Sacanas. Estes dois são uns sacanas. Uma boa percentagem da humanidade desde sempre a imitar artistas às escondidas ou a fazer bandas de covers — os primeiros sempre em segredo, os segundos quase nunca interessantes. E depois esta dupla a sacar um disco tremendo com as composições dos outros. Gentlewoman, Ruby Man é isto: Flo Morrissey e Matthew E. White escolheram dez canções que adoram, tocaram-nas como entenderam e quem as ouve não sabe se fica se vai, se adota as novas se regressa às antigas. Na dúvida, o melhor é guardar todas. Todas.

matthew e white flo morrissey

“Gentlewoman, Ruby Man”, de Flo Morrissey e Matthew E. White (Glassnote; Caroline)

Se pensarmos bem, Ruby Man nasce de um princípio simples. Tudo o que é músico só o é porque ouviu alguém antes e nunca mais foi a mesma pessoa. O guitarrista que dominava o mundo, a cantora que chegava àquela nota, o pianista que todos queriam ter em palco, a boy band com a roupa branca certa. Qualquer razão é válida, desde que faça escola.

Matthew E. White é o neo hippie da Virginia que nunca soube viver sem a tradição da música americana, a folk e o R&B em todas as notas. De tal maneira que teve de fazer a sua banda, a sua editora, o seu estúdio, tudo como sempre quis — incluindo dois discos essenciais, Big Inner (2012) e Fresh Blood (2015). O maior, este tipo. E Flo Morrissey, que nasceu no dia de Natal de 1994 em Londres já sem escapatória: haveria de descobrir a guitarra e a folk britânica, viajar até às américas e editar um primeiro álbum aos 20 anos, Tomorrow Will Be Beautiful.

Matthew ouviu uma canção de Flo, gostou tanto que a convidou para um concerto em Londres em tributo a Lee Hazlewood. Pouco depois, estavam ambos a trabalhar juntos. Vestígios de Lee e Nancy Sinatra, dupla de sucesso nos anos 60? Alguns, mas havia mais em comum entre ambos. Seguir as regras que outros deixaram sobre como fazer canções? Claro que sim, mas com o ego e a vontade suficientes para querem também eles fazer parte da tradição. Atitude e categoria, juntam-se os dois e dá nisto.

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“Thinking Bout You” de Frank Ocean? Nas mãos destes dois é R&B em cima de um trator, a cidade no campo, o clubbing no celeiro. E é a prova de que uma boa canção vai sê-lo sempre, porque não dá para roubar o bom gosto a um refrão, nunca vai dar. “Grease”, essa mesmo do filme com o mesmo título, escrita por Barry Gibb, é perfeita. Ela & ele tiraram o que estava a mais na produção de 1978, baixaram-lhe a rotação e meteram-na numa garagem: tau, um pós-disco incrível, uma malha funk dengosa para fazer suar a sério na pior das noites de janeiro no hemisfério norte (garantido, não falha).

Ainda há dúvidas? Então cá vai outra: “Sunday Morning”, dos Velvet Underground. É preciso assumir que nunca nenhuma versão será melhor que o original de Lou Reed e John Cale, aquela banda sonora oficial para a felicidade depois da desgraça. Com isso em mente, Matthew e Flo terão pensado “o que fariam Brian Wilson e Phil Spector com isto?” e depois brincaram no estúdio até chegar lá. E chegaram, rapaziada, chegaram pois. Tal como chegaram ao que Leonard Cohen queria quando escreveu e gravou “Suzanne”. Soubesse Leonard que este duo existia e tinha revisto há muito a banda que o acompanhava. Fazer de uma mulher uma deusa perigosa em menos de cinco minutos deveria ser sempre assim.

Flo e Matthew vão a todas. Mais pop, mais underground ou até “Everybody Loves the Sunshine”, de Roy Ayers. Ou seja, o espaço é a última fronteira — e talvez nem mesmo aí termine o gosto desta gente. Sem limites, sem complexos, guilty pleasure vai tu. Uma sem vergonhice, este disco, fazê-la bonita à custa dos outros, diriam uns quantos. Nada disso. Gentlewoman, Ruby Man é um tributo de puro gozo, feito por quem sabe, por quem pode, por quem é exigente: estes dois.

[veja um mini documentário sobre “Gentlewoman, Ruby Man”:]