Não há “progressos concretos” nas negociações sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. Quem o diz é o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, em entrevista à edição europeia do jornal Politico, onde se mostra preocupado com a saída de cena do “mundo anglo-saxónico”. Histórica e politicamente, Portugal e Inglaterra são os mais antigos aliados do mundo, numa ligação que remonta a 1386, e Santos Silva insiste que quer manter com aquele país uma relação económica tão “densa e rica” quanto a que tem existido até agora. Mas as negociações estão relativamente paradas, admite.

Ainda que se assuma como um otimista, a médio e longo termo, no curto prazo admite que as perspetivas não são as melhores. “A atmosfera é boa, mas ainda não temos nenhum progresso concreto nas negociações”, disse àquele site noticioso em língua inglesa. O calendário é alargado: no final deste mês o Conselho Europeu vai reunir-se, em Bruxelas, para fazer o ponto da situação das negociações sobre a saída formal do país da União, sendo que só depois disso é que a discussão passa para o plano da relação — privilegiada ou não — que o Reino Unido vai passar a ter com os países da União Europeia depois de consumada a separação. Para Santos Silva, já seria bom se as conversas pudessem estar já na segunda fase quando os líderes europeus se voltarem a reunir em dezembro.

Para o ministro português dos Negócios Estrangeiros, é seguro afirmar que não haverá novos dados nem progressos até à próxima reunião do Conselho Europeu, no final deste mês de outubro. “Só um milagre”, como disse Jean-Claude Juncker, faria com que as negociações avançassem antes disso.

No topo das preocupações de Santos Silva, que é o número dois do Governo português, sobre o brexit, está a tarefa de assegurar os direitos dos cidadãos europeus que vivam no Reino Unido, assim como assegurar a cooperação em termos de defesa e segurança, sobretudo na luta concertada contra o terrorismo. Outra das grandes preocupações, explicou, é procurar manter uma relação económica com o Reino Unido “o mais próxima possível”. De acordo com dados do governo britânico, há 213 mil portugueses a viver no Reino Unido, o que faz desta a sexta maior comunidade estrangeira no país. Além disto, o Reino Unido é o quatro maior mercado exportador de Portugal, representando cerca de 7% das exportações.

“Nós [portugueses] pertencemos à Europa, mas no nosso horizonte está também África e a América Latina. Sentimo-nos bem nesta posição geopolítica, mas, para nós, a relação que temos com o Atlântico é tão importante quanto a relação que temos com o centro da Europa”, disse, referindo-se sobretudo à importância de manter relações estreitas com a União Europeia e a NATO, dada a “importância vital que o Reino Unido tem na defesa da Europa”.

Em todo o caso, Santos Silva nega que Portugal tenha um papel privilegiado na mediação das conversas sobre o brexit, e deixa críticas àquilo que diz ser falta de “unidade” no discurso do Governo britânico sobre o brexit, com várias vozes dissonantes. “O Governo em Londres não aparece como um corpo e uma voz comum no que diz respeito ao brexit”, afirma, não especificando mais nomes senão os de Boris Johnson, como tendo uma linha mais rígida, e o de Philip Hammond, como preferindo uma via mais conciliatória.

E ainda em jeito de crítica, Santos Silva recorreu mesmo ao exemplo do Governo português. “Às vezes temos discussões acesas, mas no final fazemos uma síntese e o primeiro-ministro toma uma posição que é a posição de todo o governo”, disse, sublinhando que não é isso que se está a passar com Theresa May em Inglaterra.