Um Donald Trump mais contido, menos provocador e mais interessado em criar pontes e do que em esmagar politicamente quem se cruze no seu caminho. De tal forma que, no seu discurso perante o Congresso, esta terça-feira, se ouviu o presidente dos EUA dizer algo como isto: “Somos um povo, com um destino. O tempo do pensamento mesquinho acabou. Ultrapassámos o tempo das guerras fúteis. Só precisamos de coragem para partilhar os sonhos que nos preenchem os corações”.

Mas nem por isso Trump contou com uma plateia mais fácil: os democratas no Congresso assistiram impávidos à primeira intervenção do sucessor de Obama naquela casa, sem margem para aplausos de circunstâncias, e foram os primeiros a sair da sala assim que a intervenção chegou ao fim, ainda o Presidente descia do palanque.

Apesar de menos bélico na (maioria) da sua intervenção, Trump não largou, em certas passagens, o tom populista. Por exemplo quando soltou, num tom fatalista: “A qualquer pessoa no Congresso que não acredite que devemos reforçar as nossas leis, coloco-vos esta questão: o que diriam à família americana que perdeu os seus empregos, os seus rendimentos ou os seus mais próximos, porque a América se recusou a reforçar as leis e a defender as suas fronteiras?”.

Durante mais de uma hora, o presidente dos EUA dirigiu-se aos congressistas para apresentar as linhas (muito) gerais de trabalho da sua Administração para os próximos meses. O muro na fronteira com o México continua a ser um projeto em cima da mesa, a revogação do ObamaCare também. Mas os compromissos internacionais — leia-se a NATO — são para cumprir.

Cortar na saúde, aplicar em estradas

“O ObamaCare está a falhar”, continua a garantir Donald Trump. É, por isso, urgente encontrar novas soluções para “alargar o acesso” a cuidados de saúde aos milhões de americanos que, sem o pacote de assistência aprovado pela anterior administração, que Trump quer revogar, ficam sem acesso a uma observação médica.

Mas isso pode fazer-se com “custos mais baixos” e, ao mesmo tempo, garantindo “melhor cuidados”. A garantia é do próprio presidente dos EUA, ainda que, após meses de campanha (sempre com a promessa de derrubar o ObamaCare) e depois de mais de um mês em funções, Trump continue sem concretizar claramente de que forma pode substituir o projeto que marcou a Administração Obama no setor da saúde por algo melhor.

Cortar num lado para aplicar noutro. Tal como tinha prometido, Trump quer reabilitar as infraestruturas do país, que diz estarem degradadas. Para isso, anunciou a reserva de um bilião (um milhão de milhões) de dólares, “financiados quer através do setor público quer através do setor privado” para reconstruir os EUA. Investimentos que deverão criar, diz, “milhões de postos de trabalho”.

Trump garante que se trata do “maior programa nacional de reconstrução desde que o Presidente Dwight Eisenhower construiu o sistema interestadual de estradas, na década de 1950”. O dinheiro, já Trump tinha manifestado em dezembro como sua intenção, vai servir para reabilitar estradas, pontes e o hubs de transportes do país que estão degradados.

Reforma fiscal “histórica”

Será a moeda de troca para o ultimato que o presidente dos EUA tem lançado às empresas multinacionais, para que continuem a estar sediadas no país e não “emigrem” para outras geografias. “A minha equipa económica está a preparar uma reforma fiscal histórica que vai reduzir os impostos sobre as nossas empresas para que possam competir e vingar em qualquer lado e com qualquer pessoa”, disse Donald Trump perante o congresso.

Um alívio que tentará manter as empresas em solo americano e, por arrasto, garantir que milhares de postos não fogem para sul. Mas esse aligeirar da carga fiscal não se esgota no setor empresarial. Também a classe média deverá contar em breve com uma “redução em massa” de impostos. O “quando” e o “quanto” ficam para clarificação futura.

A emigração baseada no “mérito”

Trump tentou fechar as portas dos EUA a cidadãos de sete países de maioria muçulmana. Antes, já tinha prometido (e reiterou-o no Congresso) erguer um muro que impeça a entrada dos “bad hombres” que alegadamente chegam ao país vindos do vizinho a sul para traficar droga, violar mulheres e matar inocentes.

No discurso desta terça-feira, o presidente norte-americano não deixa de associar a emigração aos riscos para a segurança interna. Além do “grande, grande muro” na fronteira com o México, Trump defende que “quem receber a grande honra” de receber luz verde para entrar no país deve “amar” as leis e costumes norte-americanos. “Não podemos permitir que o nosso país se torne um santuário para extremistas” e que ali se instalem “testas-de-ferro” que possam por em risco a segurança dos cidadãos norte-americanos.

Mas o tom mudou ligeiramente. “Acredito que é possível uma verdadeira e positiva reforma da imigração” que cumpra com alguns pontos-chave: criar empregos e subir salários para os americanos, reforçar a segurança para os EUA, repor o respeito pelas leis. “Se nos guiamos pelo bem-estar dos cidadãos americanos, acredito que Republicanos e Democratas podem trabalhar em conjunto para alcançar um resultado que tem escapado o nosso país durante décadas”.

Ainda a braços com uma batalha pela aprovação da sua ordem executiva contra a entrada de imigrantes de vários países, Trump concretizou agora a ideia de que os imigrantes são bem-vindos, desde que consigam “sustentar-se financeiramente e possam contribuir para a sociedade”. Numa palavra, o Presidente dos EUA defende um “sistema de imigração baseado no mérito“.

Ao mesmo tempo, anunciou que vai criar um gabinete exclusivamente que apoie os cidadãos do país que sejam vítimas de crimes cometidos por imigrantes. O gabinete vai chamar-se VOICE — o acrónimo em inglês de Vítimas de Crime Cometido por Imigrantes. Para que não fiquem dúvidas do seu propósito. “Vamos dar uma voz àqueles que foram ignorados pelos nossos media e que foram silenciados por interesses particulares”, disse Trump, numa sugestão de que os meios de comunicação social norte-americanos abafam notícias para não dar razão à retórica anti-imigração do Presidente dos EUA.

Defesa. Os maiores gastos da história dos EUA

Outro objetivo declarado: acabar com o “sequestro” a que a Defesa terá sido sujeita e que tem impedido o Pentágono de alocar mais dólares ao setor militar.

Trump compromete-se com “um dos maiores gastos com a Defesa nacional da história do EUA”, juntamente com o aumento do apoio aos veteranos de guerra. “Eles serviram-nos e agora é tempo de nós os servirmos a eles”. O Congresso levantou-se para aplaudir. A parte Republicana do Congresso, pelo menos.

Os tópicos “segurança” e “terrorismo” vem por arrasto. No combate contra o chamado Estado Islâmico — “uma rede de selvagens sem lei que massacraram muçulmanos e cristãos e homens, mulheres e crianças de todas as fés e crenças –, Trump estende a mão aos muçulmanos moderados. Quer juntar esforços e acabar com os mais ativos promotores de atos terrorismos. E o tópico da barreira à imigraçao volta a ressurgir: “Não podemos permitir que se forme uma testa-de-ferro do terrorismo dentro da América. Não podemos permitir que a nossa nação se torne um santuário de extremistas”.

Alianças históricas são para cumprir

Donald Trump também dedicou algum tempo à Diplomacia. O Presidente dos EUA vai “honrar as alianças históricas” e manifestou um apoio claro à Aliança do Tratado Atlântico-Norte (NATO), depois de, durante a campanha mas também já como presidente, ter manifestado reserves quantos à viabilidade de uma organização que considera desatualizada.

As palavras recentes de Angela Merkel podem ter descansado Donald Trump. Ainda na semana passada, a chanceler alemã deu garantias ao vice-presidente dos EUA, Mike Pence, de que estava disposta a aumentar a fatia orçamental que Berlim atribui aos gastos com militares. Um reforço que será feito “a seu tempo”.

As juras de amor à aliança surgem de mão dada com a promessa de que os EUA estão dispostos a “encontrar novos amigos e a forjar novas parcerias com as quais os seus interesses estejam alinhados”. Referências que estão a ser interpretadas como uma aproximação à Rússia, pelo menos no combate aos radicais que combatem em nome do Estado Islâmico. “O meu papel não é representar o mundo, o meu papel é representar os Estados Unidos da América”, concretizou.