Treze organizações, incluindo a Amnistia Internacional, instaram, esta sexta-feira, o Conselho de Direitos Humanos da ONU a criar uma comissão para investigar os abusos cometidos pelo exército da Birmânia contra a minoria muçulmana rohingya no oeste do país. Aproximadamente mil pessoas foram mortas e cerca de 97 mil deslocadas no norte do estado Rakhine devido à ofensiva lançada pelo exército após o ataque armado de 9 de outubro contra três postos fronteiriços atribuídos a membros da minoria muçulmana.

Pelo menos 73.000 rohingya fugiram para o Bangladesh na sequência da operação durante a qual os militares cometeram todo o tipo de abusos contra a população civil, incluindo assassínios e violações, de acordo com inúmeras organizações não-governamentais.

“O estabelecimento de uma comissão com mandato da ONU ou de um mecanismo idêntico é o requisito mínimo para garantir que é feita justiça”, afirmaram as 13 organizações numa carta endereçada aos representantes do Conselho, que tem sede em Genebra. “Também pode contribuir significativamente para evitar que se cometam mais atrocidades contra os rohingya e outras minorias em situação de risco”, refere a missiva, assinada, entre outras, pela Amnistia Internacional e pela Human Rights Watch (HRW).

Na carta, as organizações manifestam ainda o seu apoio à relatora especial da ONU para os direitos humanos na Birmânia, Yanghee Lee, que exigiu, esta semana, “medidas urgentes”, depois de uma visita a acampamentos de refugiados no vizinho Bangladesh.cA relatora especial, que irá apresentar um relatório da sua visita ao Conselho em 13 de março, afirmou que a magnitude da violência que essas famílias têm experienciado é muito mais generalizada do que suspeitavam inicialmente.

O subdiretor da HRW para a Ásia, Phil Robertson, também mostrou o seu apoio à relatora da ONU e denunciou a passividade demonstrada até ao momento pela comunidade internacional. “Já chega, é hora de agir”, afirmou, em comunicado, defendendo que a ONU e os Estados-membros devem levantar-se contra os atos brutalidade que o exército e a polícia da Birmânia têm infligido à população rohingya, minoria muçulmana apátrida considerada uma das mais perseguidas do planeta pelas Nações Unidas.

Atualmente, mais de um milhão de rohingya vivem no estado de Rakhine, no oeste do país, onde sofrem uma crescente discriminação desde o surto de violência sectária em 2012 que causou pelo menos 162 mortes e deixou cerca 120 mil confinados a 67 acampamentos. No início de fevereiro, a própria ONU questionou a credibilidade da investigação realizada por uma comissão governamental birmanesa à violência contra aquela minoria, denunciando que as ações das forças de segurança são passíveis de se considerar “limpeza étnica”.