Era mais do que evidente que abdicar de uma churrascada com os melhores amigos num terraço para escrever esta crónica era mau negócio. Mas trabalho é trabalho, aqui não há jogos para cumprir calendário. O que não quer dizer que não se escreva que este Boavista-Benfica foi, sobretudo, um jogo para cumprir calendário. E que qualquer pessoa que tenha assistido à primeira parte do jogo facilmente o trocaria por uma churrascada com os melhores amigos num terraço. Quer um aperitivo para a conversa? Os 45′ iniciais tiveram uma oportunidade. Para o Boavista. Que deu golo. E mais nada. Na segunda metade, tudo mudou. E houve de tudo, até ao empate 2-2 com um golo de outro miúdo, neste caso o estreante Kalaica, em cima do minuto 90. Afinal até valeu a pena.

Mas havendo mais ou menos futebol, houve sempre Iuri Medeiros. É impossível alguém gostar de futebol e não olhar com particular atenção para este canhoto emprestado pelo Sporting ao Boavista. Nos golos, nas assistências ou em simples pormenores como aquele que originou o golo de Renato Santos no início da jogada, o internacional Sub-21 tem magia nos pés. E nunca se coíbe de espalhar esses pozinhos pelo campo. Por alguma razão, quando era miúdo e trocou o Faial pela Academia de Alcochete com 12/13 anitos lhe chamavam o Messi açoriano.

A notícia de que havia cachecóis do Benfica em caixotes do lixo acabou por causar nas redes sociais mais comentários do que o jogo em si. Expliquemos o que se passou: cumprindo aquilo que já tinha anunciado antes, os elementos que estavam nas portas de acesso à bancada reservada aos sócios do Boavista impediram a entrada de qualquer adereço dos encarnados e parte dessa “coleta” que foi feita acabou em caixotes do lixo. Rui Vitória preparava-se para lançar Pedro Pereira, Kalaica e Hermes num onze totalmente diferente do que iniciou o encontro com o V. Guimarães, mas ninguém ligou muito a isso.

Ficha de jogo

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Boavista-Benfica, 2-2

34.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Bessa, no Porto

Árbitro: Nuno Almeida (AF Algarve)

Boavista: Vagner; Tiago Mesquita, Philipe Sampaio, Lucas, Talocha (Edu Machado, 69′); Idris, Anderson Carvalho; Fábio Espinho, Iuri Medeiros (Bukia, 90+2′), Renato Santos e Schembri (Aidi, 83′)

Treinador: Miguel Leal

Suplentes não utilizados: Mickael Meira, Idé Gomes, Makhmudov e Rochinha

Benfica: Júlio César (Paulo Lopes, 78′); Pedro Pereira, Lisandro López, Kalaica, Eliseu; Samaris, Filipe Augusto (Raúl Jiménez, 64′), Zivkovic, Hermes (Rafa, 46′), André Horta e Mitroglou

Treinador: Rui Vitória

Suplentes não utilizados: André Almeida, Lindelöf, Salvio e Jonas

Golos: Renato Santos (16′), Schembri (52′), Mitroglou (71′) e Kalaica (90′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Mitroglou (32′), Filipe Augusto (44′), Idris (74′), Lisandro López (79′), Samaris (86′) e Anderson Carvalho (90+3′)

O início do jogo deu razão. A revolução de Rui Vitória colocou o Benfica num tabuleiro sem rei, rainha, torres ou bispos. E só com peões torna-se complicado, muito complicado de ganhar frente a um conjunto axadrezado com um treinador fiel ao nome: foi Leal. O projeto futebolístico do Boavista não deixou de ter aquela parte muito típica do bota-abaixo, que é como quem diz fazer faltas e faltinhas até juntar e reorganizar o bloco defensivo. Mas, com este técnico, ganhou ideias na frente. Quase todas assentes do suspeito do costume, Iuri Medeiros.

O passe de Iuri Medeiros para Fábio Espinho no lance do primeiro golo, a olhar para um lado e a enviar a bola para outro, foi apenas um dos muitos pormenores que o esquerdino foi deixando durante o encontro. Numa jogada, já depois do primeiro golo apontado por Renato Santos aos 16’, picou a bola por cima de Eliseu e foi buscar pelo outro lado com uma pinta que todos gostavam de ter mas só alguns conseguem. De resto, o jogo foi triste, às vezes um bocado chato até. Menos quando a bola chegava aos pés do açoriano.

Na segunda parte, Rui Vitória tirou Hermes (que não jogou na sua posição de lateral mas sim à frente de Eliseu), lançou Rafa e o Benfica melhorou. Não foi uma diferença assustadora, mas serviu para agitar um bocado as coisas durante uns cinco minutos. Ou até a bola cair de novo nos pés de Iuri Medeiros em zona adiantada. O que aconteceu? Perigo, claro. E golo: o esquerdino viu bem a diagonal de Schembri e o maltês rematou cruzado sem hipóteses para o 2-0 (52’).

Nos dois primeiros remates enquadrados com a baliza encarnada, o Boavista marcou. E o Benfica não mostrava capacidade de resposta, até quando Raúl Jiménez se juntou a Mitroglou no eixo do ataque, recuando André Horta para ‘8’. Ainda assim, Rafa ia conseguindo agitar as coisas. E parecia querer dar cada vez mais velocidade ao jogo, à mesma proporção da velocidade que já começava a faltar ao fatigado Iuri Medeiros. Foi num desses lances, a ir para o corredor central, que assistiu Mitroglou na área para o 2-1 que relançou o jogo, aos 71’.

O Benfica insistiu, insistiu e chegou mesmo ao empate em cima do minuto 90, por intermédio do central Kalaica, que subiu mais alto ao primeiro poste e, de cabeça, carimbou a estreia pela principal equipa do Benfica com um golo. Estava feito o 2-2. O primeiro golo do Benfica na Primeira Liga tinha sido apontado por um central, Lisandro López. Os dois mais importantes na caminhada foram apontados por centrais, Lisandro López (no Dragão) e Lindelöf (em Alvalade). O último foi apontado por um central, Kalaica. Parecia que estava escrito qual seria a melhor forma de terminar um histórico tetracampeonato. Porque essa, afinal, era e é a questão central de tudo.

Por isso, Kalaica, jovem central croata de 18 anos contratado pelo Benfica no último Verão que fez hoje a estreia pela principal equipa, acabou por roubar o protagonismo a Iuri Medeiros. Quem sabe se, no próximo ano, não voltam a marcar duelo. Um fazendo parceria com Gelson Martins nas alas do Sporting. Outro em dupla com Luisão no lugar do cobiçado Lindelöf. Para quem gosta de futebol, não seria nada mau. E haveria mais uma boa razão para voltar a adiar essa churrascada com os melhores amigos num terraço.