Foram precisos quase 500 anos para descobrir um mistério criado pelo livro “Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos”, escrito por Giorgio Vasari. Na obra de 1550, Vasari escreve que o pintor Rafael começou a trabalhar em duas figuras usando óleo, ao invés da técnica de fresco que tradicionalmente usava. Dessas pinturas, além do registo do escritor, nada se sabia — até agora.

Segundo a CNN, durante trabalhos de limpeza e restauro da Sala de Constantino os especialistas repararam em algo: duas das figuras nas paredes tinham sido pintadas usando óleo enquanto a restante sala estava pintada com a técnica de fresco. Essa particularidade levantou suspeitas, confirmadas com infravermelhos e ultra-violeta: a tinta usada era mesmo óleo. E as características das figuras, considera Fabio Piacentini, não enganam — são obra de Rafael.

O restaurador explica à CNN que as pinceladas denotam confiança típica do pintor, visível na maneira como “o pincel se mexe” e na subtileza utilizada para “criar pequenos fios de cabelo”. Além disso, Rafael também é conhecido por escolhas de cor pouco usuais, que se tornaram visíveis durante os trabalhos de limpeza.

Por fim, outro sinal de que se trata de obra de um dos membros da tríade de mestres do Renascimento — os outros dois são Miguel Ângelo e Leonardo Da Vinci — é o facto de não ter sido usado um desenho preparatório para a pintura.

As figuras em questão, ambas femininas, representam a Justiça e a Amizade e foram pintadas cerca de 1519, um ano antes da morte de Rafael. O trabalho do pintor na Sala de Constantino fazia parte de um trabalho em quatro salas pedido pelo Papa Júlio II, em 1508.

Rafael pintou três, que ficaram conhecidas como Salas de Rafael, numa das quais se encontra a famosa Escola de Atenas. A Sala de Constantino ficou para último: Rafael planeava pintá-la por completo com óleo, mas acabou por morrer antes de a concluir. A sala foi terminada por outros pintores usando a técnica de fresco, o que explica o esquecimento das duas figuras no meio da pintura de toda a divisão.

Estima-se que os trabalhos de restauro da Sala de Constantino terminem apenas em 2022 e que tenham um custo de 2,7 milhões de euros.