O rosto não é familiar. Podia ser um camponês de Trás-os-Montes ou do Alentejo, podia ser um asilado há décadas, podia ser um funcionário anónimo de uma fábrica qualquer. Era certamente um homem. E isso era tudo o que ele queria que soubéssemos: que ele não era um pássaro, uma ideia, um conceito, era um homem cuja dignidade passava por ter o direito ao nome e à palavra. O rosto não é familiar. A poesia que já tão poucos lembram é talvez a que mais afinidades tem com a de William Carlos Williams que, por estes dias, é evocado no filme Patterson de Jim Jarmusch: o quotidiano sem ornamentos postiços mas como uma interrogação ética, o verso curto, as imagens enganadoramente simples como indícios do sagrado, que nos impelem para o enigma que cada objeto, cada gesto, cada corpo carrega. Poemas Quotidianos de António Reis não é apenas o grande acontecimento poético-literário do ano é também (para quem o quiser ouvir) uma cratera que se abre e expõe, sem cerimónia, a fraqueza e a gratuitidade da poesia que por estes dias se escreve e se publica sem cessar.

Poemas Quotidianos, António Reis, Tinta da China. Com prefácio de Fernando J.B Martinho e posfácio de Joaquim Sapinho

António Reis, mais conhecido como cineasta, autor com Margarida Cordeiro de filmes fundamentais do novo cinema português como Jaime (1973), Trás-os-Montes, Ana ou Rosa de Areia, chegou a ser, nos anos 70 e 80, o nosso realizador com mais protagonismo internacional a par com Manoel de Oliveira. Os poemas com palavras escreveu-os até final dos anos 50 e deixou-os em dois livros: Poemas Quotidianos (1957) e Novos Poemas Quotidianos (1960). Depois, passou a escrever com imagens, uma poesia de igual ou maior fulgor mas com a mesma estranheza, o mesmo peso, a mesma lentidão, a mesma decomposição da luz e dos tempos, sobretudo, a mesma urgência em se bater pelo direito do homem, de todos os homens a existirem com esperança e dignidade.

Morreu há 16 anos. Os seus poemas não eram reeditados há 50 anos (a última edição aconteceu em 1967 na coleção Poetas De Hoje da editora Portugalia) e os seus filmes há muito que não saem dos arquivos da Cinemateca. Poemas Quotidianos, acabado de publicar na coleção de poesia da Tinta da China, faz-nos ouvir de novo a voz de António Reis a exigir: “quero que me oiçam”. E ouvi-lo, lê-lo é a melhor coisa que aconteceu em muito tempo na Poesia Portuguesa.

António Reis nasceu em Valadares, Vila Nova de Gaia em 1927 e morreu em Lisboa, em 1991, em consequência de uma pneumonia

Há, em torno dele, muitos mistérios, muita gente que não quer falar, desde a filha Ana Reis, a colaboradores. Há a presença silenciosa e espectral da inacessível Margarida Cordeiro sua segunda mulher e co-autora dos seus filmes, que há quase duas décadas se isolou numa aldeia de Trás-os -Montes. Na sua vida, no seu cinema, como na sua poesia tudo é enganadoramente simples e tudo está sempre na iminência de escapar ao que julgávamos saber.

Sobretudo poeta.
Como esse pequeno homem de boné, imagem de um operário anónimo na rua da cidade que não era sua, na mão o saco das compras com os mantimentos apenas necessários, a cara chupada, mas os olhos, olhos brilhantes alimentados de todas as meteorologias, pois, como esse ‘fora de jogo’, levantava o mundo para ser visto, para nosso conhecimento.” [Jorge Listopad, 1991]

Um poeta vertical

Naqueles anos de ditadura e neo-realismo o jovem António Reis, de origens humildes, nascido em Valadares (Vila Nova de Gaia), que andou no mar com os vareiros da Aforada, que trabalhou nos escritórios da Vista Alegre, que surgiu como poeta na revista de poesia Notícias do Bloqueio (1957 e 1961) tinha poucas semelhanças com a poesia combativa e ideologicamente marcada da segunda geração de poetas neo-realistas dos anos 50. Está lá um olhar crítico sobro o mundo, sobre a ditadura, sobre a miséria mas de forma muito mais subtil e muito mais complexa. O “povo” representado por Reis não é coletivo. É individual, interior, ambíguo, obscuro. Os ângulos da sua visão poética são excêntricos, como mais tarde foram os planos no cinema que criou. Por isso, aquilo que nele se chama “Real” é, por natureza, incompreensível na sua totalidade e, certamente, nunca redutível às formas estéticas que as ideologias políticas do tempo impunham. A crueldade do mundo mostra-se não apenas nos gestos de um dia-a-dia de miséria e vergonha, mas também na crueldade de tudo o que escapa aos nossos olhos, à nossa sabedoria. Reis trabalhava com imagens e tempos heterogéneos, com reminiscências e memórias, impressões fugidias que não podiam, nem poder, servir como mero cabide para os fantasmas de uma época.

Andávamos com os “Poemas quotidianos” no bolso, partilhávamo-los avaramente, nos cafés e nas longas noites solitárias da adolescência, como um fogo comum, um sinal que nos identificava uns aos outros como membros da mesma tribo errante; éramos todos jovens, ou julgávamos que éramos, e acreditávamos, naqueles tempos controversos, que nos havia sido dado o dom de, pela poesia, compreender e mudar o mundo e a vida. António Reis não o sabia, mas todas as palavras que então possuíamos eram as suas. “[Manuel António Pina sobre António Reis, Maio de 1992]

Os homens da poesia de António Reis não são ignaros da sua condição, não precisam de um bardo que, de cima, lhes revele a verdade sobre a sua vida. Pelo contrario, como o próprio poeta, eles são donos de uma sabedoria sedimentada de muitas experiências de angústia, melancolia, alegrias breves, de segredos. São portadores de uma sabedoria milenar que lhes agudiza a consciência do presente e do futuro, logo do sofrimento. Como escreve o filósofo Giorgio Colli, sobre as origens da sabedoria: o conhecimento é sempre, antes de tudo, o conhecimento da dor. Essa é a grande vingança dos Deuses, aquele que vê, aquele que sabe, é aquele que mais sofre.

António Reis com a escritora francesa Marguerite Duras

António Reis escolhe falar através do quotidiano, não porque este transporte uma maior verdade, mas porque esse quotidiano é apenas aparência, ilusão, em última instância é o caminho para o mundo que se esconde, não menos cruel, não menos desumano, mas onde brilha qualquer coisa de sagrado. Não há nesta poesia beatitude, purificação, não há utopias, nem luta de classes. A única redenção possível é ganhar o direito a ter um nome, logo uma dignidade. Neste sentido, esta lírica não pode estar mais longe daquilo que hoje escrevem os chamados “poetas do quotidiano”, do alto das suas vidas confortáveis e das suas muitas certezas mas de onde não brota qualquer empatia com as vidas comuns, anónimas mas apenas a sua objetificação como material de construção de imagens poéticas movidas a intensidades postiças.

Não nos deixemos pois cair na armadilha simplificadora da palavra “quotidiano”. A poesia de Reis é tudo menos simples e uma leitura superficial pode prestar-se a muitos enganos. Na verdade, toda a obra deste autor, seja a poesia, seja o cinema, é profundamente enigmática. Cada verso abre para múltiplas significações, cada gesto banal descrito é apenas o início de um espanto que nos vai conduzir a terríveis indagações, a imagens prenhes de novas imagens, que tão depressa se abrem ante os nossos olhos como se subtraem deixando-nos apenas a certeza de que é preciso ficar muito tempo naquele labirinto para aceder aos pequenos milagres que nele se escondem. Cada poema é um fragmento cuja força íntima nos deixa obrigatoriamente despidos de referencialidades fáceis.

Mudamos esta noite

E como tu
eu penso no fogão a lenha
e nos colchões

onde levar as plantas

e como disfarçar os móveis velhos

Mudamos esta noite
e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam

e que os filhos dormem sempre
nos quartos onde nascem

Vai descendo tu

Eu só quero ouvir os meus passos
nas salas vazias.”

Animais como retratos de príncipes

Provavelmente a melhor forma de compreender como a poesia de António Reis extravasa esta dimensão “quotidiana” é vendo o seu cinema. Também aí a sua obra se constrói como algo absolutamente ímpar no cinema Português. Tal como a sua poesia estava nas margens do Neorealismo, a sua cinematografia tem o mesmo projeto ético de devolver a dignidade ao homem. Jaime (1974) o seu primeiro filme, (depois de ter colaborado com Manoel de Oliveira em Auto da Primavera (1962) e com Paulo Rocha em Mudar de Vida, 1966) representa a mesma luta pela dignificação do homem nas suas circunstâncias mais extremas sem deixar de ser uma crítica velada à ditadura a vida desse homem, Jaime Fernandes, encarcerado no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda durante mais de três décadas, onde começa a desenhar criando uma obra plástica singular de criaturas entre o animal e o humano, atravessadas por ecos de um tempo imemorial e gritos dos seu terrível presente. Não muito diferente da poesia, onde Reis também trabalhou sempre mais dentro das imagens que dentro das palavras, para estilhaçar o tempo cronológico e com isso falar de experiências que simultaneamente nos precedem, nos afetam e permanecem muito além da nossa passagem pelo mundo. As imagens são a memória, a duração, os homens e as suas circunstâncias individuais são efémeros, frágeis.

A media-metragem Jaime conta-nos a história deste doente esquizofrénico através dos desenhos e cartas que ele deixou, mas também através das paredes circulares do hospício, evocando a teoria da vigilância panóptica desenvolvida por Michel Foucault. Estamos submetidos a uma vigilância total que acaba por ser internalizada pelos indivíduos que passam a ser os primeiros vigilantes de si mesmos e dos seus pares. Eis como opera um estado vigilante, seja em ditadura seja em democracia: criando fronteiras entre a loucura e normalidade, definindo o que fica na sombra e o que deve ser visto. Afinal também António Reis acabou por ser ele próprio, como poeta e como cineasta colocado num “ângulo morto” do meio literário e cultural português.

Jaime, proibido pela censura, acabou por se estrear pouco dias depois da Revolução, em conjunto com o Couraçado de Potemkin de Sergei Eisenstein, fez uma fulgurante carreira internacional, arrebatou vários prémios mas era ainda e sempre António Reis a devolver ao homem a sua memória, o seu mistério, a impor o seu olhar absolutamente indiferente às modas e aos códigos vigentes. O filme, com música de Louis Armstrong, Stockhausen, Teleman, cria uma harmonia que esconde para melhor dar a ver o terrível drama da vida deste homem sem nunca cair na romantização da loucura, uma imagem obscenamente gasta por artistas sem talento. Sobre ele declarou João César Monteiro: “Um dos mais belos filmes da história do cinema, uma etapa decisiva na história do cinema moderno”.

A Margarida Cordeiro descobriu no hospital os desenhos do Jaime, e o António explicou aos sócios o que queria fazer, com aquele calor humano que só ele tinha. As pessoas ficaram apaixonadas pelo projeto, e como eu era presidente do centro aproveitei para pedinchar a ajuda de todos. Uns deram restos de película, o Acácio trouxe a equipa de imagem e o material, o filme foi nascendo numa atmosfera extraordinária de camaradagem. O resultado causou uma emoção considerável, e o António ganhou com ele na Alemanha o primeiro dos três grandes prémios internacionais que os seus filmes viriam a obter.” [ Paulo Rocha, cineasta, 1991]

É certo que António Reis tinha um feitio difícil, uma provocativa indiferença por tudo o que o rodeava e isso não lhe granjeou facilidades no mundo do cinema, onde o dinheiro é curto e os subsídios escassos. “Vivia no interior dos seus filmes e dos seus poemas, numa espécie de autismo obstinado”, escreveu Eduardo Prado Coelho, que foi desde o início um entusiasta da poesia de Reis, num incomum consenso com João Gaspar Simões, detentor do lugar de principal crítico literário do sistema, lugar que, de resto, Prado Coelho viria mais tarde a assumir ele próprio.

António Reis e Margarida Cordeiro, anos 70

Outro dos combates de António Reis foi pelo direito de Margarida Cordeiro, co-realizadora dos seus filmes, a ter o seu nome associado às obras. Durante anos a imprensa falava dos filmes como se fossem feitos apenas por António Reis e omitia o nome de Margarida o que o deixava furioso e o levou a apresentar queixas contra os jornais em várias instâncias. Como podemos ver agora que a sua obra poética voltou a ver a luz do dia, o ato de nomear e a importância do nome como afirmação de uma individualidade e de uma dignidade são algo que já vem de trás. Ele sabe que dar nome às coisas é fazê-las existir, omitir o nome de alguém é uma violência terrível que os sistemas burocráticos souberam usar na perfeição. é que, não obstante esta tentativa de apagar Margarida, o poeta não decidia um só plano dos filmes sem a ouvir. “Trabalhei com eles depois de ter sido aluno do António na Escola Superior de Cinema. Eles eram delicados e ouviam-me, mas tudo já estava decidido pelos dois, formavam uma dupla quase impenetrável”, conta ao Observador o cineasta e discípulo de António Reis, Manuel Mozos.

Tenho nome

nome

Tem nome um tecido
um objecto

o vento

Oh murmúrio
de lábios juntos

no tempo que me esconde.”

Mozos lembra-se como António Reis era “intransigente” e, ao mesmo tempo, muito sensível, “terrivelmente sensível” às injustiças. “Era um homem capaz de uma frontalidade que nos deixava aturdidos. Um dia fomos ver o filme/trabalho final de um colega do último ano. O filme estava quase pronto. Quando acabámos a visualização o António disse ao rapaz que dali só se aproveitavam quatro planos. O rapaz alegou que em quatro planos não conseguia contar a história. António respondeu que contar histórias não era importante. Era assim, esmagador. Mas depois também se ria muito e chorava com enorme facilidade.”

Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés

caindo sobre as estátuas
e a nostalgia

chega a ser morna

com fumo e álcool
na garganta

Até os homens
passarem junto aos vidros

Reais Molhados

Sem emoções instruídas
Pensando em remédios
e prestações

grisalhos
sem serem velhos

e falando sós
sem serem loucos”

Em 1976, já em parceria com Margarida Cordeiro, realiza “Trás-os- Montes”, um filme onde a memória surge novamente como eixo central mas onde ele faz intervir a imaginação, as lendas, os mitos, onde as vozes dos homens e a voz da natureza se unificam, onde, tal como nos seus poemas, o mundo chega menos através da visão e mais do tato, do gosto, da intuição, da intimidade averbal dos corpos. Em tempos de revolução, o filme não era bem o que o povo queria ver e a estreia em Portugal não correu bem. Já a sua estreia internacional pôs de novo a crítica aos pés de António Reis e Margarida Cordeiro. De Portugal chegava afinal o mais excitante cinema europeu, com a marca dos filmes e das ideias de Robert Bresson e feito com uma extraordinária economia de meios, sem atores profissionais, com um estética que nunca é separável da ética. Um objeto artístico complexo, senão mesmo perigoso, para quem gosta de ter os tempos e homens arrumados em categorias prontas a usar.

António Reis e Jean-Marie Straub, no Festival de Londres, na década de 80.

António Reis e o cineasta francês Jean-Marie Straub, no Festival de Londres, na década de 80.

Se um dia se meteu no comboio e foi a França bater à porta do filósofo Gaston Bachelard, e o encontrou a descascar batatas porque estava a fazer o jantar para a filha, António Reis começou a corresponder-se com a mesma naturalidade com a filósofa e escritora búlgara Julia Kristeva, conheceu Marguerite Duras, viajou, ganhou prémios importantes sempre sob a maior indiferença do meio cultural e político português. Em 1982 realiza Ana e em 1989 Rosa de Areia. Quando morreu tinha como projeto fazer um filme a partir da obra do escritor mexicano Juan Rulfo, Pedro Páramo.

Íntimo, subtil, discreto, nunca fez nada para se impor como poeta nem como cineasta. Para ele a poesia e o cinema nada tinham de privilégio, eram aquele mínimo que lhe permitia ter esperança e dignidade. William Carlos Williams, um poeta onde encontramos muitas semelhanças com Reis, dizia que a poesia “era um equipamento de sobrevivência para a vida física e psíquica”. É esta função simples da poesia que encontramos em Patterson, o poeta condutor de autocarros de Jarmusch.

Tal como fez Carlos Williams com vários autores da Beat Generation, também Reis, na sua encarnação como poeta, foi um divulgador de jovens poetas, entre eles Manuel António Pina, que deixa aqui, o testemunho desses dias. Também Manuel Mozos lembra as aulas de António Reis:

“Eram momentos fascinantes, não só pela sua aura de cineasta de culto, mas também por tudo o que ele fazia confluir para ali: literatura, poesia, artes plásticas, música, banda desenhada do Crasy Cat, os álbuns de imagens da Leni Riefenstahl (…) Falava muito do Rimbaud, do Baudelaire, Allan Poe, poesia e pintura japonesas, mas raramente falava dos seus contemporâneos. Ele era uma esponja, conhecia tudo, estava atento a tudo. Por vezes, depois da aula acabada, íamos com ele para o jardim do Príncipe Real e ficávamos horas a conversar ou apenas a ouvi-lo. Ele marcou profundamente muita gente. Em primeiro lugar Pedro Costa, que é provavelmente, o cineasta cuja obra tem uma filiação profunda no cinema de Reis, mas também João Pedro Rodrigues, Vítor Gonçalves e eu próprio. Mesmo o João César Monteiro, em ‘Veredas’, mostra uma grande proximidade com o cinema de António Reis”.

Margarida e as outras mulheres misteriosas do poeta

“Sei que choras
muitas vezes
sozinha

e que lavas
o rosto

(ah onde
ando eu)

Para a tua dor
não ser minha”

Quando escreveu a sua poesia António Reis ainda não conhecia Margarida Cordeiro. Sabe-se vagamente que teve um casamento, talvez uma filha, nada confirmado. Manuel Mozos diz apenas: “Havia um grande mistério em torno disso”. Terá conhecido Margarida Cordeiro, psiquiatra, a trabalhar no hospital Conde Ferreira, no Porto, no final dos anos 60 ou início de 70. Ela, muito mais nova conta a história numa entrevista dada a Alexandra Lucas Coelho, em 2009: que “se conheceram num concerto no Palácio de Cristal”, que “não gostou dele” e que algum tempo depois o poeta lhe “enviou o livro de Rilke, Cartas a um Jovem Poeta, e um cartão a perguntar ‘está mais bem disposta?'”. O irmão avisou-a que “ele era um homem casado”. Mas por ele Margarida será expulsa “à bofetada” de casa pelos pais com quem cortou relações durante 15 anos até lhes nascer a filha Ana.

António e Margarida com Ana Cordeiro, mãe de Margarida e Ana Cordeiro Reis filha dos cineastas, quando da estreia do filme “Ana”

Margarida também tinha fama de ter uma personalidade difícil, de falar pouco, de ser um bicho do mato. Era muito bonita e delicada como uma bailarina de Degas. Juntos faziam um par improvável e intangível. O seu mundo conjunto dava-se a ver no cinema que criaram. “Todos os dias Margarida saía do Hospital Miguel Bombarda onde trabalhou até se reformar e vinha ter com o António para discutir os filmes, não fazíamos nada sem ela dar a sua opinião”, recorda Manuel Mozos. “Uma das suas ortodoxias era não permitirem que os filmes fossem feitos noutro suporte que não a película e que fossem vistos noutro formato que não em sala de cinema. Antes de António morrer houve uma chatice com a produtora, um corte de relações, o que faz com que os filmes não possam hoje ainda ser comercializados”, explica o cineasta.

Mas antes de conhecer Margarida, a figura feminina já era uma constante nos poemas de António Reis. Mulheres dentro de geografias íntimas, onde as mãos, os corpos deitados, a respiração, as tarefas domésticas anulam o tempo através da força, da sua presença no espaço. Elas as senhoras do labirinto, as detentoras de uma sabedoria ancestral, o que elas calam é inverificável e serve ao poeta para nos dizer dos mistérios e assombros da condição humana.

Margarida e António, final dos anos 80. Foto: Cortesia de Luís Alvarães

As figuras femininas e os objetos domésticos dos poemas de Reis só têm paralelo noutro poeta da imagem, Bela Tarr, em especial no filme “Cavalo de Turim”, onde, tal como em Reis, o ambiente fechado, quase concentracionário, a repetição, o hábito, até a erosão da rotina, das dúvidas, da falta de dinheiro, dos desencontros servem para ele traçar o seu quadro do desespero humano e, ao mesmo tempo, fazer transparecer a dimensão sagrada das ligações, dos objetos, da casa. “Só as casas explicam que exista/uma palavra como intimidade”, escreveu Ruy Belo. Mas Reis não enuncia a partir de uma compreensão exterior, demonstra a partir de uma sensação interior:

Sei
ao chegar a casa
qual de nós
voltou primeiro do emprego

Tu
se o ar é fresco

eu
se deixo de respirar
subitamente”

Morreu, em 1991, em consequência de uma gripe que se agravou para pneumonia, “em parte pelas habituais recusas do poeta em consultar um médico, mas também talvez pelo desanimo em que ele estava por não conseguir subsídios para filmar”, diz Manuel Mozos. Quando morreu era tão ignorado pelo meio cultural e político português como é hoje. Os prémios e reconhecimento vieram (quase) todos de fora de Portugal e de alguns amigos eletivos. Não houve uma figura de Estado a comparecer no seu funeral. Tão importante como os filmes e a poesia de Reis são para conhecer a literatura, a poesia da segunda metade do século XX português é compreender que meio cultural, editorial e académico é este cujas regras, disciplinas e “vontade de não saber” permitiram que este poeta ficasse apagado durante 50 anos.