domingo realiza-se mais uma edição do Pontal, já no calçadão de Quarteira. É a sétima festa de Passos Coelho à frente do PSD, mas a primeira desde que saiu do Governo e voltou para o papel de líder da oposição. Já não é a festa da sardinha assada de antigamente, agora é apenas um jantar (que até custa 10 euros aos participantes), que arranca com um momento de música popular ao vivo e que termina com o discurso do líder.

Este ano vai ser também emitido nos ecrãs do calçadão de Quarteira, sabe o Observador, um vídeo de cinco minutos com a história do Pontal. Vai desde esses tempos de Sá Carneiro a Passos Coelho, passando por Cavaco Silva, e com um lamiré sobre a presença dos três M’s: Marcelo, Marques Mendes e Menezes. É que o quarto M, de Manuela Ferreira Leite, sempre faltou à festa. E no tempo de Durão Barroso e Santana Lopes nem sequer houve Pontal.

Uma espécie de Avante laranja

“Era uma romaria, tinha atividades o dia inteiro e era tudo gratuito”, explica ao Observador o presidente da concelhia do PSD de Faro, o deputado Cristóvão Norte, que frequenta o Pontal desde criança. O seu pai, também Cristóvão Norte, deputado constituinte, foi um dos promotores do evento. Na altura era tudo diferente, a festa tinha jogos, música e atividades desportivas. “Uma das etapas do campeonato nacional de motocross chegou a ser no Pontal”, lembra. A ideia era criar um autêntico festival de verão — era aliás essa discrição que aparecia nos cenários de fundo — e por isso realizava-se num pinhal, entre a torreira do sol e as sombras dos pinheiros.

Não estava ao nível da Festa do Avante, que marca a rentrée comunista há 40 anos, mas ambicionava ser uma festa tão popular quanto essa. Sá Carneiro e Pinto Balsemão, quando eram líderes do PSD, chegaram a participar nas primeiras edições. Esses foram os anos dourados, segundo Cristóvão Norte, sendo nessa altura que a festa atingia picos de participação popular, passando, diz, os 10 mil participantes.

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Imagens do arquivo do PSD e cedidas por Cristóvão Norte

De Cavaco ao duelo de titãs: Pontal contra Pontinha

Cavaco tinha duas coisas que o favoreciam no que à festa do Pontal diz respeito: era primeiro-ministro e era algarvio. Foi com este líder social democrata natural de Boliqueime que a festa ganhou novo fôlego. Os primeiros anos ainda se realizaram na mata do Pontal, em Faro, mas em 1988, Cavaco quis tornar a festa de verão laranja num comício mais institucional, mais político, e menos festivaleiro. Passou-a para a baixa de Faro e encurtou-se o calendário: em vez de ser um dia de festa, passou a ser, como é hoje, só um final de tarde, que se arrastava para a noite.

Segundo recorda Cristóvão Norte ao Observador, nessa altura, no início dos anos 90, o PSD ainda levava ao Pontal “umas cerca de 10 mil pessoas”, mas aos poucos foi “refreando o ímpeto participativo”. Hoje se a participação chegar às 2 mil o partido aplaude. Cavaco tornou o Pontal no Pontal dos discursos, a verdadeira festa da rentrée, mais virada para a mensagem política, para dentro do partido e para fora, do que para a atividade lúdica.

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Imagens do arquivo do PSD e cedidas por Cristóvão Norte

O último Pontal de Cavaco, ou melhor, o primeiro pós-Cavaco (com Fernando Nogueira na liderança do partido), viria a ficar particularmente bem gravado na história, mas por mérito do adversário. Em 1995, depois de dez anos de forte mobilização e consolidação da festa algarvia, o PS tem reservada uma surpresa para os rivais. Com António Guterres ao leme, seguro de que iria para o Governo e de que era a sua vez de brilhar, a máquina socialista prega uma rasteira descarada à máquina laranja e convoca o seu comício de rentrée para Faro, exatamente à mesma hora do Pontal. Mais: o local de Faro escolhido não podia ter melhor nome, era o largo da Pontinha, a escassos 300 metros do local onde decorria o jantar comício do PSD.

Foi por isso o episódio do Pontal versus Pontinha. Fez as delícias dos jornalistas e dos canais de televisão, que até puseram helicópteros a sobrevoar a zona para ver qual dos comícios tinha mais gente. Comentadores e jornalistas andavam desenfreados de um lado para o outro na baixa de Faro para poderem espreitar o ambiente dos dois eventos políticos. Não foi mais do que uma provocação, já que o PS nunca mais realizou nenhum comício de rentrée naquela zona, mas a máquina socialista saiu-se bem na capacidade mobilizadora e o golpe caiu bem à opinião pública. O tempo era quente, estava-se a escassos meses das eleições, de que Guterres acabaria mesmo por sair vencedor.

Marcelo, o mecenas

Acabou o cavaquismo, veio o guterrismo, o PSD perdeu o poder. E o dinheiro. Em tempos de restrições financeiras para o partido, no verão de 1997 a rentrée do Pontal esteve a um triz de não se realizar. Era Mendes Bota, líder da distrital social-democrata do Algarve, que organizava a festa (organizou 14 das 29 edições) e nesse ano, se não fosse o mecenas Marcelo Rebelo de Sousa, à data líder do partido, não tinha havido nada. Foi Marcelo quem passou um cheque de cinco mil contos a Mendes Bota para erguer o Pontal.

“Foi a despesa singular mais cara que tive na política”, admitiu o agora Presidente da República ao jornal i no ano passado. Mas a festa estava mesmo por um fio. Em 1999 ainda se ensaiou uma rentrée na Póvoa de Varzim, mas acabaria por ser interrompida durante sete anos. Veio Durão Barroso, veio Santana Lopes, mas nenhum reergueu a festa de verão algarvia dos sociais democratas.

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Marcelo ao lado de Marques Mendes. Foto do arquivo do PSD

Mendes contra Menezes

O amor renasceria em 2005, mas ainda a medo, sem paixão. A distrital do PSD Algarve, encabeçada por Mendes Bota, pôs na cabeça que haveria de fazer renascer o Pontal como forma de marcar a agenda política nos tempos mornos de agosto. E assim foi. Em 2005 Cristóvão Norte recorda-se bem de como a primeira edição foi “um fiasco”. “Não estavam mais do que 400 pessoas”, diz. Aquele modelo, na baixa de Faro, estava esgotado. Era preciso mudar de estratégia.

Por isso Mendes Bota passou o evento para outro local: o calçadão de Quarteira, junto à praia, por ser uma zona central e frequentada por muita gente em período de férias. Isto foi em 2006, e nesse ano, o líder Luís Marques Mendes não marcou presença. Em vez dele, um dos oradores do jantar-convívio foi precisamente Luís Filipe Menezes, que tinha sido adversário de Mendes no congresso, e que caía mais nas graças da distrital algarvia.

Em 2007 Mendes já não cairia no mesmo erro e foi o cabeça de cartaz do jantar-comício. Só que não foi bem a estrela. É que Menezes também voltou a aparecer a meio do jantar e, mesmo não tendo lugar da mesa de honra, roubou-lhe parte das atenções mediáticas. Diz-se que foi mais aplaudido pelos cerca de 1.500 participantes do que o líder. Os dois nem se cumprimentaram (pelo menos publicamente).

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Marques Mendes no Pontal, em 2007. Foto do arquivo do PSD

As tampas de Manuela Ferreira Leite

Naquela altura não era tacitamente obrigatório que os líderes do partido fossem ao comício de verão, mas todos notaram que, de 2008 a 2010, quando Manuela Ferreira Leite era presidente, o Pontal sofreu um défice de atenção. Em 2008 a presidente do partido foi convidada pela distrital mas não compareceu. “Não temos vergonha de estar na rua, com o povo”, viria a dizer Mendes Bota.

Perante a recusa do convite, no ano seguinte Manuela Ferreira Leite já não seria convidada. “Não levo tampa da mesma miúda duas vezes”, terá dito Mendes Bota na altura, segundo recorda ao Observador Cristóvão Norte.

Passos, o regresso do líder (no hotel ou no calçadão)

Com Passos Coelho na liderança do partido, em 2010, dá-se o regresso de um líder ao calçadão de Quarteira. E desde aí Passos quis marcar o ritmo: o Pontal voltaria a marcar a agenda política da rentrée. Começou logo a abrir: nessa estreia em 2010, Passos usou o palco veraneante para pôr condições para apoiar o Orçamento do Estado de 2011, o último do Governo de José Sócrates. Foi aquele seu discurso que serviu de trampolim a Passos para a conquista do poder, o que viria a acontecer no ano seguinte.

Mas em 2011, Passos chega ao calçadão na pele de primeiro-ministro mas de primeiro-ministro em tempos de troika. Tanto nesse ano como nos seguintes, usa comício da rentrée para justificar decisões, comentar números económicos da atualidade, pedir paciência, espírito de sacrifício e fazer promessas de melhores dias. Eram tempos quentes, não havia espaço para grandes folclores mediáticos.

Em 2012, mais um marco. No auge da contestação contra a troika e a austeridade, a festa do Pontal passa do calçadão para um recinto fechado, num hotel no parque aquático de Quarteira. Porquê? O argumento oficial foi para poupar custos, o oficioso bem diferente: estavam em causa questões de segurança, receando-se manifestações e tumultos.

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No ano passado o Pontal foi novamente notícia por causa de uma estreia: foi a única vez que o comício da rentrée laranja teve uma pontinha de azul. Nas vésperas da campanha eleitoral para as legislativas, o PSD convidou o seu parceiro de coligação para marcar presença na festa, e Paulo Portas teve direito a discursar. Foi o Pontal não do PSD mas do Portugal à Frente e foi aí que foram lançados os nomes de todos os cabeças de lista às eleições, incluindo dos centristas.

Este ano volta-se à fórmula antiga.

Sem CDS, o PSD vai dar o seu tiro de partida para um ano na oposição que muitos pensam que pode vir a ser ano de eleições legislativas antecipadas. No próximo estaremos em plena campanha para as autárquicas.