“Têm de ser as próprias comunidades a ser proativas e não ficarmos todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver os problemas. Temos de nos autoproteger, isso é fundamental. Mesmo que tivéssemos 50 mil homem no teatro de operações, havia localidades a que não conseguíamos chegar. Tínhamos meios aéreos que não puderam atuar em nenhum teatro de operações porque as colunas de fumo não o permitiram”, explicou à SIC Notícias Jorge Gomes, Secretário de Estado da Administração Interna, naquele que foi “o pior dia do ano a nível de incêndios” que Portugal viveu. Mas o que quer isso dizer?

“Não podemos ficar todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver o problema”

A GNR tem vindo a partilhar através da sua página de Facebook uma série de conselhos para todos aquele que sejam surpreendidos por um incêndio florestal. Que são, de forma resumida, praticamente os mesmos aplicados um pouco por todo o mundo, de Espanha (Galiza) aos Estados Unidos (Califórnia), países que também foram recentemente (ou ainda estão a ser) afetados de forma violenta por este flagelo.

Alguns exemplos (sempre partindo como primeiro e fundamental ponto o alerta das autoridades, no nosso caso através do 112): fechar janelas e portas para evitar fenómenos de sucção, encerrar as válvulas de gás, retirar outros materiais inflamáveis dentro e nos arredores da habitação, ter sempre uma luz por divisão acesa, molhar as paredes bem como toda a zona circundante e preparar tudo e todos para uma rápida evacuação.

GNR. Feche todas as janelas e portas, molhe as paredes da casa, esteja preparado para sair

Na Califórnia, onde mais de duas dezenas de fogos fizeram 31 vítimas e consumiram cerca de 80 mil hectares de área, levando ainda à evacuação de pelo menos 20 mil pessoas, acrescenta-se a colocação de escadas (caso existam) encostadas às paredes da habitação para um mais rápido acesso ao telhado por parte dos bombeiros. Em Espanha, onde esta manhã existiam ainda 67 fogos ativos e onde já faleceram quatro pessoas (em Vigo e Ourense), chama-se também a atenção para a possibilidade de colocar toalhas molhadas em todas as zonas das casas que possam ter pequenas aberturas ou fendas (por baixo das portas, nas calhas das janelas etc.). Mas genericamente, é quase igual.

Ainda assim, existe uma espécie de “zona cinzenta”, entre o pedido de ajuda e a chegada do mesmo. Esta manhã, Patrícia Gaspar, adjunta de operações nacional da Autoridade Nacional da Proteção Civil, abordou os locais onde “há tradição de defesa das suas propriedades, sobretudo na área rural” e deixou um pedido: “Que o façam apenas e enquanto estão em situações de segurança, sempre com uma linha aberta para as informações que estão a ser veiculadas pela comunicação social”. “Protejam as propriedades apenas até ao limite da capacidade considerada razoável”, resumiu. Algo que, na Califórnia e noutros estados norte-americanos, bem como na Austrália, nunca é mencionado em termos formais mas que está subentendido em Espanha, por exemplo.

Pablo Mayoral, Chefe de Serviço de Incêndios Florestais dos Bombeiros da Comunidade de Madrid, falou em junho ao El País sobre esse hiato entre o pedido de ajuda e a chegada das autoridades ao local. “Até esse momento [em que chega a ajuda], nunca se deve ir para partes altas, porque o fogo tem tendência para subir e convém perceber-se para que lado está a soprar o vento, por forma a ir na direção contrária”, explicou. “Fugir ou procurar refúgio? Não há uma regra escrita, tem de ver-se caso a caso. Em geral convém sempre refugiar-se numa casa, desde que não seja de madeira”, salientou, ao mesmo tempo que enfatizou os perigos que se correm quando se tenta agarrar na viatura para fugir: “Além da possibilidade de se poder ficar bloqueado na estrada, pode acontecer como numa enxurrada, onde alguém entra num carro para se salvar mas acaba por ser levada pela corrente”.

O que fazer e o que não fazer em caso de incêndio florestal

Em junho, no seguimento do grande incêndio de Pedrógão Grande, o presidente da Associação de Técnicos de Segurança e Proteção Civil, Ricardo Ribeiro, tinha sublinhado que “quem não está habilitado a ter uma relação de trabalho com o incêndio, como é o caso dos bombeiros, não se deve expor”, aconselhando assim as pessoas a não sair de casa. Também nessa altura, Duarte Caldeira, o presidente do Centro de Estudos de Intervenção e Proteção Civil, destacou à TSF que “em condições normais, quer em casa, quer no carro, o melhor é não passar para o exterior”, mas reconhecendo que “num incêndio há sempre uma série de imponderáveis”.

Olhando para o que defende a Associação Portuguesa de Segurança em caso de evacuação – “tenha em conta que as autoridades não recomendam que abandone a sua casa se a sua vida não correr perigo”, a regra deverá ser a de permanecer na habitação. No entanto, depois de ter havido o alerta às autoridades e enquanto existirem condições de segurança para tal (e este é o ponto fundamental para isso), nada proíbe ou condiciona as pessoas afetadas de terem uma primeira ação no terreno e de tentarem proteger as propriedades “apenas até ao limite da capacidade considerada razoável”, como referiu esta manhã Patrícia Gaspar.

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