É um carioca de limão, se faz favor.
É um carioca de limão, se faz favor.
Outro? Calma, calminha jejé. Isto hoje é 2 Fevereiro, o dia da marmota.

É um carioca de limão, se faz favor.
É um carioca de limão, se faz favor.

Se Bill Murray vive e revive o “Feitiço do Tempo” vezes sem conta, connosco é igual. Connosco, quem? Tchan tchan tchaaaaaaaan, Norton de Matos acompanha-nos neste filme. O homem é o maior: em altura, disponibilidade e conversa. Dois cariocas de limão até são poucos, pouquíssimos para quem tem uma vida tão bem vivida como Norton. Ou De Matos, como é conhecido na Bélgica. Na Bélgica? Ah poisééééé, Norton joga cá e lá. Pelo meio, um golo em cinco internacionalizações AA, todas pelo Portimonense. Classe. Vamos lá ao que interessa, falar de bola, só de bola. No limits. É um carioca de limão, se faz favor. Ups.

Norton, o site foradejogo.net dá o seu início de carreira em 1969, nos juvenis do Estoril. É aqui realmente que tudo começa?
Uyyyyyy, começa aí? Isso é entrada a pés juntos.

Amarelo para mim, a bola é toda sua.
Antes, quando andava no São João de Brito, o meu treinador chamava-se Mário Lino.

[parêntesis para dar ênfase à grande, enorme categoria deste senhor: Mário Lino é campeão nacional como jogador e treinador no Sporting]

Prossiga, sff.
Ele era o meu treinador e disse-me, certa vez, para ir aos treinos de captação do Sporting.

E o Norton foi?
Sim, claro. Cheguei lá e tudo me correu bem.

E depois?
Levei a minha ficha a um senhor dirigente chamado Borques Leal. Ele viu-me e nem sequer pensou duas vezes para me dizer que devia cortar o cabelo. Ora bem, se o meu pai não me manda cortar a bola, não é você que o vai fazer. Saí de lá e adiei a oportunidade do futebol.

Até quando?
Já estudava no Manuel Bernardes quando o Manuel Arouca…

[outro parêntesis para dar ênfase à influência de Manuel Arouca na infância de milhares de crianças: é ele o co-autor d’”Os Homens da Segurança”, a melhor série portuguesa filmada em Tróia e arredores num raio de milhões de quilómetros]

Prossiga, sff. O Manuel Arouca…
Viu-me e convidou-me a ir dar uns toques ao Estoril, onde ele jogava.

O Norton vivia onde?
Em Lisboa.

E era fácil ir assim ao Estoril?
Já havia o comboio da Linha, só que os treinos eram à noite e isso complicava a minha vida de estudante.

Como?
Os treinos acabavam às dez da noite e ainda tinha de apanhar o comboio da Linha, depois o 1 ou o 36 para chegar a casa, no Lumiar. Só chegava lá às tantas, depois da meia-noite.

E agora?
A solução encontrada foi dormir em Cascais, na casa do Manuel Arouca, nos dias dos treinos. Ou seja, às terças e quintas.

Assim, na boa.
Calma lá, vamos ao primeiro treino.

Vamos. Como correu?
Cheguei lá e o senhor Pote, o treinador do Estoril que também era um vendedor de bilhas de gás, com uma moto, ficou a olhar para mim.

Então?
Naquele tempo, a moda era quem levasse uns sapatos Lotus com berloques, uns jeans da Levi Strauss ou Levis, uma camisa Pringle ou Lacoste. Aquilo era a moda e eu estava assim. Sempre tive acesso a esse vestuário.

Imagino a cara do senhor Pote.
[Norton desmancha-se a rir, penteia o cabelo e solta o verbo] Ele viu-me e treina-me assim à parte. Puxa de uma bola e atira-a ao ar para ver se a parava bem com o peito. Depois com a coxa. Depois com o pé direito. E o esquerdo. Depois atirava a bola cada vez mais alta.

Só isso?
Chega o treino conjunto, propriamente dito. A bola vem para mim e eu fiz aquilo que era costume no Manuel Bernardes: um drible, dois dribles, três dribles. Às vezes golo, outras nem por isso. Estava lá um senhor ligado ao Estoril que disse alto e bom som ao senhor Pote: ‘Assina já para jogar domingo’.

E foi assim mesmo?
Com uma condição da minha parte: que me arranjassem um passe de comboio em primeira classe.

Uauuuuu.
Claro que nunca fui em primeira classe, porque todos os outros jogadores do Estoril iam na segunda classe e eu acompanhava-os no regabofe entre Estoril e Cais do Sodré.

Chega domingo e…?
Antes, tive de fazer o exame micro aos pulmões no centro de medicina desportiva. Bom, domingo, vamos lá.

Qual é o jogo?
Oeiras-Estoril, juvenis, às nove-e-trinta da manhã.

Que pormenor.
Sei isso perfeitamente, porque o meu pai estava cá com uma cara [Norton volta a dar uma gargalhada sonora acompanhada de um toque no cabelo com as mãos]. Imagine só: se o jogo é às 9.30, tinha de estar às 8 no Estoril e isso significava que tinha de sair do Lumiar às 7. Esse tipo de horários ao fim-de-semana era um martírio.

Chegou a tempo?
Ah, claro.

E o resultado?
Perdemos 4-3 e eu marquei os três golos. O melhor desse dia é a viagem de volta. Lembro-me como se fosse agora, neste momento: estávamos na curva do Monaco, ali na Marginal, e a rádio dá o “Lucky Man” do Emerson, Lake & Palmer. De repente, o meu pai e eu começamos a cantar a música. Sentia-me o Lucky Man e o meu pai também. Grande momento. Aliás, a partir daí, o meu pai tornou-se o meu maior adepto e passou a acompanhar-me para todo o lado.

E o domingo seguinte?
Mais três golos meus ao Oriental.

Daí para a frente, só Estoril?
Joguei pelo Vitória no Torneio Internacional de Lisboa. O Pedroto era o treinador e queria ver-me. Virou-se para mim [engasga-se a rir] e diz-me ‘olha olha, um filho de engenheiro a jogar à bola’. Nesse dia, o Vitória jogou com o Alverca ou o Vila Franca, já não me lembro, e ganhámos 6-1 ou 6-0. Marquei os seis golos.

Bolas.
O Vitória queria assinar comigo. Se Estoril era longe, Setúbal então. Ofereciam-me um carro, só que ainda não tinha idade sequer para começar a tirar a carta de condução. Deixei-me ficar no Estoril.

Depois, Benfica.
Fui campeão de juniores em 1971-72, ganhámos 2-1 ao Sporting no Restelo. E depois 4-1 ao Porto em Leiria, com dois golos meus ao Quim.

Quem jogava nessa equipa?
Uyyyy, Bastos Lopes, Shéu, Vital, Rui Lopes, Pedroto, o Bernardino.

Sobe às reservas?
Sim, em 1972-73.

Essa é a grande época do Benfica, campeão nacional sem derrotas.
Pois é, que categoria aquela equipa. O treinador era o Hagan.

Treinava com ele?
Sempre. A equipa de reservas era basicamente a equipa dos suplentes, aqueles que não eram convocados para os jogos dos seniores. E havia um campeonato de reservas e tudo.

Então, o Hagan era o seu treinador. Como era ele?
[antes de responder, a cena do costume: gargalhada seguida de mãos a esticar o cabelo para trás] Vou contar só isto: uma vez, o Hagan foi a Inglaterra para ser operado ao menisco e a malta toda contente [fecha as duas mãos e abana-as para cima e para baixo como se estivesse a celebrar um golo]. Julgávamos que ia demorar umas semanas a voltar aos treinos. Qual quê, ao terceiro dia, já estava de apito na boca, com aquela pontualidade.

Qual?
Dez da manhã. Ele não perdoava: às dez era às dez, ponto.

E quem se atrasasse?
Era assim: ele entrava no Estádio da Luz às 9-e-50-e-tal e soprava o apito às 10. Acto contínuo, começava a correr à volta do relvado. Quem não estivesse pronto, porque havia sempre alguém ainda a calçar as botas ou a subir as escadas de acesso ao relvado, ele anotava mentalmente. No fim do exercício, virava-se para o infractor, digamos assim, e sinhor tal sinhor isto sinhor aquilo tantas flexões. Tauuu, ali na hora. Ele não perdoava. Tal como não perdoava quem fizesse corta-mato na bandeirola de canto. Está a ver aquela parte do relvado em que podemos cortar caminho? Com ele, isso era uma infracção muito grave. Para o exercício estar bem feito, o jogador tinha de contornar a bandeirola. E era aí, nessa curva, que ele virava a cabeça e percebia quem aldrabava ou não. Uma vez, apanhou o Toni e o Humberto.

Uisch.
Foram castigados com treino à tarde e escusados de jogar na homenagem ao Eusébio, nessa mesma noite. Deu uma barraca maiúscula, porque o presidente Borges Coutinho interveio. O Toni e o Humberto não podiam faltar à festa do Eusébio. O Hagan viu aquilo como uma afronta à sua autoridade como treinador e saiu do Benfica.

Borges Coutinho, que tal?
[faz um barulho com a boca como quem diz grande homem] Grande homem. Tomara haver mais presidentes como ele, hoje em dia. Era um gentleman, sempre impecavelmente vestido e sabia falar de tudo. Ainda me lembro da ressaca do 25 de Abril, quando o Benfica atrasou-se pela primeira vez a pagar o ordenado a horas, no dia 1, acho. Ele foi ao balneário dizer-nos isso e estava tão constrangido.

A última pergunta de bola era sobre as reservas em 1972-73.
Joguei um famoso Benfica-Ajax para o Torneio Internacional de Lisboa. O jogo foi transmitido pela televisão, foi um sucesso enorme. É a minha estreia na TV. Ganhámos e marquei com um slalom desde o meio-campo. Sabe o que me disse o Hagan? “Sinhor, no drible” [lá vem ele: sorriso generoso e mãos no cabelo]. Uns dias depois, um polícia mandou-me parar aqui, em Lisboa, para elogiar esse golo.

Como é que nunca chega a jogar na equipa sénior do Benfica?
Avançados, como eu, havia uns seis. E todos internacionais: Eusébio, Simões, Vítor Baptista, Nené, Jordão, Artur Jorge. Há ainda o factor Pavic.

O treinador jugoslavo?
Esse mesmo. Na última jornada do campeonato, em que o Benfica já é campeão e vai jogar com o Atlético à Tapadinha, vou ao banco e não saio de lá. Também nessa época, vou para o banco na final da Taça de Portugal 1975, com o Boavista, em Alvalade, e não entro. Outra desilusão. A maior da minha carreira: nunca joguei pelo Benfica. Isso e o ter falhado um concerto dos Queen, em Bruxelas.

A sério, Queen?
E eu não fui [faz uma careta], nunca me vou perdoar.

Isso é quando?
1978. Três anos antes, tinha ido ver os Genesis a Cascais, com o Peter Gabriel mais o Phil Collins na bateria. No pós-25 de Abril, até houve tiros para o ar. Foi o melhor concerto da minha vida, nunca mais me esquecerei.

O Norton era da música?
Sempre, adoro música. Tinha amigos na TAP que me traziam os discos proibidos em Portugal. Havia um que era picante, o “je t’aime… moi non plus”, do Serge Gainsbourg e Jane Birkin. Quando eu levava aquilo para as festas, em Coimbra. era um silêncio total. As pessoas como que ficavam envergonhadas por ouvir um som proibido. Sem esquecer a força da música, claro. Aquilo paralisava.

Ainda bem que fala em Coimbra. Joga na Académica em 1973-74. Quem é o treinador?
O Fernando Vaz, que foi aos arames comigo.

Então?
Cheguei a Coimbra com camisas bocas de sino, calças às riscas, tipo hippie. Agora é contextualizar: tinha 18 anos, fui viver sozinho em Coimbra, no calor da revolução, entre repúblicas e mais repúblicas. Cheguei lá sem nunca ter bebido nada de especial, um ano depois já bebia umas cinco ou seis canecas.

E jogar que é bom?
‘Tá boa: levei o tradicional pontapé no rabo, na estreia, e marquei o primeiro golo na 1.ª divisão, ao Barreirense.

À Académica segue-se o Atlético.
Descemos de divisão, só que diverti-me. Ainda na primeira volta, o treinador Caraballo sai.

E quem entra?
Quatro jogadores.

Jogadores?
O Nelo Vingada, o Mário Wilson filho, o Rui Silva e eu. Ficámos responsáveis pela equipa na jornada seguinte, com o Boavista.

No Bessa?
Isso mesmo, perdemos 6-2. Eu marquei um golo e outro foi o Mário Wilson. Quem era o treinador do Boavista?

Nem ideia?
O pai do Mário Wilson. Grandes histórias no Atlético. Joguei com o Sporting e havia lá um africano elegantíssimo chamado Keita. Que classe, o homem. Eu admirava-o bastante. Tanto em Alvalade como na Tapadinha. Dava por mim, quieto no meio-campo, a vê-lo a correr, a desmarcar-se, a dominar a bola. Eu treinei com o Eusébio dias e dias a fio no Benfica e agora estava ali a coleccionar outro ídolo. Grande Keita.

Ao Atlético segue-se o…
Belenenses. Acabámos em sexto, o treinador era o António Medeiros. No plantel, um Artur Jorge já em final de carreira e carregado de ilusão para conhecer melhor as nuances tácticas do futebol antes de dar o salto como treinador.

O salto dá o Norton em 1978.
O Standard?

Claaaaaaro. Que tal?
Fui muito feliz na Bélgica, numa altura em que poucos portugueses saíam do país [em 78-79, na Europa, só Damas, no Racing Santander, em Espanha; nos EUA, Alhinho-Tea Men Boston, Artur Correia-New England Revolution, Humberto Coelho, Toni e Eusébio-Las Vegas Quicksilver, Seninho-NY Cosmos e Simões-Dallas Tornado].

Como foi a transferência?
Em 1977-78, tinha 24 anos e jogava no Belenenses. Na parte final da época, os dirigentes do Standard foram ao Restelo para ver um avançado chamado Amaral. Acontece que nesse jogo [Belenenses-Varzim, 1-0 para a 28ª jornada do campeonato] fui eu que fiz o 1-0, num remate de fora da área ao ângulo, e o Amaral nada. O Standard interessou-se então por mim. Veja lá como eram as coisas porque eles jantaram nessa noite comigo.

Jantar?
Sim, e levei o meu pai.

Onde foi o jantar?
Ali no Gatsby.

Gatsby?
Aqui perto, na António Augusto de Aguiar, debaixo de umas arcadas. Agora é um italiano [Piccolo Napoli].

E que tal? (a conversa com o Standard, não o jantar).
Propuseram-me uma semana de treino em Liège. Lá fui. Agradei e fiquei lá três épocas. O contrato estava todo pensado, ponto por ponto. Literalmente. Eu ganhava ao ponto. Por um empate, ganhava qualquer coisa como cinco contos. Se ganhasse, dez contos. Nas competições europeias, o apuramento para a 2.ª eliminatória implicava tanto dinheiro que duplicava se atingíssemos a 3.ª ronda e por aí fora. Tudo muito pensado. E executado sem atrasos nem demoras de qualquer tipo. Não me lembro de ver um envelope com dinheiro nem uma única vez. Aquilo era depositado na conta bancária no dia tal e pronto.

Em Liège, quais as primeiras diferenças em relação a Portugal?
Bem, em Portugal só havia dois canais que acabavam a programação à meia-noite com o hino nacional e eu tinha uma televisão a preto e branco. Chego a Liège e deparo-me no quarto de hotel com uma televisão a cores, com 16 canais. A cores, hã? A novidade é essa. Passar do preto e branco para o a cores é uma grande, enorme mudança. Eu passava horas à frente daquela caixa mágica. E quem me visitava também. Aquilo era um mundo novo.

A sério?
E ainda não contei a parte do vídeo. Eu comprei uma BetaCam, um aparelho de vídeo que gravava. E eu gravava tudo. Imagine: resumos de futebol dos campeonatos francês, alemão, holandês e, claro, belga, finais de ténis em Flushing Meadows, Wimbledon, Roland Garros, música e outros programas. Gastei muito dinheiro na compra de cassetes. Comprava às vinte de cada vez.

E fora do quarto de hotel?
Surpreenda-se: havia McDonalds e Coca-Cola. Tudo coisas novas para mim. Em Portugal, não havia nada disso.

Nãããão.
É como lhe digo.

E mais?
Mal assinei pelo Standard, recebi da Adidas três pares de chuteiras com pitons de alumínio, outras três com pitons de borracha, fatos-de-treino, sapatilhas, tudo e mais alguma coisa. O meu carro ficou cheio com aquela tralha toda. E eu só jogava com um par, o outro estava religiosamente guardado lá em casa. Em Portugal, era preciso juntar, juntar e juntar o dinheiro para comprarmos um par de Adidas. E isso também vale para um par de calças da Levis, um casaco desta marca, uma blusa da outra. A diferença entre Portugal e Bélgica era enorme. Repare: nós, jogadores do Standard, éramos requisitados uma vez por mês a ir a um centro comercial, tipo Colombo, e passar lá duas horas a assinar autógrafos. Eu, por exemplo, tinha casas de fãs espalhadas por toda a Bélgica. Em Bruxelas, Antuérpia, Charleroi. Clubes de fãs. Com o consentimento do clube, eles iam buscar-me a Liège e levam-me a um jantar promovido por eles. Lá, eu jantava ao lado deles. E discursava em francês. Depois, dava-se início à soirée.

E isso era?
Eu dançava com as senhoras, devidamente apresentadas pelos seus maridos, que eram os meus fãs. Eles depois levavam-me de volta a Liège. E há outro pormenor curioso: o Standard tinha uma revista ilustrada do clube, que ainda hoje publica, e o seu editor lembrou-se de, um dia, fazer uma brincadeira. Chamou quatro jogadores do Standard, eu, Preud’homme, Gerets e Edström, colocou-nos num buggy branco e tirou-nos dezenas de fotos com um número incontável de fatos, camisas, camisolas. Quando acabou a sessão, ofereceu-nos quatro ou cinco dessas roupas a cada um. Chamava-se a isso publicidade.

Em Portugal, isso era impossível?
Sim, eram dois países distintos. A Bélgica estava consolidada, Portugal estava a refazer-se de uma revolução. Ainda não havia dinheiro. Lembro-me de que os meus amigos pediam-me que trouxesse uma garrafa de JB, veja lá. Ou uma de gin. Vou contar-lhe uma coisa: certa vez, o seleccionador português dos sub-21, um senhor chamado Rodrigues Dias, foi à Bélgica ver-me jogar. Era Inverno e nevava. O campo estava todo branco, a bola era cor-de-laranja. No final do jogo, ele disse-me que eu estava um cavalo, fisicamente falando. Que eu tinha de ser convocado para o jogo com a Escócia, lá em Glasgow, em condições atmosféricas muito parecidas com as de Liège. O senhor Rodrigues Dias ligou então à federação a dar conta do meu estado físico, que tinha de ser convocado. Não fui, e sabe porquê?

Nem ideia.
Porque a federação não tinha dinheiro para me pagar uma viagem Liège-Lisboa-Liège. Mas também não se julgue que os jogadores eram bem pagos. No Verão 1979, a minha filha Bárbara nasceu e eu estava a jogar a Intertoto na Áustria. Depois fui para Israel. Só vi a minha filha com um mês de vida. Não havia, naquele tempo, dinheiro para fazer uma viagem de Liége para Lisboa num dia e vir no outro. Não havia low costs nem nada disso.

Voltando atrás, o Norton estava feito um cavalo?
Sim, porque a realidade da metodologia dos treinos também era bastante diferente entre Portugal e Bélgica. Nos anos 70, os portugueses tinham a ideia de que os outros eram sempre mais fortes, mais físicos, mais robustos e eram, de facto. E eu, quando fui para o Standard, pensei ‘estou tramado’.

Porquê?
Se em Portugal treino não sei quantas horas no pinhal e na praia, sobretudo na primeira semana da pré-época, lá fora o treino deve ser muito mais intenso. No primeiro dia em Liège, bola de manhã e bola à tarde. Pensei então que o segundo dia é que fosse dos mais duros. Mas não. Bola e mais bola. E assim em diante. Em três anos de Standard, nunca me lesionei. Em Portugal, falhava alguns jogos por lesões musculares. Dizia-me que era a noite. A desculpa era sempre essa, a noite, que eu saía às noite. Nada disso. Na Bélgica, nunca me lesionei e jogava lá mais vezes do que em Portugal. Lá, era campeonato de 30 jornadas, como em Portugal, mas é preciso acrescentar competições europeias e mais particulares. Além disso, também saía à noite na Bélgica. Só depois dos jogos, claro. Estava sempre a aparecer no social, era conhecido como o playboy. Ainda agora recebi um livro de ouro do Standard e está lá escrito playboy como alcunha.

E o seu treinador apreciava esse estilo?
Virava-se para mim e dizia-me die portugiesische [o português] num tom engraçado.

Quem era ele?
O Ernst Happel. Um dos três homens, a par de Mourinho e Hitzfeld, que foi bicampeão europeu por dois clubes, Feyenoord-70 e Hamburgo-83. Em 1978, ano em que cheguei, ele tinha acabado de perder duas finais: a da Taça dos Campeões pelo FC Brugge, com o Liverpool, e a do Mundial-78, pela Holanda, com a Argentina. Ele e Artur Jorge ensinaram-me muito. Ainda hoje são os meus modelos, juntamente com o Mourinho, inevitavelmente.

Xiiiii, claro, o Happel. Grande homem. Falador?
Nem por isso. Às vezes, até era um bocado antipático. Só que era um mestre. Os treinos dele eram qualquer coisa. Ainda hoje tenho um dossier assim [separa as mãos] com os métodos dele.

Então?
Sempre bola, exercícios variados e ainda hoje em prática. Uma coisa é irmos até à área para rematar e depois recuar até ao meio-campo, sem bola. Outra é receber a bola, driblar uns pinos e atirar para um companheiro no outro lado do campo antes de atirar à baliza. Quando há obstáculos para ultrapassar, o exercício deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma diversão. O Happel mostrou-me isso. Depois, há pormenores de inteligência.

Diga-me um.
Fomos jogar um particular em Kaiserslautern, na pré-época. Antes do jogo, disse-nos que íamos jogar com a defesa em linha. Os alemães, espertos, faziam diagonais com passes longos. Apanhámos 6-0.

O quê?
Isso mesmo. No final do jogo, todos nós estávamos virados do avesso e lá vem o Happel a bater palmas. ‘Muito bem, pessoal, mostraram-me que não conseguimos jogar com a defesa em linha. A partir de agora, jogamos de outra forma.’ Sabe o que aconteceu nessa época?

Nem ideia.
Eliminámos o Kaiserslautern na Taça UEFA, com 2-1 na RFA e 2-1 na Bélgica.

Há mais?
O Happel era um Deus em Brugge. Quer dizer, levou a equipa ao título de campeão belga e, depois, à final da Taça dos Campeões. Certo dia, fomos lá jogar para o campeonato. O ambiente estava terrível, um Brugge-Standard é como um Sporting-Porto. Sabe o resultado final?

Nope.
Brugge 1 Standard 7. Foi à antiga casa e deu 7-1. Que categoria.

Repito-me: há mais?
Só mais esta: jogámos em casa com o Dínamo Dresden e levamos um baile. Mas baile mesmo. Quase no fim, marcamos o empate num livre directo. Um-um. Os adeptos, tramados em Liège, assobiam-nos ruidosamente. O Happel, furioso. Vai para a conferência de imprensa dizer que não entende os assobios, que o resultado que interessa é o da 2.ª mão, na RDA. E chega mesmo a dizer aos jornalistas: ‘nós vamos ganhar lá.’ E eu a pensar, ‘este gajo é um fanfarrão, levámos um baile do Dínamo Dresden, que é como se fosse a selecção da RDA, e ele diz que vamos ganhar?’. A partir do dia seguinte e até à 2.ª mão, só treinámos para esse jogo. Houve outros do campeonato belga pelo meio, só que o pensamento estava permanentemente em Dresden. Sabe o que aconteceu?

Errrrrr, não.
Aos 20 minutos, estava 3-0 para nós. Antes do jogo, ele disse-me ‘De Matos, este é um jogo pars os defesas e médios, não te deixes apanhar em fora-de-jogo’. Ganhámos 4-1.

E quanto à equipa propriamente dita?
Sensacional. Nunca fomos campeões, porque ainda o FC Brugge e o Anderlecht, mas ganhámos uma Taça da Bélgica. O guarda-redes titular Piot, que era o da selecção belga, lesionou-se com gravidade e saltou para a titularidade um jovem de 19 anos chamado Preud’homme, magríssimo, todo chupado. E eu, perplexo.

Porquê?
Em Portugal, nunca se apostaria num miúdo à baliza. Era preciso ter vinte-e-muitos. Ainda por cima, o suplente do Preud’homme era o Munaron, com 18 anos.

E o Preud’homme dá conta do recado?
Nunca mais saiu da baliza. Depois, o patrão da defesa, capitão e verdadeiro líder era o Gerets, que chegou a ir para o Milan, bem auxiliado por Renquin. No meio-campo, o holandês Tahamata, o islandês Sigurvinsson que jogaria no Bayern Munique, o belga Vandermissen. No ataque eu, o austríaco Riedl, o sueco Edström. Grande equipa.

O Edström, lembro-me desse nome.
Era um indivíduo sensacional. Um dia, combinámos e ele leva-me ao quarto de hotel do Björn Borg, que estava a fazer um jogo de exibição em Liège. Era amigo dele. Ficámos horas e horas a falar sobre ténis. Tenho uma foto com o Borg.

Isso é que é de categoria internacional. E mais fotos com celebridades do desporto?
Eddy Merckx.

Nãããããão.
Sim, sim. Todas as quartas-feiras, o Preud’homme, o Merckx e eu íamos levar os nossos pastores-alemães ao melhor tratador da Bélgica, um senhor polaco.

Pastores-alemães na Bélgica com um tratador polaco?
[sorriso + cabelo, é mecânico] Um belo dia, estou a passear de carro e vejo um anúncio de pastores-alemães. Estaciono o carro e vou até à propriedade. Recebe-me um sujeito mal encarado, alto e entroncado. ‘Está aqui a ver o quê? Hoje estamos fechados, é domingo’. Eu faço aquela cara de ‘calma lá, estou só aqui de passagem’. Pergunto-lhe pelos pastores-alemães e ele começa a olhar para mim com aquela cara do ‘conheço-te de algum lado’. Pergunta-me o que faço e eu, que já reparara no poster do Standard por trás deles, digo-lhe que sou jogador. Pronto, amigos para a vida. Ele desenhou um mini-campo de futebol, com baliza e tudo, e convidou-me para treinar o filho de vez em quando. Às quartas, o dia do treino dos pastores-alemães, ele treinava o meu cão, e ainda o do Preud’homme e o do Merckx, e eu treinava o filho dele.

Eddy Merckx, o Canibal.
Tinha um grande respeito pelo Joaquim Agostinho e era um tipo sensacional, descontraído.

E o seu pastor-alemão, como se chamava?
Elvis.

Elvis?
Quando nasce uma ninhada, eles dão-lhes os nomes por ordem alfabética: A, B, C, D. Essa ninhada era a letra E e aquele pastor-alemão era o Elvis.

Sempre Elvis?
Sempre, até cá em Portugal.

Deu-se bem por cá?
No início, sentia muito calor por causa do pêlo.

E viveu muito tempo?
Veja lá a coincidência: foi atropelado por um carro com matrícula belga, ali no Estoril.

Atropelado?
O pastor-alemão é extremamente obediente, ponto. Se for bem treinado, nem se fala. O tratador polaco era realmente um fenómeno. Ele sabia dizer qual era o pastor-alemão dócil ou agressivo desde o primeiro dia, só de olhar para o céu da boca. Incrível. Bom, com o Elvis, eu passeava-o sem trela e bastava-lhe dizer palavras-chave para ele agir. Dizia, todos os pastores-alemães são extremamente obedientes, menos quando sentem uma cadela com o cio. O Elvis viu uma e foi atrás dela, sem olhar para o lado. Apanhou com o carro. Foi cá uma pancada, o carro ficou amolgado e tudo. O Elvis ainda rastejou uns 600 metros até à porta de casa para morrer nos braços do meu filho. Foi uma choradeira. Chorámos todos.

O Elvis sentiu dificuldades com o calor de Portugal, e o Norton com o frio na Bélgica?
Uyyyyy, estamos falar de um país frio e cinzento. Eu costumo dizer que lá há três meses de chuva e nove de Inverno. Quando eu ligava para Portugal no Verão, a minha família estava a tomar banhos de sol na Caparica e eu em Liège com um anorak a tremer de frio. Mas saí de lá outra pessoa e melhor jogador. Quando regressei a Portugal, assinei pelo Portimonense e pedia ao Artur Jorge, agora o meu treinador, para encharcar o relvado antes dos jogos. Já não conseguia jogar em campos secos.

Portimonense, pois é. Faz-se internacional no Portimonense.
Tenho uma placa e tudo. Fui eu e o Coelho, ao mesmo tempo.

E tem camisolas da selecção?
A do Zico.

Como?
Em 1982, jogámos um Brasil-Portugal em São Luís do Maranhão. Perdemos 3-1 com aquele Brasil de sonho e eu pedi o 10 ao Zico.

E mais, mais camisolas?
Uma do Karl-Heinz Förster.

Foooooogo, o central da RFA?
Esse. Marquei nesse jogo em Hannover, é o meu único golo na selecção. Na baliza, aquele Schumacher. À segunda internacionalização.

E a primeira, com quem foi?
Grécia, lá em Atenas, no Olímpico.

Lembra-se de tudo?
Foi a estreia, como não me lembrar? Comecei no banco de suplentes e ficava a imaginar o que faria se a bola me fosse lançada para ali ou acolá. Às tantas, entro e já me tinha apercebido que os defesas gregos iam à bola com algum estilo, sem dureza. Na primeira bola, meto o peito onde um grego ia meter o pé e isolo-me. Quando o guarda-redes sai, faço-lhe um chapéu, a bola vai à barra e fica ali a saltitar. O Oliveira faz a recarga e empata, 2-2.

Só para acabar, quantos cartões vê na carreira?
Só um, no Manchester City-Standard para a Taça UEFA. Perdemos 4-0, com 1-0 aos 89 minutos. Sofremos três golos nos descontos, pobre Michel [Preud’homme]. Durante o jogo, há uma falta sobre mim no meio-campo e o Waseige [esse mesmo, o do Sporting, levado para Alvalade por Norton de Matos] pede-me para levantar rapidamente. Faço-o sem pestanejar e o árbitro dá-me amarelo.

Porquê?
Julgou que estivesse a fazer fita.