A dívida pública “é insustentável”, tem de se fazer “uma reforma do Estado de uma vez por todas”, é vital criar “um clima de confiança” para as empresas e é preciso “incentivar a poupança” dos portugueses. Estas foram algumas das críticas e recados que Rio Rio deixou hoje à tarde num encontro empresarial no Algarve, numa intervenção onde não faltou uma declaração controversa sobre as quotas de género na gestão das empresas públicas e cotadas.

O economista e ex-presidente da Câmara do Porto considerou que, na conjuntura atual, a obrigatoriedade de integrar mulheres nos órgãos de gestão é um “luxo saudável” a que as empresas não se podem dar neste momento. A medida em causa obriga as empresas públicas, a partir de Janeiro de 2018, a terem uma representação mínima de 33% de ambos os sexos nas suas administrações – no caso das empresas cotadas, a exigência mínima será de 20% no próximo ano e de 33% em 2020. “Peço desculpa às senhoras, que me merecem o maior respeito”, afirmou, mas a obrigação de “ter mais senhoras ou mesmo mais homens é um luxo saudável que as empresas não podem ter nesta fase”, rematou.

A intervenção de Rui Rio começara num tom informal, até bem humorado, e os comentários reservaram algumas críticas à estratégia de crescimento económico que tem sido defendida pelo governo de António Costa. “Já se percebeu que é pelas exportações e pelo investimento que o crescimento se faz, não é pelo consumo privado”, defendeu o economista e ex-presidente da Câmara do Porto, no discurso com que iniciou o último painel de debate do V Fórum Empresarial do Algarve, em Vilamoura.

Perante uma plateia com perto de 200 empresários, gestores, investidores, advogados e outras personalidades– onde se encontravam figuras como o presidente do grupo SIVA, João Pereira Coutinho, ou o presidente da CIP, António Saraiva –, Rui Rio deu o mote para um debate sobre o papel do Estado no fomento do investimento. E, no mesmo discurso de apresentação do debate, reforçou a importância de criar um clima de confiança no país.

Já se percebeu que é pelas exportações e pelo investimento que o crescimento se faz, não é pelo consumo privado.”

“Compete ao Estado mexer em determinadas variáveis, como a confiança. Criar condições para que exista confiança” de empresários e investidores, lembrou o economista, que moderou o debate na condição de partner da consultora Boyden. Ao seu lado estavam o ex-ministro e antigo presidente executivo do Banco BIC, Luís Mira Amaral, e o presidente da AICEP, Miguel Frasquilho, ambos “com uma costela social-democrata”, como lembrou. O debate contou ainda o economista e ex-assessor de António Costa, Vítor Escária, e o advogado e sócio da Linklaters, Pedro Siza Vieira, “outras costelas”, ironizou Rui Rio entre os risos da plateia.

O elogio da poupança

Rui Rio voltou a dar um toque político às suas declarações — e deu nota disso à audiência — quando chamou o tema da poupança ao debate. Lembrou que a poupança dos portugueses desceu de tal forma que está nos níveis que se verificavam em 1960. E criticou a ideia que se instalou no país de que “quem poupa é rico, quem se endivida é pobre. E por isso é preciso apoiar os pobres”, comentou o economista. Perante o que considera uma situação penalizadora, defende: “Temos de voltar a apoiar a poupança”.

Quem poupa é rico, quem se endivida é pobre. E por isso é preciso apoiar os pobres”, ironizou Rui Rio. Uma situação que o economista critica, ao mesmo tempo que alerta para a queda da poupança dos portugueses, que está em níveis equivalentes aos de 1960. “Temos de voltar a apoiar a poupança.”

Numa espécie de radiografia breve da economia portuguesa, o discurso inicial de Rui Rio deu também o mote para uma discussão à volta de três pontos críticos para a sustentabilidade das empresas portuguesas. Em primeiro lugar, o baixo nível de autonomia financeira das empresas portuguesas. Depois, a excessiva dependência do financiamento bancário. E, por fim, o elevado sobreendividamento do tecido empresarial português.

À margem do debate, em conversa com os jornalistas, Rui Rio reforçou de novo a sua avaliação negativa às contas públicas. Considera que a dívida pública “é insustentável” e que é preciso inverter um caminho em que, “o desde o 25 de Abril, só somamos dívida e défice”. Como? O economista propõe que se olhe para a despesa corrente e que “é preciso ter pequenos superavits financeiros”. Mais: defende que não se pode adiar mais a reforma do Estado e que isso obriga a seguir “uma estratégia consistente de longo prazo”.

O V Fórum Empresarial do Algarve, organizado pelo LIDE Portugal, está a decorrer em Vilamoura desde ontem, 17, e termina amanhã de manhã. É a quinta edição de um encontro que tem como objetivo debater temas que marcam a agenda económica, política e empresarial. Este ano o tema-chave é “Crescimento e criação de valor”.