Foi a primeira mulher a liderar um governo democraticamente eleito num país de maioria muçulmana. Benazir Bhutto, uma paquistanesa educada em Harvard e Oxford, onde chegou a ser presidente da associação de estudantes, foi assassinada há quase dez anos, em dezembro de 2007, mas ainda não se sabe quem a matou. Teorias, contudo não faltam.

Bhutto foi primeira-ministra de 1988 a 1990 e de novo de 1993 a 1997, pelo Partido Popular do Paquistão, que liderou desde o início dos anos 80 até à sua violenta morte. Na manhã de 27 de dezembro, depois de um encontro com o então presidente do Paquistão, Bhutto discursou num comício do seu partido. No regresso, através das ruas onde uma multidão a aplaudia, decidiu abrir a capota do carro blindado para saudar os apoiantes. A poucos metros do carro, um homem disparou três tiros contra ela, fazendo-se explodir logo a seguir, matando 24 pessoas.

Um tribunal especializado no julgamento de crimes de terrorismo declarou, esta quinta-feira, Pervez Musharra, ex-chefe militar paquistanês e ex-Presidente do país, como fugitivo à justiça por não ter comparecido em tribunal. A mesma instituição ilibou cinco membros da milícia taliban acusados de estarem envolvidos no assassinato enquanto dois polícias foram condenados por negligência no tratamento da cena do crime. São as únicas duas pessoas condenadas, até agora, neste caso, escreve a agência de notícias France Presse.

Os vereditos desta quinta são os primeiros desde que Bhutto foi assassinada e os culpados de terem orquestrado o seu assassinado não estão mais próximos de enfrentar a justiça. Sem culpados, restam as teorias da conspiração.

A teoria do governo paquistanês

O governo de Musharraf culpou o ex-chefe dos taliban Baitullah Mehsud pelo assassianto de Bezanir Bhutto. Ele negou e, em 2009, morreu num ataque com drones executado pelos Estados Unidos. Bhutto, dedicada secularista, era uma forte oponente do fundamentalismo islâmico e tinha prometido lutar contra o domínio taliban em algumas zonas do país. Tinha sido ameaçada várias vezes pela Al-Qaeda, por várias tribos Taliban e grupos jihadistas e também por alguns membros mais conservadores do aparelho político paquistanês. Mas as investigações focaram-se nos “soldados rasos” e não nos anéis mais altos de uma hierarquia organizada, necessária à organização de um ataque deste tipo. Em 2013, o Paquistão acusou formalmente Musharraf de ter arquitetado o assassinato de Bhutto. Em 2016, o ex-chefe militar fugiu do país.

A teoria das Nações Unidas

Depois da morte de Bhutto, o seu partido pediu às Nações Unidas que enviasse para o país uma equipa de investigadores para ajudarem as autoridades a investigar o assassinato. Os três especialistas produziram um relatório de 70 páginas, publicado em 2010, também encontrou — mais ou menos — o mesmo culpado: a administração de Musharraf, que a ONU considerou negligente na proteção de Bhutto.

No relatório ficam ainda explícitas as críticas à polícia paquistanesa, que “não preservou a integridade do local do crime”. Menos de duas horas depois do ataque, Khurram Shahzad, polícia, limpou a rua com uma mangueira. Shahzad foi um dos condenados desta quinta-feira. O segundo polícia condenado, Saud Aziz, recusou por mais do que uma vez que se realizasse uma autópsia ao corpo de Bhutto.

Mas tanta negligência, escreveu a ONU, não pode ser apenas culpa da incompetência de alguns agentes da polícia. Para a equipa de investigadores esta aparente falta de cuidados foi uma ordem que veio de dentro do sistema político. O relatório não aponta nomes e remete para a justiça paquistanesa a responsabilidade de apurar culpados com base nas pistas deixadas pela ONU.

Conspirações várias

O PPP de Bhutto foi eleito para o governo já depois da sua morte. À frente do país, como presidente, ficou o seu viúvo Asif Ali Zardari que mesmo assim não conseguiu dar nenhum avanço significativo às investigações. Começaram a germinar as teorias da conspiração. Em 2013 o mais próximo conselheiro de Zardari foi assassinado em Karachi.

Esse homem era Bilal Sheikh, que tinha estado ao comando dos serviços de proteção a Benazir Bhutto por altura do regresso dela a Karachi — depois de se ter exilado em Londres sob suspeita de corrupção — em outubro de 2007, quando o carro onde Bhutto seguia foi atacado. As suspeitas recaíam então sobre o marido, muito próximo de Sheikh, mas o diplomata chileno que liderou as investigações da ONU, Heraldo Munoz, considerou “ridículo” que ele tenha estado envolvido.

Munoz considerou que a Al-Qaeda era o grupo que mais desejava a sua morte mas que tinham sido os taliban a executar o ataque — com a ajuda dos serviços de informações descontentes com a liderança liberal a governante paquistanesa representava. Outras teorias apontam como culpado o guarda-costas de Bhutto, Khalid Shahensha. Há vídeos que mostram Shahensha, no dia do último discurso de Bhutto, a fazer movimentos estranhos que parecem sinais para alguém.