Rádio Observador

Questões do Forno Interno

Norton de Matos. “Hagan dizia ‘sinhor, no drible'”

O ilustre deste "Questões do Forno Interno" toca o EP “Je t'aime moi non plus” em Coimbra, marca no Benfica-Ajax em Lisboa, vibra com os Genesis em Cascais e fala tu-cá-tu-lá com Borg mais Merckx.

Norton de Matos no sorteio da pré-eliminatória da Liga dos Campeões 1997-98, como consultor para o futebol do Sporting

Autor
  • Rui Miguel Tovar

É um carioca de limão, se faz favor.
É um carioca de limão, se faz favor.
Outro? Calma, calminha jejé. Isto hoje é 2 Fevereiro, o dia da marmota.

É um carioca de limão, se faz favor.
É um carioca de limão, se faz favor.

Se Bill Murray vive e revive o “Feitiço do Tempo” vezes sem conta, connosco é igual. Connosco, quem? Tchan tchan tchaaaaaaaan, Norton de Matos acompanha-nos neste filme. O homem é o maior: em altura, disponibilidade e conversa. Dois cariocas de limão até são poucos, pouquíssimos para quem tem uma vida tão bem vivida como Norton. Ou De Matos, como é conhecido na Bélgica. Na Bélgica? Ah poisééééé, Norton joga cá e lá. Pelo meio, um golo em cinco internacionalizações AA, todas pelo Portimonense. Classe. Vamos lá ao que interessa, falar de bola, só de bola. No limits. É um carioca de limão, se faz favor. Ups.

Norton, o site foradejogo.net dá o seu início de carreira em 1969, nos juvenis do Estoril. É aqui realmente que tudo começa?
Uyyyyyy, começa aí? Isso é entrada a pés juntos.

Amarelo para mim, a bola é toda sua.
Antes, quando andava no São João de Brito, o meu treinador chamava-se Mário Lino.

[parêntesis para dar ênfase à grande, enorme categoria deste senhor: Mário Lino é campeão nacional como jogador e treinador no Sporting]

Prossiga, sff.
Ele era o meu treinador e disse-me, certa vez, para ir aos treinos de captação do Sporting.

E o Norton foi?
Sim, claro. Cheguei lá e tudo me correu bem.

E depois?
Levei a minha ficha a um senhor dirigente chamado Borques Leal. Ele viu-me e nem sequer pensou duas vezes para me dizer que devia cortar o cabelo. Ora bem, se o meu pai não me manda cortar a bola, não é você que o vai fazer. Saí de lá e adiei a oportunidade do futebol.

Até quando?
Já estudava no Manuel Bernardes quando o Manuel Arouca…

[outro parêntesis para dar ênfase à influência de Manuel Arouca na infância de milhares de crianças: é ele o co-autor d’”Os Homens da Segurança”, a melhor série portuguesa filmada em Tróia e arredores num raio de milhões de quilómetros]

Prossiga, sff. O Manuel Arouca…
Viu-me e convidou-me a ir dar uns toques ao Estoril, onde ele jogava.

O Norton vivia onde?
Em Lisboa.

E era fácil ir assim ao Estoril?
Já havia o comboio da Linha, só que os treinos eram à noite e isso complicava a minha vida de estudante.

Como?
Os treinos acabavam às dez da noite e ainda tinha de apanhar o comboio da Linha, depois o 1 ou o 36 para chegar a casa, no Lumiar. Só chegava lá às tantas, depois da meia-noite.

E agora?
A solução encontrada foi dormir em Cascais, na casa do Manuel Arouca, nos dias dos treinos. Ou seja, às terças e quintas.

Assim, na boa.
Calma lá, vamos ao primeiro treino.

Vamos. Como correu?
Cheguei lá e o senhor Pote, o treinador do Estoril que também era um vendedor de bilhas de gás, com uma moto, ficou a olhar para mim.

Então?
Naquele tempo, a moda era quem levasse uns sapatos Lotus com berloques, uns jeans da Levi Strauss ou Levis, uma camisa Pringle ou Lacoste. Aquilo era a moda e eu estava assim. Sempre tive acesso a esse vestuário.

Imagino a cara do senhor Pote.
[Norton desmancha-se a rir, penteia o cabelo e solta o verbo] Ele viu-me e treina-me assim à parte. Puxa de uma bola e atira-a ao ar para ver se a parava bem com o peito. Depois com a coxa. Depois com o pé direito. E o esquerdo. Depois atirava a bola cada vez mais alta.

Só isso?
Chega o treino conjunto, propriamente dito. A bola vem para mim e eu fiz aquilo que era costume no Manuel Bernardes: um drible, dois dribles, três dribles. Às vezes golo, outras nem por isso. Estava lá um senhor ligado ao Estoril que disse alto e bom som ao senhor Pote: ‘Assina já para jogar domingo’.

E foi assim mesmo?
Com uma condição da minha parte: que me arranjassem um passe de comboio em primeira classe.

Uauuuuu.
Claro que nunca fui em primeira classe, porque todos os outros jogadores do Estoril iam na segunda classe e eu acompanhava-os no regabofe entre Estoril e Cais do Sodré.

Chega domingo e…?
Antes, tive de fazer o exame micro aos pulmões no centro de medicina desportiva. Bom, domingo, vamos lá.

Qual é o jogo?
Oeiras-Estoril, juvenis, às nove-e-trinta da manhã.

Que pormenor.
Sei isso perfeitamente, porque o meu pai estava cá com uma cara [Norton volta a dar uma gargalhada sonora acompanhada de um toque no cabelo com as mãos]. Imagine só: se o jogo é às 9.30, tinha de estar às 8 no Estoril e isso significava que tinha de sair do Lumiar às 7. Esse tipo de horários ao fim-de-semana era um martírio.

Chegou a tempo?
Ah, claro.

E o resultado?
Perdemos 4-3 e eu marquei os três golos. O melhor desse dia é a viagem de volta. Lembro-me como se fosse agora, neste momento: estávamos na curva do Monaco, ali na Marginal, e a rádio dá o “Lucky Man” do Emerson, Lake & Palmer. De repente, o meu pai e eu começamos a cantar a música. Sentia-me o Lucky Man e o meu pai também. Grande momento. Aliás, a partir daí, o meu pai tornou-se o meu maior adepto e passou a acompanhar-me para todo o lado.

E o domingo seguinte?
Mais três golos meus ao Oriental.

Daí para a frente, só Estoril?
Joguei pelo Vitória no Torneio Internacional de Lisboa. O Pedroto era o treinador e queria ver-me. Virou-se para mim [engasga-se a rir] e diz-me ‘olha olha, um filho de engenheiro a jogar à bola’. Nesse dia, o Vitória jogou com o Alverca ou o Vila Franca, já não me lembro, e ganhámos 6-1 ou 6-0. Marquei os seis golos.

Bolas.
O Vitória queria assinar comigo. Se Estoril era longe, Setúbal então. Ofereciam-me um carro, só que ainda não tinha idade sequer para começar a tirar a carta de condução. Deixei-me ficar no Estoril.

Depois, Benfica.
Fui campeão de juniores em 1971-72, ganhámos 2-1 ao Sporting no Restelo. E depois 4-1 ao Porto em Leiria, com dois golos meus ao Quim.

Quem jogava nessa equipa?
Uyyyy, Bastos Lopes, Shéu, Vital, Rui Lopes, Pedroto, o Bernardino.

Sobe às reservas?
Sim, em 1972-73.

Essa é a grande época do Benfica, campeão nacional sem derrotas.
Pois é, que categoria aquela equipa. O treinador era o Hagan.

Treinava com ele?
Sempre. A equipa de reservas era basicamente a equipa dos suplentes, aqueles que não eram convocados para os jogos dos seniores. E havia um campeonato de reservas e tudo.

Então, o Hagan era o seu treinador. Como era ele?
[antes de responder, a cena do costume: gargalhada seguida de mãos a esticar o cabelo para trás] Vou contar só isto: uma vez, o Hagan foi a Inglaterra para ser operado ao menisco e a malta toda contente [fecha as duas mãos e abana-as para cima e para baixo como se estivesse a celebrar um golo]. Julgávamos que ia demorar umas semanas a voltar aos treinos. Qual quê, ao terceiro dia, já estava de apito na boca, com aquela pontualidade.

Qual?
Dez da manhã. Ele não perdoava: às dez era às dez, ponto.

E quem se atrasasse?
Era assim: ele entrava no Estádio da Luz às 9-e-50-e-tal e soprava o apito às 10. Acto contínuo, começava a correr à volta do relvado. Quem não estivesse pronto, porque havia sempre alguém ainda a calçar as botas ou a subir as escadas de acesso ao relvado, ele anotava mentalmente. No fim do exercício, virava-se para o infractor, digamos assim, e sinhor tal sinhor isto sinhor aquilo tantas flexões. Tauuu, ali na hora. Ele não perdoava. Tal como não perdoava quem fizesse corta-mato na bandeirola de canto. Está a ver aquela parte do relvado em que podemos cortar caminho? Com ele, isso era uma infracção muito grave. Para o exercício estar bem feito, o jogador tinha de contornar a bandeirola. E era aí, nessa curva, que ele virava a cabeça e percebia quem aldrabava ou não. Uma vez, apanhou o Toni e o Humberto.

Uisch.
Foram castigados com treino à tarde e escusados de jogar na homenagem ao Eusébio, nessa mesma noite. Deu uma barraca maiúscula, porque o presidente Borges Coutinho interveio. O Toni e o Humberto não podiam faltar à festa do Eusébio. O Hagan viu aquilo como uma afronta à sua autoridade como treinador e saiu do Benfica.

Borges Coutinho, que tal?
[faz um barulho com a boca como quem diz grande homem] Grande homem. Tomara haver mais presidentes como ele, hoje em dia. Era um gentleman, sempre impecavelmente vestido e sabia falar de tudo. Ainda me lembro da ressaca do 25 de Abril, quando o Benfica atrasou-se pela primeira vez a pagar o ordenado a horas, no dia 1, acho. Ele foi ao balneário dizer-nos isso e estava tão constrangido.

A última pergunta de bola era sobre as reservas em 1972-73.
Joguei um famoso Benfica-Ajax para o Torneio Internacional de Lisboa. O jogo foi transmitido pela televisão, foi um sucesso enorme. É a minha estreia na TV. Ganhámos e marquei com um slalom desde o meio-campo. Sabe o que me disse o Hagan? “Sinhor, no drible” [lá vem ele: sorriso generoso e mãos no cabelo]. Uns dias depois, um polícia mandou-me parar aqui, em Lisboa, para elogiar esse golo.

Como é que nunca chega a jogar na equipa sénior do Benfica?
Avançados, como eu, havia uns seis. E todos internacionais: Eusébio, Simões, Vítor Baptista, Nené, Jordão, Artur Jorge. Há ainda o factor Pavic.

O treinador jugoslavo?
Esse mesmo. Na última jornada do campeonato, em que o Benfica já é campeão e vai jogar com o Atlético à Tapadinha, vou ao banco e não saio de lá. Também nessa época, vou para o banco na final da Taça de Portugal 1975, com o Boavista, em Alvalade, e não entro. Outra desilusão. A maior da minha carreira: nunca joguei pelo Benfica. Isso e o ter falhado um concerto dos Queen, em Bruxelas.

A sério, Queen?
E eu não fui [faz uma careta], nunca me vou perdoar.

Isso é quando?
1978. Três anos antes, tinha ido ver os Genesis a Cascais, com o Peter Gabriel mais o Phil Collins na bateria. No pós-25 de Abril, até houve tiros para o ar. Foi o melhor concerto da minha vida, nunca mais me esquecerei.

O Norton era da música?
Sempre, adoro música. Tinha amigos na TAP que me traziam os discos proibidos em Portugal. Havia um que era picante, o “je t’aime… moi non plus”, do Serge Gainsbourg e Jane Birkin. Quando eu levava aquilo para as festas, em Coimbra. era um silêncio total. As pessoas como que ficavam envergonhadas por ouvir um som proibido. Sem esquecer a força da música, claro. Aquilo paralisava.

Ainda bem que fala em Coimbra. Joga na Académica em 1973-74. Quem é o treinador?
O Fernando Vaz, que foi aos arames comigo.

Então?
Cheguei a Coimbra com camisas bocas de sino, calças às riscas, tipo hippie. Agora é contextualizar: tinha 18 anos, fui viver sozinho em Coimbra, no calor da revolução, entre repúblicas e mais repúblicas. Cheguei lá sem nunca ter bebido nada de especial, um ano depois já bebia umas cinco ou seis canecas.

E jogar que é bom?
‘Tá boa: levei o tradicional pontapé no rabo, na estreia, e marquei o primeiro golo na 1.ª divisão, ao Barreirense.

À Académica segue-se o Atlético.
Descemos de divisão, só que diverti-me. Ainda na primeira volta, o treinador Caraballo sai.

E quem entra?
Quatro jogadores.

Jogadores?
O Nelo Vingada, o Mário Wilson filho, o Rui Silva e eu. Ficámos responsáveis pela equipa na jornada seguinte, com o Boavista.

No Bessa?
Isso mesmo, perdemos 6-2. Eu marquei um golo e outro foi o Mário Wilson. Quem era o treinador do Boavista?

Nem ideia?
O pai do Mário Wilson. Grandes histórias no Atlético. Joguei com o Sporting e havia lá um africano elegantíssimo chamado Keita. Que classe, o homem. Eu admirava-o bastante. Tanto em Alvalade como na Tapadinha. Dava por mim, quieto no meio-campo, a vê-lo a correr, a desmarcar-se, a dominar a bola. Eu treinei com o Eusébio dias e dias a fio no Benfica e agora estava ali a coleccionar outro ídolo. Grande Keita.

Ao Atlético segue-se o…
Belenenses. Acabámos em sexto, o treinador era o António Medeiros. No plantel, um Artur Jorge já em final de carreira e carregado de ilusão para conhecer melhor as nuances tácticas do futebol antes de dar o salto como treinador.

O salto dá o Norton em 1978.
O Standard?

Claaaaaaro. Que tal?
Fui muito feliz na Bélgica, numa altura em que poucos portugueses saíam do país [em 78-79, na Europa, só Damas, no Racing Santander, em Espanha; nos EUA, Alhinho-Tea Men Boston, Artur Correia-New England Revolution, Humberto Coelho, Toni e Eusébio-Las Vegas Quicksilver, Seninho-NY Cosmos e Simões-Dallas Tornado].

Como foi a transferência?
Em 1977-78, tinha 24 anos e jogava no Belenenses. Na parte final da época, os dirigentes do Standard foram ao Restelo para ver um avançado chamado Amaral. Acontece que nesse jogo [Belenenses-Varzim, 1-0 para a 28ª jornada do campeonato] fui eu que fiz o 1-0, num remate de fora da área ao ângulo, e o Amaral nada. O Standard interessou-se então por mim. Veja lá como eram as coisas porque eles jantaram nessa noite comigo.

Jantar?
Sim, e levei o meu pai.

Onde foi o jantar?
Ali no Gatsby.

Gatsby?
Aqui perto, na António Augusto de Aguiar, debaixo de umas arcadas. Agora é um italiano [Piccolo Napoli].

E que tal? (a conversa com o Standard, não o jantar).
Propuseram-me uma semana de treino em Liège. Lá fui. Agradei e fiquei lá três épocas. O contrato estava todo pensado, ponto por ponto. Literalmente. Eu ganhava ao ponto. Por um empate, ganhava qualquer coisa como cinco contos. Se ganhasse, dez contos. Nas competições europeias, o apuramento para a 2.ª eliminatória implicava tanto dinheiro que duplicava se atingíssemos a 3.ª ronda e por aí fora. Tudo muito pensado. E executado sem atrasos nem demoras de qualquer tipo. Não me lembro de ver um envelope com dinheiro nem uma única vez. Aquilo era depositado na conta bancária no dia tal e pronto.

Em Liège, quais as primeiras diferenças em relação a Portugal?
Bem, em Portugal só havia dois canais que acabavam a programação à meia-noite com o hino nacional e eu tinha uma televisão a preto e branco. Chego a Liège e deparo-me no quarto de hotel com uma televisão a cores, com 16 canais. A cores, hã? A novidade é essa. Passar do preto e branco para o a cores é uma grande, enorme mudança. Eu passava horas à frente daquela caixa mágica. E quem me visitava também. Aquilo era um mundo novo.

A sério?
E ainda não contei a parte do vídeo. Eu comprei uma BetaCam, um aparelho de vídeo que gravava. E eu gravava tudo. Imagine: resumos de futebol dos campeonatos francês, alemão, holandês e, claro, belga, finais de ténis em Flushing Meadows, Wimbledon, Roland Garros, música e outros programas. Gastei muito dinheiro na compra de cassetes. Comprava às vinte de cada vez.

E fora do quarto de hotel?
Surpreenda-se: havia McDonalds e Coca-Cola. Tudo coisas novas para mim. Em Portugal, não havia nada disso.

Nãããão.
É como lhe digo.

E mais?
Mal assinei pelo Standard, recebi da Adidas três pares de chuteiras com pitons de alumínio, outras três com pitons de borracha, fatos-de-treino, sapatilhas, tudo e mais alguma coisa. O meu carro ficou cheio com aquela tralha toda. E eu só jogava com um par, o outro estava religiosamente guardado lá em casa. Em Portugal, era preciso juntar, juntar e juntar o dinheiro para comprarmos um par de Adidas. E isso também vale para um par de calças da Levis, um casaco desta marca, uma blusa da outra. A diferença entre Portugal e Bélgica era enorme. Repare: nós, jogadores do Standard, éramos requisitados uma vez por mês a ir a um centro comercial, tipo Colombo, e passar lá duas horas a assinar autógrafos. Eu, por exemplo, tinha casas de fãs espalhadas por toda a Bélgica. Em Bruxelas, Antuérpia, Charleroi. Clubes de fãs. Com o consentimento do clube, eles iam buscar-me a Liège e levam-me a um jantar promovido por eles. Lá, eu jantava ao lado deles. E discursava em francês. Depois, dava-se início à soirée.

E isso era?
Eu dançava com as senhoras, devidamente apresentadas pelos seus maridos, que eram os meus fãs. Eles depois levavam-me de volta a Liège. E há outro pormenor curioso: o Standard tinha uma revista ilustrada do clube, que ainda hoje publica, e o seu editor lembrou-se de, um dia, fazer uma brincadeira. Chamou quatro jogadores do Standard, eu, Preud’homme, Gerets e Edström, colocou-nos num buggy branco e tirou-nos dezenas de fotos com um número incontável de fatos, camisas, camisolas. Quando acabou a sessão, ofereceu-nos quatro ou cinco dessas roupas a cada um. Chamava-se a isso publicidade.

Em Portugal, isso era impossível?
Sim, eram dois países distintos. A Bélgica estava consolidada, Portugal estava a refazer-se de uma revolução. Ainda não havia dinheiro. Lembro-me de que os meus amigos pediam-me que trouxesse uma garrafa de JB, veja lá. Ou uma de gin. Vou contar-lhe uma coisa: certa vez, o seleccionador português dos sub-21, um senhor chamado Rodrigues Dias, foi à Bélgica ver-me jogar. Era Inverno e nevava. O campo estava todo branco, a bola era cor-de-laranja. No final do jogo, ele disse-me que eu estava um cavalo, fisicamente falando. Que eu tinha de ser convocado para o jogo com a Escócia, lá em Glasgow, em condições atmosféricas muito parecidas com as de Liège. O senhor Rodrigues Dias ligou então à federação a dar conta do meu estado físico, que tinha de ser convocado. Não fui, e sabe porquê?

Nem ideia.
Porque a federação não tinha dinheiro para me pagar uma viagem Liège-Lisboa-Liège. Mas também não se julgue que os jogadores eram bem pagos. No Verão 1979, a minha filha Bárbara nasceu e eu estava a jogar a Intertoto na Áustria. Depois fui para Israel. Só vi a minha filha com um mês de vida. Não havia, naquele tempo, dinheiro para fazer uma viagem de Liége para Lisboa num dia e vir no outro. Não havia low costs nem nada disso.

Voltando atrás, o Norton estava feito um cavalo?
Sim, porque a realidade da metodologia dos treinos também era bastante diferente entre Portugal e Bélgica. Nos anos 70, os portugueses tinham a ideia de que os outros eram sempre mais fortes, mais físicos, mais robustos e eram, de facto. E eu, quando fui para o Standard, pensei ‘estou tramado’.

Porquê?
Se em Portugal treino não sei quantas horas no pinhal e na praia, sobretudo na primeira semana da pré-época, lá fora o treino deve ser muito mais intenso. No primeiro dia em Liège, bola de manhã e bola à tarde. Pensei então que o segundo dia é que fosse dos mais duros. Mas não. Bola e mais bola. E assim em diante. Em três anos de Standard, nunca me lesionei. Em Portugal, falhava alguns jogos por lesões musculares. Dizia-me que era a noite. A desculpa era sempre essa, a noite, que eu saía às noite. Nada disso. Na Bélgica, nunca me lesionei e jogava lá mais vezes do que em Portugal. Lá, era campeonato de 30 jornadas, como em Portugal, mas é preciso acrescentar competições europeias e mais particulares. Além disso, também saía à noite na Bélgica. Só depois dos jogos, claro. Estava sempre a aparecer no social, era conhecido como o playboy. Ainda agora recebi um livro de ouro do Standard e está lá escrito playboy como alcunha.

E o seu treinador apreciava esse estilo?
Virava-se para mim e dizia-me die portugiesische [o português] num tom engraçado.

Quem era ele?
O Ernst Happel. Um dos três homens, a par de Mourinho e Hitzfeld, que foi bicampeão europeu por dois clubes, Feyenoord-70 e Hamburgo-83. Em 1978, ano em que cheguei, ele tinha acabado de perder duas finais: a da Taça dos Campeões pelo FC Brugge, com o Liverpool, e a do Mundial-78, pela Holanda, com a Argentina. Ele e Artur Jorge ensinaram-me muito. Ainda hoje são os meus modelos, juntamente com o Mourinho, inevitavelmente.

Xiiiii, claro, o Happel. Grande homem. Falador?
Nem por isso. Às vezes, até era um bocado antipático. Só que era um mestre. Os treinos dele eram qualquer coisa. Ainda hoje tenho um dossier assim [separa as mãos] com os métodos dele.

Então?
Sempre bola, exercícios variados e ainda hoje em prática. Uma coisa é irmos até à área para rematar e depois recuar até ao meio-campo, sem bola. Outra é receber a bola, driblar uns pinos e atirar para um companheiro no outro lado do campo antes de atirar à baliza. Quando há obstáculos para ultrapassar, o exercício deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma diversão. O Happel mostrou-me isso. Depois, há pormenores de inteligência.

Diga-me um.
Fomos jogar um particular em Kaiserslautern, na pré-época. Antes do jogo, disse-nos que íamos jogar com a defesa em linha. Os alemães, espertos, faziam diagonais com passes longos. Apanhámos 6-0.

O quê?
Isso mesmo. No final do jogo, todos nós estávamos virados do avesso e lá vem o Happel a bater palmas. ‘Muito bem, pessoal, mostraram-me que não conseguimos jogar com a defesa em linha. A partir de agora, jogamos de outra forma.’ Sabe o que aconteceu nessa época?

Nem ideia.
Eliminámos o Kaiserslautern na Taça UEFA, com 2-1 na RFA e 2-1 na Bélgica.

Há mais?
O Happel era um Deus em Brugge. Quer dizer, levou a equipa ao título de campeão belga e, depois, à final da Taça dos Campeões. Certo dia, fomos lá jogar para o campeonato. O ambiente estava terrível, um Brugge-Standard é como um Sporting-Porto. Sabe o resultado final?

Nope.
Brugge 1 Standard 7. Foi à antiga casa e deu 7-1. Que categoria.

Repito-me: há mais?
Só mais esta: jogámos em casa com o Dínamo Dresden e levamos um baile. Mas baile mesmo. Quase no fim, marcamos o empate num livre directo. Um-um. Os adeptos, tramados em Liège, assobiam-nos ruidosamente. O Happel, furioso. Vai para a conferência de imprensa dizer que não entende os assobios, que o resultado que interessa é o da 2.ª mão, na RDA. E chega mesmo a dizer aos jornalistas: ‘nós vamos ganhar lá.’ E eu a pensar, ‘este gajo é um fanfarrão, levámos um baile do Dínamo Dresden, que é como se fosse a selecção da RDA, e ele diz que vamos ganhar?’. A partir do dia seguinte e até à 2.ª mão, só treinámos para esse jogo. Houve outros do campeonato belga pelo meio, só que o pensamento estava permanentemente em Dresden. Sabe o que aconteceu?

Errrrrr, não.
Aos 20 minutos, estava 3-0 para nós. Antes do jogo, ele disse-me ‘De Matos, este é um jogo pars os defesas e médios, não te deixes apanhar em fora-de-jogo’. Ganhámos 4-1.

E quanto à equipa propriamente dita?
Sensacional. Nunca fomos campeões, porque ainda o FC Brugge e o Anderlecht, mas ganhámos uma Taça da Bélgica. O guarda-redes titular Piot, que era o da selecção belga, lesionou-se com gravidade e saltou para a titularidade um jovem de 19 anos chamado Preud’homme, magríssimo, todo chupado. E eu, perplexo.

Porquê?
Em Portugal, nunca se apostaria num miúdo à baliza. Era preciso ter vinte-e-muitos. Ainda por cima, o suplente do Preud’homme era o Munaron, com 18 anos.

E o Preud’homme dá conta do recado?
Nunca mais saiu da baliza. Depois, o patrão da defesa, capitão e verdadeiro líder era o Gerets, que chegou a ir para o Milan, bem auxiliado por Renquin. No meio-campo, o holandês Tahamata, o islandês Sigurvinsson que jogaria no Bayern Munique, o belga Vandermissen. No ataque eu, o austríaco Riedl, o sueco Edström. Grande equipa.

O Edström, lembro-me desse nome.
Era um indivíduo sensacional. Um dia, combinámos e ele leva-me ao quarto de hotel do Björn Borg, que estava a fazer um jogo de exibição em Liège. Era amigo dele. Ficámos horas e horas a falar sobre ténis. Tenho uma foto com o Borg.

Isso é que é de categoria internacional. E mais fotos com celebridades do desporto?
Eddy Merckx.

Nãããããão.
Sim, sim. Todas as quartas-feiras, o Preud’homme, o Merckx e eu íamos levar os nossos pastores-alemães ao melhor tratador da Bélgica, um senhor polaco.

Pastores-alemães na Bélgica com um tratador polaco?
[sorriso + cabelo, é mecânico] Um belo dia, estou a passear de carro e vejo um anúncio de pastores-alemães. Estaciono o carro e vou até à propriedade. Recebe-me um sujeito mal encarado, alto e entroncado. ‘Está aqui a ver o quê? Hoje estamos fechados, é domingo’. Eu faço aquela cara de ‘calma lá, estou só aqui de passagem’. Pergunto-lhe pelos pastores-alemães e ele começa a olhar para mim com aquela cara do ‘conheço-te de algum lado’. Pergunta-me o que faço e eu, que já reparara no poster do Standard por trás deles, digo-lhe que sou jogador. Pronto, amigos para a vida. Ele desenhou um mini-campo de futebol, com baliza e tudo, e convidou-me para treinar o filho de vez em quando. Às quartas, o dia do treino dos pastores-alemães, ele treinava o meu cão, e ainda o do Preud’homme e o do Merckx, e eu treinava o filho dele.

Eddy Merckx, o Canibal.
Tinha um grande respeito pelo Joaquim Agostinho e era um tipo sensacional, descontraído.

E o seu pastor-alemão, como se chamava?
Elvis.

Elvis?
Quando nasce uma ninhada, eles dão-lhes os nomes por ordem alfabética: A, B, C, D. Essa ninhada era a letra E e aquele pastor-alemão era o Elvis.

Sempre Elvis?
Sempre, até cá em Portugal.

Deu-se bem por cá?
No início, sentia muito calor por causa do pêlo.

E viveu muito tempo?
Veja lá a coincidência: foi atropelado por um carro com matrícula belga, ali no Estoril.

Atropelado?
O pastor-alemão é extremamente obediente, ponto. Se for bem treinado, nem se fala. O tratador polaco era realmente um fenómeno. Ele sabia dizer qual era o pastor-alemão dócil ou agressivo desde o primeiro dia, só de olhar para o céu da boca. Incrível. Bom, com o Elvis, eu passeava-o sem trela e bastava-lhe dizer palavras-chave para ele agir. Dizia, todos os pastores-alemães são extremamente obedientes, menos quando sentem uma cadela com o cio. O Elvis viu uma e foi atrás dela, sem olhar para o lado. Apanhou com o carro. Foi cá uma pancada, o carro ficou amolgado e tudo. O Elvis ainda rastejou uns 600 metros até à porta de casa para morrer nos braços do meu filho. Foi uma choradeira. Chorámos todos.

O Elvis sentiu dificuldades com o calor de Portugal, e o Norton com o frio na Bélgica?
Uyyyyy, estamos falar de um país frio e cinzento. Eu costumo dizer que lá há três meses de chuva e nove de Inverno. Quando eu ligava para Portugal no Verão, a minha família estava a tomar banhos de sol na Caparica e eu em Liège com um anorak a tremer de frio. Mas saí de lá outra pessoa e melhor jogador. Quando regressei a Portugal, assinei pelo Portimonense e pedia ao Artur Jorge, agora o meu treinador, para encharcar o relvado antes dos jogos. Já não conseguia jogar em campos secos.

Portimonense, pois é. Faz-se internacional no Portimonense.
Tenho uma placa e tudo. Fui eu e o Coelho, ao mesmo tempo.

E tem camisolas da selecção?
A do Zico.

Como?
Em 1982, jogámos um Brasil-Portugal em São Luís do Maranhão. Perdemos 3-1 com aquele Brasil de sonho e eu pedi o 10 ao Zico.

E mais, mais camisolas?
Uma do Karl-Heinz Förster.

Foooooogo, o central da RFA?
Esse. Marquei nesse jogo em Hannover, é o meu único golo na selecção. Na baliza, aquele Schumacher. À segunda internacionalização.

E a primeira, com quem foi?
Grécia, lá em Atenas, no Olímpico.

Lembra-se de tudo?
Foi a estreia, como não me lembrar? Comecei no banco de suplentes e ficava a imaginar o que faria se a bola me fosse lançada para ali ou acolá. Às tantas, entro e já me tinha apercebido que os defesas gregos iam à bola com algum estilo, sem dureza. Na primeira bola, meto o peito onde um grego ia meter o pé e isolo-me. Quando o guarda-redes sai, faço-lhe um chapéu, a bola vai à barra e fica ali a saltitar. O Oliveira faz a recarga e empata, 2-2.

Só para acabar, quantos cartões vê na carreira?
Só um, no Manchester City-Standard para a Taça UEFA. Perdemos 4-0, com 1-0 aos 89 minutos. Sofremos três golos nos descontos, pobre Michel [Preud’homme]. Durante o jogo, há uma falta sobre mim no meio-campo e o Waseige [esse mesmo, o do Sporting, levado para Alvalade por Norton de Matos] pede-me para levantar rapidamente. Faço-o sem pestanejar e o árbitro dá-me amarelo.

Porquê?
Julgou que estivesse a fazer fita.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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