Jorge Gomes é o primeiro. César, o segundo. Ambos brasileiros, ambos na época 1979-80. Segue-se o jugoslavo Zoran Filipovic em 1982-83. No verão de 1984, o treinador Sven-Göran Eriksson pede dois nórdicos ao presidente Fernando Martins, o do Terceiro Anel. Um é o sueco Glenn Strömberg, o outro é Michael Manniche.

Ei-lo, o quinto estrangeiro de sempre, do insonso campeonato dinamarquês. Sem tocar uma única vez na bola, Mike já causara forte impressão no aeroporto da Portela, em Lisboa. Os seus 1,96 metros de altura garantem-lhe publicidade à borla. A isso, junte-se-lhe um arcaboiço pouco comum aos nossos olhos. Quer dizer, estamos em 1983 e, daí a um ano, Portugal chegará à meia-final do Euro-84. Do onze vs. França, mais de metade (seis) medem abaixo do 1,75 metros. Michael Manniche aterra em Portugal e assusta, pois claro.

Os mais apressados chamam-lhe tosco. Quatro anos depois, com 75 golos em 132 jogos espalhados por seis títulos (três Taças, dois campeonatos e uma Supertaça), a realidade é diferente. Só ligeiramente. Maniche é grande, em tudo. Até a decidir finais de Taça de Portugal, como atesta o bis ao Porto naquele 3-1 em 1985. Alto, sim. Louro, também. Divertido, sem dúvida. Manniche, ei-lo em grande.

Boa tarde Manniche, tudo bem?
Yeahhhhh. E you? (ah é verdade, esquecemo-nos deste detalhe fabuloso: Manniche fala tão bem português como eu dinamarquês, daí que a conversa seja uma galhofa pegada).

Ligo-lhe porque há um Porto-Benfica este domingo.
Lembro-me tão bem.

Do quê?
Da minha estreia no Benfica [eu avisei que isto seria escanifobético]. Foi um Estoril-Benfica. Sabes quem me fez uma marcação cerrada, cerradíssima?

Quem?
Fernando Santos.

O selecionador de Portugal?
Esse mesmo. Aquilo para início de conversa foi uma lição [e solta umas gargalhadas sonoras, daquelas contagiantes ou, mais desagradável ainda, para furar os tímpanos]. ‘Tou a brincar, ele foi bem leal mas andou sempre, sempre, sempre atrás de mim. O jogo todo. Vinha de um futebol mais livre, sem muita marcação, lá na Dinamarca. De repente, vejo-o colado a mim. Mesmo que recuasse no campo, ele acompanhava-me de perto. Parecia a minha sombra. Incrível. Recordo-o com saudades.

O Manniche marcou algum golo nessa tarde?
O que eu delirei com o Euro-2016 [’tá bonito ’tá]. Isto é, o homem que me marcou em cima na estreia pelo Benfica é o atual campeão europeu. As voltas que a vida dá. Muito feliz, muito mesmo, com o vosso título em França. E naquelas circunstâncias, sem o Ronaldo em campo desde os oito minutos. É preciso imensa determinação e muita categoria. Duas palavras que se associam facilmente ao Fernando Santos. Grande Fernando, grande Portugal. Merecido. Adorei, parabéns.

Ligo-lhe porque há um Porto-Benfica este domingo. [insisto]
Sorry, minto. Esse Estoril-Benfica foi a estreia, sim, só que no campeonato. A estreia pelo Benfica foi um jogo da Taça Ibérica, com o Athletic Bilbao, então campeão espanhol em título. Estavam 70 mil pessoas na Luz. De onde eu vinha [Hvidovre], nem jogava para metade. Agora, imagina isto: o Eriksson chama-me para aquecer e o estádio começa a aplaudir-me. Sem sequer ter tocado na bola, já era um deles. Que sensação única. Entrei aos 80′ e ganhámos 3-1. O troféu era nosso. Esse Benfica era assim, aglutinador. Daí as goleadas, os títulos. Tudo fruto de uma série de fatores positivos, como a camaradagem no balneário, a sábia estratégia do Eriksson e o imenso apoio popular. Seja qual fosse o lado para que me virasse, sabia que ia encontrar adeptos do Benfica.

Como foi a primeira época?
O Estoril-Benfica acabou 4-1 e marquei o último da tarde. Aliás, o meu começo no Benfica foi bom, com três golos em três jogos. Fiz ainda um ao Linfield para a Taça dos Campeões e outro ao Águeda para o campeonato. Foi uma boa época de estreia: ganhámos o título de campeão nacional com 12 golos meus, só atrás de Nené e Diamantino. Lembro-me de um hat-trick ao Guimarães [diz Guimarães sem acento, óbvio] e de um bis em Faro [diz Farou, claro]. Na Taça dos Campeões, fomos eliminados pelo Liverpool, 1-0 em Anfield e 4-1 na Luz. Na época seguinte, voltámos a jogar com eles e demos mais luta.

Então?
Perdemos 3-1 em Anfield e discutimos a eliminatória até ao fim, na Luz. Aos cinco minutos, penálti do Grobbelaar sobre o Jorge Silva. Eu fui lá e marquei, 1-0. Depois, foram 85 minutos de sofrimento, adrenalina e inquietação. Queríamos muito o 2-0 para fazer história. Afinal, era o Liverpool campeão europeu. Só que não voltámos a acertar na baliza deles. Para os adeptos, isso não importou. Eles aplaudiram-nos no fim como se tivéssemos passado a eliminatória. Foi sensacional, a reação. O Liverpool seguiu a sua vida e chegou outra vez à final da Taça dos Campeões, a de Heysel [ganha pela Juventus, com um penálti sobre Boniek, inventado pelo árbitro e transformado por Platini, na ressaca de uma batalha campal de proporções inimagináveis, em Bruxelas]. Só há bem pouco tempo, em 2006, é que o Benfica eliminou o Liverpool campeão europeu. Outros tempos.

Como eram os seus tempos?
Só para veres, passei as primeiras duas semanas em Portugal a dividir o apartamento com o Strömberg. Isso agora já não seria assim, já há mais cuidado dos dirigentes em adaptar os estrangeiros à realidade portuguesa. Exceção feita ao guarda-redes suplente [Delgado], mais ninguém falava bem o inglês. Então, o nosso entendimento era por gestos. Isso numa primeira fase. Depois, fase dois, as asneiras. Fase três, o futebolês. Fase quatro, o português. Sim, eu tinha de aprender português. Umas quantas palavras soltas. Para me meter com as raparigas [toma lá mais uma gargalhada daquelas].

Manniche e Stromberg. Como é que um dinamarquês se entende com um sueco?
Já sei, já sei: sou uma desgraça para a nação. Guilty [caabbbuuuummmm, gargalhada]. Mas era ele quem me dava boleia para o treino e de volta para casa. Fazíamos aquela marginal linda todos os dias. E vê bem a minha insistência: continuava a dar-me com suecos depois do treino e até jantava com eles.

Onde?
O meu restaurante preferido era o Pimentao [é Pimentão, bem entendido]. Os peixes, as sobremesas. Ui ui, fantastic. Mesmo com os suecos ali ao lado [spoiler alert: vem aí uma gargalhada]. Às vezes, um desses suecos era o Sven.

O Eriksson?
Esse mesmo. Grande homem, foi buscar-me à Dinamarca quando eu só tinha 23 anos. Repara nisto: naquele tempo, o futebol dinamarquês era amador e eu treinava-me três vezes por semana. De repente, treinos diários num país diferente com um futebol mais evoluído. Foi uma aposta de altíssimo risco do Sven.

Com bons resultados?
Yeeeeeeeeees. Futebolisticamente, evoluí como nunca. Ao lado de tanta matéria-prima, tinha de aprender alguma coisa [alerta vermelho, gargalhada a caminho]. Uma vez, até marquei um golo de trivela, vê bem!

Ah sim?
Ao Guimaraes [lá está ele a esquecer-se do til, irra]. Um chapéu de trivela. Ganhámos 8-0 na Luz, numa tarde de chuva, chuva e mais chuva. Além da evolução técnica e, claro, tática, a camaradagem era perfeita. Os jogadores davam-se todos bem, almoçávamos e jantávamos juntos várias vezes. Pietra, Álvaro, Bastos Lopes, Humberto Coelho, Oliveira, Diamantino, Carlos Manuel. O Carlos Manuel, grande recordação. Uma vez, levou-me a ver uma largada de touros na Moita. Nunca esquecerei aquele dia. A emoção das pessoas, a minha emoção, o touro ali às voltas, meio desgovernado, completamente acelerado. Essa parte da cultura portuguesa era fascinante. Porque a conheci de perto. E porque a conheci através deles. Eram os jogadores do Benfica que me queriam levar a conhecer Portugal. Quem não era português, também gostava de me mostrar o mundo. Como o Stromberg.

Então?
Caraças, as festas lá em casa dele erma bem boas. Era um anfitrião fantastic.

E dentro de campo?
Um maestro, com espaço para evoluir num futebol mais técnico ainda. Por isso, saiu para Itália (Atalanta). Jogava de olhos fechados. E nós também.

O Manniche também?
Toda a gente diz que cabeceava de olhos fechados [gargalhada atrás de gargalhada]. E, atenção, também apanhava e muito.

Como?
Apanhava muito. Porrada [em bom português, dito com clareza]. O Lima Pereira do Porto era louco. Um louco saudável, entenda-se. Apanhava-me a jeito e dava-me bem. Nunca me queixei. Nem dele nem do Venâncio. Tudo gente boa. Bastava observá-los durante os jogos para perceber a sua vontade de ganhar. Eu era mais tranquilo Eles viviam aquilo de forma intensa. Eu também, não pensem o contrário. Só que eles mais ainda. E assim teve efeitos na minha vida futebolística.

Então?

Às tantas, já estava cansado daquela rotina do treino, treino, treino, viagem, jogo, treino, treino, treino, viagem, jogo. Agora que olho para trás, devia ter ficado mais um ano no Benfica. Só que tinha saudades de casa. Por isso, voltei à Dinamarca e voltei à vida do antigamente. Ainda fui campeão no FC Copenhaga. Mas nada que se parecesse com o Benfica. Nessa altura, o Benfica tinha talento que nunca mais acabava, havia cinco ou seis jogadores extraordinários, de seleção. E eu lá no meio. Nem imaginas a minha alegria, aquilo era o trabalho mais fácil: eles passavam-me a bola e eu só tinha de fazer golo. Vê isto: em quatro anos, ganhámos três Taças de Portugal. Uma ao Belenenses, outra ao Porto e mais uma ao Sporting. Inesquecível.

A alcunha do Manniche era o tosco, confirma?
Pois ééééééé [como se estivesse a voltar ao passado], diziam que não conseguia dar cinco toques seguidos na bola. Com os golos que marquei, as pessoas mudaram a alcinha e passaram-me a chamar canina. Canina, eu? Já viste a minha sorte.

Canina é engraçado.
Era tão famoso aí que até fiz um anúncio para a Robbialac [diz Robbialac como se estivesse a apresentar uma banda de rock].

Essa é boa.
O Sven fez um anúncio para a Macieira e eu para a Robbialac. Já arranhava umas palavras de português.

E dizias o quê?
Isso já é demais.

Só mais esta: conheceste o Maniche?
Yeeeeah. Ele veio cá à Dinamarca jogar pelo Atlético Madrid e conhecemo-nos. Ele era bem mais técnico que eu e fiquei contente com a história de ele se chamar Maniche como eu. Quem também conheci aqui na Dinamarca e emocionou-me foi o Rui Costa.

Porquê a emoção?
Sabes o que é ouvir da boca de um jogador fora de série ‘corri atrás de muitas bolas atiradas por ti?’

Huuum, não, não sei.
[gargalhadas] Pois, imagino. Quando eu jogava no Benfica, o Rui Costa era o apanha-bolas. Então, era costume seu posicionar-se atrás da baliza e, às vezes, só às vezes, apanhava uma bola minha que saía ao lado e por cima. O Rui Costa era o meu apanha-bolas. Um orgulho, só te digo.

Obrigado por tudo, Manniche.
A-b-r-a-ç-o [diz num português corretíssimo]