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Imagens de satélite distribuídas pela NASA nos últimos dias ajudam a perceber o que pode ter corrido mal no fogo de Mação, que também afetou os concelhos da Sertã e de Proença-à-Nova.

O fogo começou no domingo, dia 23, no concelho da Sertã e a primeira imagem do sistema LANCE Rapid Response MODIS, datada da manhã de segunda-feira, dia 24, pelas 10h30, mostra uma estreita faixa queimada com a cabeça do fogo a progredir de noroeste para sudeste. A forma do fogo tem a aparência de um charuto e uma dimensão importante, mas não catastrófica. Trata-se, de acordo com os especialistas contactados pelo Observador, de uma configuração muito habitual sempre que existe um vento forte dominante. Nessa mesma fotografia é também bem visível a enorme “cicatriz” dos fogos de Pedrógão Grande e Gois.

A segunda imagem é de terça-feira, dia 25, também das 10h30, e já nos mostra um fogo completamente descontrolado, com uma frente estimada de pelo menos 20 quilómetros e a avançar em direção a Mação.

O que se passou nestas 24 horas? Um analista de fogos florestais que analisou estas imagens e as cruzou com o registo da direção dos ventos não têm dúvidas: o vento rodou de noroeste para nordeste e o flanco oeste do “charuto” original tornou-se na nova enorme frente do incêndio. A pluma do fumo indica que o vento, na altura em que a imagem foi feita, dia 25 de manhã, soprava de nordeste para sudoeste.

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Ao que o Observador apurou, o comando operacional no terreno tinha concentrado o combate ao fogo na sua cabeça, tendo sido apanhado de surpresa pela mudança do sentido do vento. Acontece porém que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) faz previsões sobre a direção dos ventos, às quais até se pode aceder consultando a aplicação para telemóveis daquele organismo público, tal como sucede com outras aplicações sobre o estado do tempo.

“O que devia ter sido feito na segunda-feira era controlar o fogo nos flancos do incêndio, em vez de enviar os meios aéreos para despejar água sobre a cabeça do fogo, onde esse tipo de ação pouco efeito tem”, disse ao Observador um especialista na prevenção de fogos florestais com grande experiência e que esteve no terreno aquando dos incêndios de 2003.

É possível que seja a este tipo de opção, que desviou de Mação meios de combate ao fogo, que suscitou o protesto dos autarcas daquele concelho. O próprio presidente da Câmara, Vasco Estrela, afirmou que, depois da tragédia, “alguém vai ter que explicar o posicionamento dos meios”.

A terceira imagem, captada na quarta-feira, dia 26, também pelas 10h30, mostra já uma enorme área negra, ardida, sendo bem visíveis as chamas que ainda então lavravam. Recorde-se que pouco tempo antes, no briefing da Proteção Civil, se afirmara que a situação estava “mais tranquila, mais estabilizada”.

A quarta e última imagem disponível até este momento, é desta quinta-feira, dia 27, e mostra a dimensão do fogo numa altura em que este já era dado como praticamente controlado. É ainda visível um foco a lavrar já no concelho de Gavião, na margem sul do Tejo.

Um pouco mais para leste podemos ver o fogo que começou em Vila Velha de Ródão e saltou o Tejo na zona das Portas do Ródão. Neste caso ainda se vê bem a mancha do fogo assim como a pluma do fumo.

Estes incêndios percorreram boa parte da área afetada pelos grandes incêndios de 2003, o ano com o pior registo no que respeita a área ardida. Na altura o fogo percorreu contudo o caminho inverso, indo de sul para norte empurrado por ventos extremamente quentes e secos, próprios da vaga de calor que então se viveu. Desta vez não houve vaga de calor nem ventos de sul, mas mesmo assim ardeu uma enorme área de floresta.