Desde que foi detido a 14 de Agosto de 1994, no Sudão — adormeceu numa clínica de Cartum para uma operação de emergência aos testículos, acordou numa prisão em França –, Ilich Ramírez Sánchez já foi julgado duas vezes. Sempre com o mesmo resultado: em dezembro de 1997 foi considerado culpado e condenado a prisão perpétua pelo homicídio de dois elementos dos serviços secretos franceses e um informador libanês; em dezembro de 2011 idem, com a mesma pena, por ataques à bomba que mataram 11 pessoas e feriram mais de 100 em França entre 1982 e 1983.

Agora, o terrorista venezuelano que o pai, um advogado milionário, batizou em homenagem a Lenine, e que a imprensa internacional celebrizou como ‘O Chacal’, como no policial de Frederick Forsyth, vai ser mais uma vez julgado. Aos 67 anos, Ilich Ramírez Sánchez, a quem são atribuídas mais de 80 mortes, regressa esta segunda-feira a tribunal para responder por um ataque com uma granada numa loja da cadeia Drugstore Publicis, no Quartier Latin, em Paris, a 15 de setembro de 1974.

Duas pessoas morreram e 34 ficaram feridas no atentado de há 43 anos. Georges Holleaux, advogado que representa, entre outras, as viúvas das duas vítimas mortais, mostrou-se satisfeito: “Finalmente um julgamento! As vítimas esperam há tanto tempo que Carlos seja declarado culpado e condenado, estas feridas nunca mais fecharão”.

Já Isabelle Coutant-Peyre, advogada de defesa de Carlos, considerou uma aberração esta nova ida a tribunal: “Que interesse há em fazer este julgamento tantos anos depois do sucedido? É algo extravagante”. No limite, no final do julgamento, que deverá prolongar-se ao longo de três semanas, Ilich Ramírez Sánchez poderá ser sentenciado a mais uma pena de prisão perpétua.

Carlos, conhecido como ‘O Chacal’, praticamente inventou um estilo de terrorismo na segunda metade do século XX. São-lhe apontados vários crimes, entre os quais o envolvimento na preparação do assassinato do Xá da Pérsia em Junho de 1970. Ilich Sánchez acabaria capturado em 1994. (Foto: Keystone/Getty Images)

Expulso em 1970 da universidade Patrice Lumumba, em Moscovo, onde não concluiu o curso mas aderiu à Frente Popular para a Libertação da Palestina, Ilich Ramírez Sánchez terá atuado como terrorista a soldo de vários grupos marxistas durante as décadas seguintes. Em 1973, terá recebido a incumbência de assassinar o judeu inglês Joseph Sieff, presidente da multinacional Marks and Spencer, mas falhou. Um dos seus atos mais infames foi o ataque, a 21 de dezembro de 1975, à sede da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), em Viena, e o sequestro de 63 pessoas — incluindo 11 ministros então lá reunidos. Três pessoas morreram.