É o primeiro grande desafio de Emmanuel Macron. Depois de vencer as eleições de maio, o presidente francês enfrenta hoje a primeira grande demonstração de descontentamento da população. Estão marcadas mais de 4.000 greves, transversais aos transportes públicos, setor energético e circulação aérea, bem como 180 protestos espalhados por Paris, Marselha, Lyon e Nantes. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) anunciou ainda uma marcha pela capital durante a tarde.

Os trabalhadores franceses protestam contra a mais recente reforma laboral que tem como objetivo estimular a contratação e dar mais independência às empresas. As novas medidas facilitam os despedimentos coletivos, incentivam os trabalhadores a resolver os problemas com a própria empresa e a não recorrer aos sindicatos e flexibilizam horários e salários. Um modelo destes retira força e poder a organizações como a CGT, que vêem as empresas ficar com o controlo total dos seus empregados. A “revolução copérnica”, como lhe chama Macron, tem como principal premissa acabar com a elevadíssima taxa de desemprego dos últimos anos.

O primeiro-ministro Edouard Phillipe está do lado de Macron nesta clara aproximação aos modelos alemão e sueco e quando anunciou o plano de reformas afirmou que “disseram o que iam fazer e os franceses votaram nisso”.

Este dia de greves e protestos chega numa altura em que a popularidade de Emmanuel Macron atingiu um mínimo nunca visto até agora. A taxa de aprovação do presidente francês desceu de 43% para 36% de julho para agosto, e agora em setembro aterrou nos 30%. O gabinete de comunicação de Macron tem sido muito criticado e cada discurso dá origem a uma polémica. A mais recente nasceu em Atenas, depois de o presidente referir que “não vai ceder a pessoas preguiçosas, cínicas ou extremistas”; os críticos da extrema-esquerda argumentaram que Macron estava a atacar os trabalhadores com um rol de afirmações antipáticas e arrogantes que já teve outros capítulos, recordando as vezes em que o presidente chamou “iletrados” aos empregados fabris e criticou “o alcoolismo e o tabagismo” no norte de França.

Philippe Martinez, o presidente da CGT, avisou que os protestos vão continuar até o governo desistir desta reforma laboral, que o sindicato considera “um grave revés social”.

Vamos lutar até ao fim para garantir que este decreto não passa”, disse Phillipe Martinez em entrevista ao Le Parisien.

As greves vão atacar em força os transportes públicos, apesar de os serviços mínimos estarem garantidos. Os hospitais, os correios e os serviços de administração pública vão parar e são esperadas perturbações nos comboios entre as cidades mais populosas de França. Os sindicatos da Air France juntaram-se à onda de greves e a companhia aérea vai estar praticamente parada esta terça-feira, afetando o tráfego aéreo internacional. As organizações sindicais do setor energético são, historicamente, as mais ativas do país e a Federação Nacional das Indústrias Químicas já disse que “nem uma gota de petróleo vai sair das refinarias”.

O ano passado, protestos contra o então presidente François Hollande tornaram-se violentos, com um grupo de trabalhadores a tentar incendiar um carro da polícia com os agentes lá dentro. Agora, Phillipe Martinez diz que está do lado do estado e das forças policiais garantir que as manifestações permanecem pacíficas. Jean-Luc Mélenchon, líder do movimento de extrema-esquerda “França Insubmissa” e candidato às eleições presidenciais de maio, está a organizar um outro protesto generalizado para 23 de setembro, ainda que vá estar presente nas manifestações de Marselha.

Com o país em estado de sítio e a grande maioria dos setores parada, Emmanuel Macron nem sequer vai estar no Eliseu. O presidente francês está na ilha franco-holandesa Saint-Martin, a avaliar os estragos do furacão Irma.