O líder histórico timorense Xanana Gusmão disse esta segunda-feira que a participação democrática não se mede pela quantidade de partidos no Parlamento considerando que os consensos dos últimos cinco anos deram a Timor-Leste mais estabilidade e confiança.

Em entrevista à Lusa em Pequim, em jeito de balanço sobre o último período de governação – e quando já se pensa nas legislativas de 22 de julho -, Xanana Gusmão disse que entre 2012 e 2017 Timor-Leste começou a ver “estabilidade” e “maior confiança por parte da população”.

Foi possível, disse, encontrar “um processo de maior consenso do povo sobre uma visão, um programa para o futuro”, essencial num país onde as estratégias têm que ser definidas a mais longo prazo, não apenas para a duração dos mandatos governativos.

Um país desenvolvido, de cinco em cinco anos, ou de quatro em quatro anos, tem programas específicos, segundo as necessidades para aquele período. Nós não. Ainda é um processo muito longo. Fazemos as alianças necessárias, no ensaio”, disse à Lusa em Pequim.

O líder timorense recordou as dificuldades do arranque da independência do país onde se vivia com “impreparação política”, a “inexperiência da governação” e a “fraqueza das instituições do Estado”, com uma luta de 24 anos em que os timorenses não puderam preparar-se para “depois da vitória tomar conta das rédeas do país.

O país viveu o seu momento mais complicado em 2006 quando quase se chegou à guerra civil, deixando dezenas de milhares de deslocados internos e graves problemas políticos e de segurança, que obrigaram ao regresso de forças de segurança internacionais.

Em 2007 a Fretilin (Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente), “o partido vencedor, não conseguiu alianças, porque outros partidos não cederam”, pelo que o CNRT (Conselho Nacional de Resistência Timorense) de Xanana Gusmão, “como segundo partido na ocasião”, conseguiu uma aliança para ter maioria parlamentar e assumir o Governo.

Hoje, tenho a certeza que cada partido já tem um princípio muito sagrado. Cada partido tem o seu próprio interesse, mas acima do interesse de um partido ou dos interesses de todos os partidos, está o interesse nacional, em várias perspetivas, perspetivas de segurança, sociais”, afirmou.

Sobre os próximos cinco anos Xanana Gusmão diz que “o povo é quem escolhe” e que os líderes estarão prontos “para o resultado das eleições”. Ainda assim disse que, em muitos aspetos, há ainda algumas posições “imaturas” sobre o que é a “participação democrática”.

“Como não temos nada ainda maduro, tudo é imaturo, está-se a maturar a ideia de que a participação democrática se mede pela quantidade de partidos, hoje temos 35. Se cada um mandasse um representante, o parlamento teria os partidos todos representados. Leva tempo, mas o resultado é que dirá”, considerou.

Instado a avaliar o mandato do Presidente Taur Matan Ruak, que termina à meia-noite de 19 de maio, Xanana Gusmão disse que “como ministro” só faz avaliação aos seus subordinados” não estando “num papel ideal para fazer avaliações a órgãos de soberania”.

“Os órgãos de soberania têm um programa concreto de encontros semanais. Eles é que se conhecem, eles é que falam sobre problemas. Eu estou um bocado desligado do dia-a-dia dos assuntos no país”, considerou. “Estou virado para as negociações das fronteiras marítimas. Portanto, os assuntos da terra, ficam eles lá a ver. Eu tomo conta do mar”, ironizou.

Além de manter encontros com as autoridades chinesas, Xanana Gusmão recebeu durante a sua visita à China um doutoramento ‘Honoris Causa’ pela Universidade de Hunan, no centro do país. Participou ainda numa cerimónia na capital chinesa que assinalou os 15 anos de relações diplomáticas entre Timor-Leste e a China.