Talvez já todos nós, portugueses, tenhamos tido este debate com alguém. O articulista acredita que sim, ou lá perto, e por isso dá-se ao desplante de começar a peça falando da própria mãe. Porque, no caso, foi com ela que discutiu a magna questão: o fado, afinal, é melhor quando é cantado por homens ou por mulheres? É a voz de um país, a voz de uma alma colectiva, mas que voz, ao certo? De acordo com a progenitora do cronista, a resposta apresenta-se clara e evidente: o fado é fêmea. Os homens podem cantá-lo e tal, sim senhor, mas é sempre melhor na voz das mulheres. Aquelas que ficaram quando eles se embarcaram daqui para o longe. As que esperaram e desesperaram. Que tocaram a vida para a frente. As que sabem realmente da saudade e da solidão e da noite e da dor e do mistério de que fala o fado.

Bom, o filho, como nunca arranjou argumento melhor, não voltou à discussão. “Mas” – disse, retirando-se de cena, aceitando a derrota, meio melindrado porém, atirando por cima do ombro – “há o Camané”. Como quem diz: isto não é assim tão simples, a excepção confirma a regra, vou vencido e não convencido, ele há coisas do caraças – enfim, vá-se lá perceber os meandros de almas colectivas com séculos de história.

Camané é tão do fado que é como se não fosse uma personalidade própria, mas apenas um meio ao serviço de um género musical. Isto é, como se não fosse um intérprete, mas um instrumento: não o Camané, mas um camané. As mulheres têm a voz e a alma para cantar o fado; nós, homens, precisamos dum camané. Quando nos queremos exprimir na língua do fado, tem de ser através dele. O som do camané traduz a dor, o som do camané traduz o desamor, o som do camané traduz as noites de insónia, a traição, o erro, o arrependimento, a amargura, as noites de conversa e fumo, as camas vazias, a busca incessante, essas coisas que acontecem em toda a parte, mas que nele são sempre em Lisboa, uma Lisboa feita capital mundial dos melancólicos (e não há – procurem. Não há – quem cante a palavra “Lisboa” como Camané. “Lisboa”, na voz de Camané, quebra sempre a meio e solta-se. Serpenteia. Vai por ali afora. Dobra uma esquina e desaparece na rua seguinte. Começa junto a nós, o “Lis” passa-nos mesmo ali juntinho à pele, e termina já ao longe. Na segunda sílaba, já se tornou livre.) Quando estamos na fossa e nos perguntam como nos sentimos, dizemos: eu não sei explicar, mas ouve o meu camané.

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A convite do teatro municipal São Luiz, o fadista começou ontem, nessa cidade que nomeia como ninguém, uma série de quatro espectáculos com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Numa noite absurdamente quente para início de Março, termómetros perto dos 20 graus, os turistas de T-shirt e calções descendo o Chiado e estranhando, porventura, a multidão de escuro amontoada à porta do São Luiz, Camané, ainda a cappella, lembrou-nos depressa que isto ainda não é a primavera: “Se canto, não me dói tanto / O coração magoado / mas há em tudo o que canto / este silêncio pesado”. Depois, entrou a orquestra. Dirigida pelo maestro Cesário Costa, com direcção musical e arranjos de Filipe Raposo, acentua a dor, o ciúme, o contorno das figuras de cada poema. Torna mais cinematográficas as histórias. Está lá para as engradecer, não para as transformar.

Camané, que será sempre tímido e introspectivo, mas que já consegue ir abrindo os olhos de vez em quando durante os concertos, brincar com um engano, encarar o público e até deambular pelo proscénio, percorre temas de mais de 20 anos de carreira: “Lume”, “Chega-se a este Ponto”, “Ela Tinha uma Amiga”, “Fado Sagitário”, “ Tentei Fugir da Mancha”, os magníficos “Porque me Olhas Assim”, escrito por Fausto, e “Quem à Janela”, por Amélia Muge, que é talvez o resultado mais feliz deste casamento com a Metropolitana. Mas sai várias vezes do fado, e com cada vez mais à-vontade. Acompanhado de Daniel Schwertz no piano e Pedro Santos no acordeão, vai ao tango cantar “El Dia que me Quieres”, de Gardel, e “La Última Curda”. E à MPB vai buscar a “Inútil Paisagem” de Jobim. E volta a arriscar-se no castelhano para cantar “Tuyo”, de “Narcos” – ou, nos termos despretensiosos com que se lhe refere, “uma música que ouvi numa série sobre o Escobar de que gostei muito“.

E em todas essas digressões reforça-nos a ideia: ele é um instrumento que produz um determinado som e um determinado efeito. Não é como Mariza, que é uma fadista estupenda que também pode cantar Skunk Anansie como uma grande cantora pop. Não. Camané é sempre Camané, soa sempre a Camané e isso funciona extraordinariamente sempre que a canção peça um som de Camané. “Aqui ficava bem um violino”, “aqui ficava bem um trompete”, “aqui ficava bem um camané”. Ao serviço do tango, ao serviço da bossa, ao serviço do blues, como já provara em “Conceição”, com Rui Veloso, ou até da pop, nos Humanos: se for para falar de coisas sérias, em tom menor, sempre que for Inverno e ainda não Primavera, Camané.

Volta duas vezes ao palco. O São Luiz inteiro aplaude, sem esforço, de pé. Já não há mais repertório preparado. Já passou por “Abandono”, “Triste Sorte”, “A Minha Rua”, “Saudades Trago Comigo”. Tentou despedir-se com o belíssimo “Havemos de nos ver Outra Vez”, mas o público continua a chamar. Tem de repetir, mas não se repete: a voz dele nunca passa duas vezes exactamente pelo mesmo sítio; “Lisboa”, depois de dobrar a esquina, pisa sempre outras pedras da calçada. Canta de novo “Sei de um Rio”, com o coro Ricercare atrás, e volta a arrepiar. Está muita gente em palco. Muita gente. Mas toda por trás daquele solista discreto, mensageiro dos nossos invernos interiores.

Tem razão a mãe do cronista e ele não discute. Não discute Ana Moura. Não discute Gisela João. Não discute Hermínia. Não discute Amália (era o que faltava). O fado é das mulheres.

Mas há o Camané.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).