Chegados ao Cairo, o centro de imprensa onde eram feitas as acreditações para a Taça das Nações Africanas de 2006 estava para lá de cheio. Porque eram muitos órgãos e, sobretudo, muitas pessoas. Muitas mesmo. Passados dez minutos, estávamos exatamente no mesmo local. Nem um passinho para a frente, nem que fosse aquele passinho maroto para esticar a perna e projetar o pescoço em sinal de impaciência para tentar acelerar o ritmo. Nada. E logo ali à frente estavam pelo menos uns 50 enviados de um canal da Costa do Marfim, entre jornalistas, câmaras e técnicos, tudo vestido a rigor (que é como quem diz, de laranja). “Está bonito”, pensámos.

E a fila era apenas um dos muitos obstáculos até chegarmos ao retângulo mágico que nos daria entrada nos jogos da competição. Sozinho no Egito, de computador ao ombro, passaporte e um email imprimido sem qualquer resposta da organização, o cenário não era espetacular. “Cada vez mais bonito”, pensamos. De repente, abrem-se mais filas para acreditação. E quase por milagre, por estarmos sozinhos provavelmente, surge um balcão onde chamam por nós. Faltava o resto do milagre. “O seu nome não está nos nossos registos”, dizem. “Não está? Mas enviei um email, tenho aqui”, respondemos. “Mas não está mesmo”, prosseguem. Estava a chegar o momento de impasse. E se nos dissessem para desviar para o lado enquanto falavam com outros jornalistas, aí é que nunca mais, ficaríamos ali muito tempo. A contar com a confusão para lá chegar, o jogo inaugural era uma miragem.

“Posso colocar aqui ao telefone o Abdel Ghany? É que falámos com ele antes da viagem, se calhar ele pode ajudar”, atiramos. Olhando para o senhor do balcão, percebemos que a frase começou e acabou quando dissemos o nome de Abdel Ghany. “Mas conhece o senhor Ghany?”, perguntam, trocado o ‘g’ pelo som de um ‘r’ bem carregado. “Sim. E já está aqui em linha”. Foi acreditação, foi pastas, foi papéis com informação, foi saída acompanhada de sorriso nos lábios. “Obrigado Abdel Ghany!”.

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Quem é Abdel Ghany, pergunta agora o leitor. Abdel Ghany foi um antigo avançado, que fez grande parte da carreira no Al-Ahly e passou quatro anos em Portugal, ao serviço do Beira-Mar. Não era um prodígio, mas era bom jogador. Hoje, com a mesma barba farta mas uns quilinhos a mais, é comentador televisivo, entre outras atividades, e uma autêntica sumidade no Egito. Só mesmo presenciando se consegue perceber o nível de idolatração ao ex-jogador. Com Ali Daei, no Irão, é o mesmo.

Cristiano Ronaldo apontou o 74.º golo pela Seleção Nacional frente à Rússia, por sinal o momento que decidiu o encontro. Assim, está a um de Bashar Abdullah (Kuwait), Kunishige Kamamoto (Japão) e Sándor Kocsis (Hungria). É muito provável que ultrapasse Pelé, que marcou 77 golos pelo Brasil. E é previsível que chegue a Puskas, segundo melhor de sempre a nível de seleções (84, entre Hungria e Espanha). Impossível parece mesmo é chegar a Ali Daei, o gigante de 1,92 metros que conseguiu fazer 109 golos em 149 jogos pelo Irão entre 1993 e 2006.

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De 2006 para cá, Ali Daei tem saltado de equipa em equipa como treinador. Começou no Saipa, esteve na seleção do Irão, foi para o Persepolis, passou pelo Rah Ahan, voltou ao Persepolis, assinou pelo Saba Qom, mudou para o Naft Tehran, regressou ao Saipa. Mas foi como jogador que deu, e muito, nas vistas, sobretudo a partir de 1997, quando deu o salto para a Europa via Alemanha, onde esteve durante cinco anos.

Nascido em Ardabil, começou a jogar na equipa local, o Esteghlal, mas nunca deixou os estudos, tirando o bacherelato de Engenharia Metalúrgica da Universidade Tecnológica de Sharif, em Teerão. Foi evoluindo entre clubes de maiores ambições, como o Taxirani, o Bank Tejarat, o Persepolis e o Al-Sadd. Pelo meio, teve a oportunidade de ir para o Japão, onde a J-League começava a destacar-se e oferecia ordenados muito convidativos, mas ficou a cumprir serviço militar.

Após dar nas vistas na Taça da Ásia de 1996, foi contratado pelo Arminia Bielefeld, assinou pelo Bayern em 1998/99 e jogou depois três anos no Hertha Berlim. Ali Daei foi o primeiro iraniano de sempre a jogar e marcar na Champions, num período onde ficou também conhecido como o gentleman, pelo comportamento dentro e fora de campo. Devido aos compromissos da seleção iraniana e por não estar a jogar tanto, voltou ao Irão em 2002, tendo jogado ainda mais cinco anos até terminar, no Saipa.

Mesmo no período final, o avançado nunca deixou de marcar golos. Era eficaz, não precisava de muitas oportunidades para faturar. Marcou cinco golos numa vitória por 7-0 frente ao Sri Lanka na qualificação para a Taça da Ásia de 1996, além dos pokers contra Nepal, Coreia do Sul, Guam e Laos e os hat-tricks com Uzbequistão, Maldivas e Líbano. México, Japão, Equador, Ucrânia e Paraguai foram outras das “vítimas”.

Com uma autobiografia em preparação e construção há dez anos (algo assumido pelo próprio), Ali Daei é também conhecido por ter uma reputada marca de roupa, a Daei’s Sports Wears & Equipments, que veste uma série de equipas nacionais e locais do Irão em diferentes modalidades. Em 2012, teve um grave acidente de viação que fez parar o país, mas recuperou sem sequelas.