A Uber vai começar a prever o que os utilizadores estão dispostos a pagar por cada viagem e a definir o custo final com base nessa informação, avança a Bloomberg. O novo sistema de preços é “baseado em rotas” e num sistema de machine learning — tecnologia que permite a um software aprender com os dados de forma inteligente –, e já está a ser testado há alguns meses em 14 cidades norte-americanas.

A novidade surge na sequência das polémicas relacionadas com a situação profissional dos motoristas que trabalham com a plataforma — baixos salários e contratos precários — e que já levaram a várias manifestações do setor nos EUA. Recentemente, os motoristas têm-se queixado de a discrepância entre aquilo que consideram ser o preço justo para uma viagem e o que estão a receber estar a ficar cada vez maior.

Em Portugal, a situação dos motoristas é idêntica, com alguns profissionais a queixarem-se de não conseguirem tirar, sequer, o equivalente ao valor do ordenado mínimo nacional (557 euros), apesar de trabalharem entre 12 a 16 horas por dia, seis dias por semana, a recibos verdes, de acordo com uma reportagem do Observador publicada em janeiro.

Confrontada com este novo modelo de preços, fonte oficial da Uber em Portugal disse ao Observador que os preços praticados pela tecnológica são baseados “na escolha dos utilizadores de forma a servir o maior número de pessoas e com tarifa ao alcance de todos”. “Os utilizadores saberão semrpe quanto vão pagar antes de pedirem uma viagem e os motoristas vão receber os valores das viagens que fazem com a aplicação da Uber, com total transparência”, acrescentou.

Excesso de horas, precariedade, baixos salários. A vida dos motoristas da Uber

A novidade surge depois de a tecnológica ter começado a apresentar o preço final da viagem aos utilizadores, ainda antes de este confirmar o serviço. Objetivo: adotar uma política mais transparente de preços. Se, até aqui, a Uber calculava o preço da viagem tendo por base o tempo, a distância e o número de carros disponíveis nas redondezas, agora esse preço vai ser calculado tendo por base a estimativa gerada pelo sistema de inteligência artificial.

Com esta mudança, vai ser possível que a empresa consiga cobrar preços diferentes consoante o sítio onde a pessoa habitualmente pede o serviço e tendo em conta a altura do dia em que o faz. Ou seja, os utilizadores que estejam numa das zonas mais caras da cidade e queiram deslocar-se para outra igualmente cara podem ter de pagar mais do que aqueles que tenham por destino zonas onde o rendimento médio é mais baixo.

Daniel Graf, responsável pelo desenvolvimento do produto da Uber, explicou que há uma equipa de economistas e especialistas em estatísticas dedicada ao desenvolvimento desta tecnologia nos escritórios de São Francisco, e que este tipo de engenharia financeira vai tornar-se numa vantagem competitiva para a empresa que, apesar das avaliações recorde — a Uber é o unicórnio (empresa que vale mais de mil milhões de dólares) mais valioso da história: 68 mil milhões de dólares — continua a apresentar prejuízos na ordem dos 3 mil milhões de dólares.

Com prejuízos gigantes, a Uber vai conseguir sobreviver a “dar borlas”?

Apesar de a medida surgir para acalmar os ânimos entre motoristas, que vão receber um contrato com o novo sistema em casa, na base da motivação da tecnológica está a busca pela sustentabilidade financeira. Em março foi divulgado um vídeo em que se via o líder Travis Kalanick a discutir com um dos motoristas depois de este se queixar do baixo salário que recebia.

CEO da Uber envolve-se em discussão com motorista da empresa

O ano de 2017 começou mal para Travis Kalanick depois de a ex-engenheira informática Susan J. Fowler ter revelado no seu blogue pessoal ter sido alvo de assédio sexual e discriminação de género dentro dos escritório da empresa. As revelações levaram o líder da tecnológica contratar o ex-procurador-geral norte-americano Eric Holder para conduzir uma investigação independente ao que se passou com Susan. Foi aberta a porta para mais uma série de queixas de ex-colaboradores da tecnológica, que revelaram ter vivido numa cultura organizacional que, além de sexista e discriminatória, é “desenfreada” e “obsessiva”.

A Uber não está cotada em bolsa, mas têm surgido alguns números sobre a atividade financeira da empresa. Em 2016, a acumulação de prejuízos, que terão ascendido a 3 mil milhões de dólares, acima dos 2,2 mil milhões de dólares do ano anterior (2015). Só com o dinheiro que a Uber perdeu no ano passado (a diferença entre as receitas e os custos) a empresa conseguiria, em teoria, comprar o Millennium BCP e, com o troco e mais qualquer coisa, talvez comprar os CTT – Correios de Portugal.

“Queremos ter um negócio sustentável”, disse Daniel Graf à Bloomberg, acrescentando que se a empresa detetar que a medida está a levar a um desequilíbrio, vai introduzir níveis que permitam à empresa encontrar novamente o equilíbrio.

*Artigo atualizado às 22h42 com reação da Uber Portugal