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Para reduzirem as idas desnecessárias dos utentes às urgências hospitalares, os governos dos vários países devem apostar nos cuidados primários, abrindo os centros de saúde até mais tarde e melhorando os cuidados que neles são prestados. A recomendação chega da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) e consta de um relatório sobre o combate ao desperdício, publicado esta semana.

Os especialistas escrevem que a falta de alternativas às urgências hospitalares é um dos motivos para os utentes correrem para os hospitais sempre que se sentem doentes. “Uma proporção significativa de pacientes enfrenta barreiras no acesso aos cuidados de saúde devido à falta de cuidados ‘fora de horas’ ou por causa dos longos tempos de espera”, lê-se no relatório Tackling Wasteful Spending on Health.

Mas ter os centros de saúde abertos até mais tarde não será, só por si, suficiente para resolver o problemas das “falsas urgências”, na medida em que o maior problema se prende com a confiança ou a falta dela, como afirmaram, recentemente, ao Observador especialistas do setor. E os especialistas da OCDE frisam agora que as “visitas inapropriadas aos serviços de urgência dos hospitais também estão relacionadas com a qualidade dos serviços prestados pelos cuidados primários”, referindo-se, em concreto, aos doentes crónicos que são sub-monitorizados nos cuidados primários. Em Portugal, que tem o número mais alto de visitas às urgências hospitalares, a percentagem de falsas urgências ronda os 30%.

1/5 das despesas com saúde na OCDE contribui pouco ou nada para a saúde

A redução das idas desnecessárias às urgências é apenas um dos conselhos que a OCDE dá aos governos dos países membros, num relatório em que se debruça sobre o desperdício existentes e os gastos desnecessários e evitáveis na Saúde.

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“Numa época em que os orçamentos públicos estão sob pressão em todo o mundo, é alarmante que cerca de um quinto das despesas com saúde não contribua, ou contribua pouco, para bons resultados em saúde“, lê-se na introdução deste relatório, onde os autores são claros a afirmar que os “governos podem gastar muito menos com os cuidados de saúde e ainda melhorar a saúde dos pacientes”, fazendo um “uso mais inteligente dos orçamentos”, embora admitam que será “difícil e complexo” fazê-lo, pois há muitos interesses envolvidos e uma cultura enraizada.

Os especialistas sublinham que mais de 10% do orçamento dos hospitais é gasto a corrigir erros médicos e infeções e que um em cada três bebés nascem por cesariana, quando as linhas de orientação médicas aconselham a que a taxa de cesariana não ultrapasse os 15% do total de partos.

Por tudo isto, e por conta da pressão orçamental, “cortes substanciais nos gastos ineficazes são necessários”.

No documento são apontadas algumas estratégias no sentido de reduzir despesa como, por exemplo, parar de fazer cirurgias e procedimentos clínicos desnecessários, optar por alternativas equivalentes e de igual valor mas menos dispendiosas, como o uso de genéricos e atribuição de mais tarefas aos enfermeiros.

Evitar o erro médico e a duplicação de exames de diagnóstico, bem como a realização de exames desnecessários como imagiologia em casos de dor de cabeça ou dores na lombar, rastreios oncológicos, testes pré-cirúrgicos em doentes de baixo risco (eletrocardiogramas, radiografias, entre outros), entre outros.

A questão do combate ao desperdício e aos gastos com cuidados de saúde ineficazes vai ser debatida num encontro entre ministros da Saúde em Paris, nos próximos dias 16 e 17 de janeiro.