Título: “Para além da crença”
Autor: V. S. Naipaul
Editora: Quetzal


Quando lemos Diderot ou Voltaire, quando estudamos a tomada da Bastilha ao som da Marselhesa e conhecemos as opiniões de Condorcet, o progresso aparece-nos como uma marcha irrefreável e avassaladora, que libertará o glorioso futuro do Homem. Esburgado aquilo que represa a ilustração e o triunfo da razão universal, esclarecidas as mentes dominadas pelo obscurantismo, o Homem tem desbravado o seu caminho em direcção a uma sociedade cada vez melhor e mais justa. Os filósofos, note-se, escrevem com os olhos no futuro: no seu tempo, dizem, a marcha é trôpega e difícil porque há forças interessadas em manter os Homens na ignorância, de tal forma que são capazes de agir em prejuízo próprio.

Os Revolucionários de 1789, crentes na sua vitória, acreditam ter expulsado as tais forças que impediam o Homem de ascender a um grau superior de felicidade e conhecimento e ter aberto a caixa de Pandora: a partir daí, nada impediria os Homens de chegarem à Verdade.

Ora, estes Homens ainda escrevem com os olhos no futuro; o Homem livre que se afastará do erro é ainda uma simples possibilidade; no entanto, uma das questões que mais deveria inquietar os progressistas das gerações seguintes é muitas vezes torneada com elegância de toureiro. Como é que, já sem que o mofo dos catecismos os sufoquem, já livres do peso da coroa, já desobrigados dos vínculos a patrões exploradores, há ainda Homens que regressam ao mal? Não falamos apenas dos camponeses da Vendeia, que poderiam ter ainda a mente obnubilada pela influência clerical; não falamos apenas do obscurantismo que se mantém, mesmo com os seus inseminadores já guilhotinados; a pergunta principal é como é que o obscurantismo regressa. Como é que mentes livres de aceitarem o que quiserem, sem juízos opressores que as inquinem para doutrinas que as lesam, escolhem o erro, preferem o cárcere à via livre do progresso?

A ideia de um retorno envenenaria, teoricamente, toda a doutrina do progresso; se o Homem, livre das suas amarras, já esclarecido sobre os destinos dos vários caminhos ou com condições para ver claramente os seus resultados, escolhe a via que o prejudica, como se pode ter fé no progresso da Humanidade ou certeza no bem de uma hipótese. Não se trata da velha questão da antropologia pessimista contra a antropologia optimista: a maldade do Homem, na teoria de Hobbes, é uma maldade que o Homem é capaz de fazer ao outro em benefício próprio, não uma maldade que o Homem deseja fazer a si próprio. Seria, no máximo, uma questão da velha antropologia do pecado original contra todas as antropologias modernas, que a tomam precisamente por opressora. Como é que o Homem livre pode querer não o ser? Como é que, para choque dos comentadores de hoje, há Homens que podem exercer o seu direito de voto e o usam para afirmar que preferiam não o ter, como é que crescem todos os dias novos freios a liberdades duramente conquistadas, como é que o Homem que está numa boa situação é atraído por uma que o prejudica?

A solução habitual dos pensadores tem sido a de reafirmar a prisão. Esta, não tão simples quanto julgariam os filósofos da enciclopédia, tem uma influência parda que condiciona os Homens sem que eles o saibam na direcção errada. Não basta erradicar a monarquia, é preciso erradicar as classes; não basta, depois, erradicar as classes: há até na linguagem uma tendência reaccionária que molda o pensamento numa direcção prejudicial ao Homem. As forças que aprisionam o Homem são descritas como tão fugidias e discretas que é sempre possível justificar o retrocesso numa lógica de providencialismo laico – não sabemos quais serão, mas haverá com certeza forças ainda veladas que agrilhoam o Homem e o puxam de volta para o obscurantismo.

O caso islâmico é talvez dos mais impressionantes e significativos. Como é que sociedades relativamente livres, quase ocidentalizadas, retrocedem para um estado quase bárbaro, impensável há alguns anos. Como é que, mesmo em países não árabes, em que o peso cultural não é tão forte, há uma conversão a uma lei tão dura e que tão pouco evoluída nos parece?

É este o pressuposto discreto e a pergunta que motiva Para Além da Crença, de V. S. Naipaul. O escritor, no seu tom ameno, temperado, viajou pelos países muçulmanos não árabes à procura de histórias significativas. O gosto genuíno pelos hábitos e por formas de pensar pouco habituais matiza a pergunta essencial, torna os episódios mais humanos e menos ideológicos. Conseguimos perceber os pontos de vista de quem é entrevistado por Naipaul, só numa ou outra ideia é que sentimos uma minúscula condescendência ou antipatia da parte do narrador. A pergunta fundamental, no entanto, provém do mesmo espanto de qualquer progressista: o que é que levou à transformação de sociedades ditas avançadas, ou pelo menos em avanço, em sociedades retrógradas e quase fanatizadas? Terá sido a eloquência de alguns mestres hábeis em raciocínios capciosos, o investimento de uns poucos numa larga rede de escolas com fortíssima propaganda islâmica, a inocência de uns pobres diabos?

A discrição de Naipaul, que deixa falar os intervenientes, torna a pergunta mais interessante do que o costume: não exibe uma parada de tolos e aldrabões, de incautos e mal-intencionados num conluio dos tristes; a sua teia de relações leva-o de conselheiros de Estado a professores insignificantes e de Homens de negócio a pobres, numa paleta variada de formas de olhar para o islão, de compromisso religioso e político, mergulha nas divergências doutrinais, ouve a situação e a resistência, os agentes e as cabeças.

Ora, aquilo que torna o livro interessante do ponto de vista sociológico – Naipaul funciona mais como repórter do que como escritor, não tem necessidade de passar as histórias pelo crivo das suas opiniões – é provavelmente o que mais o prejudica em matéria de literatura. Naipaul começa logo por dizer que o seu foco neste livro de viagem está em encontrar boas histórias. Explica o seu renovado interesse na literatura de viagens porquanto esta se aproxima daquilo que sempre entendeu como a função primordial da literatura – a de contar histórias. As histórias de vida que Naipaul conta são, de facto, interessantes. O facto de se centrar nelas, porém, dá a este enorme livro uma espécie de falta de objectividade que acaba por ser prejudicial. A literatura não pode ser tomada como se fosse um diamante em bruto pela simples razão de não o ser: o simples facto de um autor ter passado as suas histórias para o papel já é sinal de que elas foram filtradas. Todos percebemos o prazer de vaguear, o prazer de encontrar surpresas inesperadas e até a pouca importância de encontrar na errância despreocupada uns sítios mais inóspitos. A reportagem, no entanto, deve filtrar, pela simples razão de que quem a lê não está a vaguear; estar no jardim zoológico não é o mesmo que estar na selva, a adrenalina não existe da mesma forma. Ora, alguns episódios de Naipaul não parecem dar ambiente, parecem apenas o resultado do caminho de um Homem perdido. Naipaul está concentrado nas histórias e por isso não precisa de ter objectividade; uma boa história, porém, é mais vezes boa pelo que diz do que pelo que acontece. Naipaul diz coisas interessantes, mas está mais interessado no que acontece. E isso, parece-nos, só prejudica a sua literatura.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.