O ex-líder do CDS-PP Paulo Portas defendeu, em Marraquexe, que não o preocupa que o Presidente eleito norte-americano, Donald Trump, queira tentar “uma nova relação com a Rússia” porque “pode ser uma oportunidade” de mudança.

O antigo vice-primeiro-ministro, consultor da construtora Mota-Engil e de uma filial em Espanha da petrolífera mexicana PEMEX, falava, na quarta-feira, no primeiro debate da 5.ª edição do fórum internacional Diálogos Atlânticos, a decorrer na cidade marroquina até sexta-feira, com o tema “Mudar os Mapas Mentais: Estratégias para um Atlântico em Transição”. “Com a globalização, tudo no mundo está a mudar e temos de nos preparar para ainda mais mudanças”, advertiu.

Quanto ao receio na comunidade internacional das políticas que o novo Presidente dos Estados Unidos possa adotar, Portas desdramatizou e deixou uma sugestão: “Não devemos usar conceitos clássicos para analisar o senhor Trump”.

“[Trump] quer tentar uma nova relação com a Rússia e isso pode ter impacto nas relações entre os Estados Unidos e a Europa e eu estou preocupado com várias coisas na Presidência dele, mas não necessariamente com as suas relações com a Rússia, porque isso pode ser uma oportunidade”, opinou.

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“Desde que a Europa não olhe para a Rússia com um olhar antigo, porque aquilo que agora existe já não é a União Soviética, é a Rússia de há 100 anos: autocrática, centralizada, com mais de 100 nacionalidades”, prosseguiu. Outra coisa a ter em atenção é, segundo o ex-governante, o percurso de ascensão ao poder do multimilionário: venceu as primárias republicanas, quando se pensava que nem sequer tinha hipótese de ser o candidato do partido, e “venceu as eleições enquanto pendia sobre ele a acusação de que teria contado com a ajuda da Rússia”.

Sobre outros desafios que os países banhados pelo oceano Atlântico enfrentam, o académico guineense Carlos Lopes, até há pouco secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África (CEA), indicou que “há na Europa um problema de mentalidade e de preconceito em relação a África: é como se ela não existisse, apesar de as economias dos seus países terem sido as que mais cresceram nos últimos dez anos”.

“A Europa tem olhado para África apenas como fornecedora de matérias-primas valiosas, como as reservas minerais e as reservas energéticas”, comentou. “A nossa tragédia é que sempre que acontece alguma coisa negativa em África, ela é amplificada, e quando há alguma coisa positiva, ela é diminuída, pelo que temos de mudar essa perceção”, defendeu.

“Existe um verdadeiro problema político na Europa”

Em matéria de segurança da bacia do Atlântico, a embaixadora do Canadá na NATO, Kerry Buck, referiu que se trata de uma região “sempre em transição, uma região de grandes contrastes e que corre, claro, o risco de desintegração”. “É só apercebermo-nos do que acontece à nossa volta e respondermos a duas perguntas: de que é que as pessoas têm medo? E a quem recorrem para se sentirem seguras?”, frisou. Para a diplomata canadiana, “já houve períodos com mais probabilidade de êxito numa maior integração no Atlântico”. “Agora, temos um problema mais grave de segurança, com várias guerras em curso nos últimos anos, com o maior número de deslocados de sempre, com a Rússia a anexar a Crimeia”, enumerou.

Na mesma sessão, o antigo presidente argentino Eduardo Alberto Duhalde, inquirido sobre os problemas que afetam a América Latina, apontou o sistema presidencialista como um dos principais. “Eu tenho a opinião de que o presidencialismo que vigora em todos os países ibero-americanos – em que há um partido oficialista e outro na oposição -, é um sistema que está claramente obsoleto; precisamos de um novo paradigma para uma nova realidade”, advogou.

Para Duhalde, “os governos latino-americanos estão em crise e deviam, por exemplo, fazer como a [chanceler alemã, Angela] Merkel, que ganhou as últimas eleições na Alemanha com cerca de 45% dos votos e deu quatro ministérios ao partido que ficou em segundo lugar, três ministérios ao que ficou em terceiro e fez uma coligação que lhe garantiu uma maioria de 85% no parlamento”. “Será que os partidos políticos se dão conta de que são eles o problema? Que as pessoas desconfiam deles? O sistema presidencialista nos países ibero-americanos não funciona”, insistiu.

Para Paulo Portas, “agora existe um verdadeiro problema político na Europa, porque a globalização matou as ideologias e as pessoas não conseguem distinguir o centro-esquerda do centro-direita”. “Isso explica uma certa atração pelos extremismos que – não se iludam – são todos maus, embora haja uma tendência para contemporizar com os de esquerda e penalizar os de direita”, observou.