Os sul-coreanos elegem esta terça-feira, dia 9 de maio, o seu próximo presidente. Nas prioridades dos eleitores estão uma reforma económica, uma guerra à corrupção e só depois uma abordagem às relações com o Norte. Para muitos eleitores, estabelecer uma estratégia de relações com Pyongyang não é uma prioridade, porque escolhem agora um(a) sucessor(a) para Park Geun-hye que, em março, foi vítima de destituição do cargo pelo Supremo Tribunal por acusações de corrupção.

A queda de Park deixou marcas na política sul-coreana. Apesar de ter sido, em tempos, apelidada de “princesa do povo”, pela altura que o Supremo Tribunal a retirou do cargo, a sua taxa de aprovação desceu para dígitos singulares o que obrigou o seu partido (Saenuri) a mudar de nome para se distanciar do caso. O partido, agora chamado Partido da Libertação da Coreia, concorre com o governador da província de Gyeongsang do Sul, Hong Jun-pyo.

Quem mais beneficiou com o escândalo foi o líder do Partido Democrático, Moon Jae-in. Muitos eleitores veem-no como um candidato “limpo” e carregam-no nas sondagens à frente de todos os adversários. As últimas sondagens do Embrain atribuem-lhe 40,6% das intenções de voto, uma grande margem quando comparado com Hong Jun-pyo (19,6%).

Moon Jae-in já tem alguma experiência na política sul-coreana. Líder da oposição em tempos, perdeu as últimas eleições para Park e veja-se que isso lhe garantiu as intenções de voto. Trabalhou como advogado de direitos humanos e serviu o governo de Cho Ung-chun.

A sua campanha para estas presidenciais tem como projeto principal uma injeção de 10 triliões de won (cerca de 8 mil milhões de euros) para estimular a criação de emprego, startups, e pequenas e médias empresas. Moon prometeu transparência na sua presidência, aproveitando-se do escândalo de Park, e pretende mudar a residência oficial do presidente para um complexo governamental na baixa de Seoul (a capital). Num debate televisivo, Moon disse opor-se ao conceito de homossexualidade, em resposta ao candidato conservador Hong Jun-pyo, que acredita que “os soldados gays enfraquecem o exército”. As declaração de Moon provocaram reações exaltadas da oposição e de ativistas dos direitos homossexuais, tendo em conta que Moon é o principal candidato liberal e um ex-advogado de direitos humanos. Mais tarde, o candidato esclareceu que continua a ser contra discriminação com base em orientação sexual.

Segue-se nas intenções de voto Hong Jun-pyo, que veio ocupar o lugar de Park no Partido de Libertação da Coreia. Hong já culpou por várias vezes a comunidade homossexual pela existência de HIV/SIDA na Coreia do Sul e insistiu num reforço das Forças Armadas – uma notória tomada de posição face às crescentes tensões entre a Coreia do Norte e os países da região.

Num claro jogo de ping-pong com Hong Jun-pyo está Ahn Cheol-soo: ambos os candidatos andam muito próximos nas sondagens e ultrapassaram-se um ao outro nos últimos meses. Ahn considera-se “o Barnie Sanders coreano” e concentra a sua atenção na Segurança Social ao mesmo tempo que promete cautela nos negócios estrangeiros. É considerado pelos eleitores conservadores uma boa aposta – em alternativa a Hong – em parte pela sua experiência em negócios. Foi dos primeiros a opor-se ao sistema THAAD americano, mas acabou por sugerir que seria “irresponsável” um futuro presidente anular acordos já feitos com Washington. Opõe-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas não descarta que possa ser atingido “através da discussão social”.

Os outros dois candidatos, Sim Sang-jung e Yoo Seong-min, do partido da Justiça e do partido Bareun respetivamente, não atingiriam os 10% nem com uma coligação, um cenário quase impossível.

É que a candidata Sim Sam-jung aposta em medidas económicas como o fim da sucessão hereditária e um cheque de cerca de 7,900 euros para todos os jovens que atingem os vinte anos – de forma a reduzir a desigualdade económica. A nível de relações internacionais, opõe-se à instalação do sistema THAAD e quer ver as armas nucleares erradicadas na península coreana. É a única candidata a apoiar abertamente a consagração dos direitos LGBT. Já Yoo Seong-min apela ao extremo conservadorismo no que toca aos negócios estrangeiros e quer uma reforma económica e social a nível social. Quanto à questão norte-coreana, evita fazer compromissos até ser eleito.

Corrupção, emprego, ou segurança?

De acordo com um estudo da RealMeter, 27,5% dos eleitores dão prioridade a temas como a corrupção e esperam que um futuro presidente tenha a capacidade e “intenção de resolver problemas profundos de corrupção”. Outros 24,5% querem “recuperar a qualidade de vida e a economia individual”. No que diz respeito à proteção da segurança nacional – e face às constantes ameaças do regime norte-coreano – é a questão mais relevante para 18,5% dos eleitores.

Apesar de os dados oficiais, que antecipam uma recuperação da economia em 2017, muitos eleitores têm dúvidas quanto ao alívio dos esforços financeiros. De acordo com a agência oficial de informação Yonhap, o índice de sofrimento – calculado com base no desemprego e na taxa de inflação – atingiu máximos de cinco anos.

Apesar das questões fraturantes, existe uma clara divisão geracional das intenções de voto. Os eleitores mais jovens têm em mente questões como a abertura do mercado de emprego e a criação de programas de integração de recém-licenciados. Já as gerações mais velhas desviam a intenção de voto para candidatos que prometem soluções para a questão norte-coreana.