“Os debates não são momentos ideais para apresentar ideias. É muita confusão: um diz uma coisa, outro diz outra, não é o melhor momento para esclarecer as pessoas.” Quem o disse foi Rui Rio, ainda no estúdio da TVI, minutos depois de ter acabado o segundo — e último — debate televisivo, a dois dias das eleições para eleger o líder do partido. Confusão houve muita, é verdade, atropelos também. Ideias para o futuro do país, nem por isso. “Oh Judite, tem de se impor senão ele não me deixa falar”, queixou-se Rio.

Mas desta vez não houve knock out: Rio jogou na mesma moeda para se manter à tona. Tinha-se queixado dos “truques” de Santana, que no primeiro debate foi munido de recortes de jornais para o confrontar com declarações do passado, e agora fez o mesmo, com seis recortes com declarações de Santana nos últimos seis anos. Boa ou má moeda, o que interessa é que foi troco da mesma moeda. E Santana não deixou de registar essa mudança de atitude. Coerência, incoerência, credibilidade ou lealdade — o debate entre os dois candidatos à liderança do PSD voltou a ser mais sobre o passado e a atitude de cada um na política do que sobre ideias e propostas concretas.

PGR. Santana quer renovação de mandato. Rio diz que é “um não assunto”

No campo das ideias, duas sobressaem. A primeira sobre a renovação, ou não, do mandato da procuradora-geral da República: Santana defendeu a renovação do mandato de Joana Marques Vidal, enquanto Rio se recusou a responder, por ser, nesta fase, um “não-assunto”. A segunda sobre o que deve o PSD fazer em caso de vitória do PS nas legislativas: Santana diz que, para viabilizar um governo minoritário deste PS, só se houver primeiro um acordo escrito, assinado antes das eleições, onde PS e PSD se comprometam com o princípio de que quem ganha, governa; só nessa condição é que aceita viabilizar um governo minoritário do PS. Já Rui Rio, defende que se o PS ganhar, o PSD não deve fazer aos outros o que não gostou que lhe fizessem a si. Além de que deixar o PS governar sozinho é a única forma de o “desamarrar” da esquerda mais à esquerda.

Eis os três principais temas do debate:

O passado numa guerra de recortes

Se a ideia era deixar os ataques sobre o passado lá atrás, e seguir em frente, não aconteceu. Rui Rio assumiu que não se tinha preparado para um debate como foi o debate da semana passada na RTP, e desta vez quis clarificar duas ideias-chave que têm sido centrais na argumentação do adversário: a ideia de que Rio não esteve com Passos Coelho quando era líder do partido, e a ideia de que Rio é o “irmão gémeo” de António Costa (Dupond e Dupont). Mas para o fazer, atacou o adversário com vários recortes de imprensa, onde Santana aparecia a criticar o governo de Passos Coelho ou a elogiar António Costa: “Santana arrasa Passos”/ “Santana em colisão com Passos, PSD desvaloriza”/ “Santana defende que Passos deve pedir desculpa”/”Santana revoltado com o PSD”/”António Costa é o político mais hábil desde o 25 de abril”, e por aí fora.

Tudo para dizer: “Apesar das discordâncias com Passos Coelho, nunca vim a público fazer essas críticas, tive foi discordâncias quando estavam em causa interesses do Porto. E quanto a António Costa, eu não devo nada a António Costa nem ele a mim. Não há nenhum sitio em que eu diga que António Costa é “o político mais hábil desde o 25 de abril”. Ou seja, em matéria de Dupont e Dupond, Rio quer estar conversado.

Estava feita a defesa da honra de Rui Rio, que tinha ficado machucada no primeiro round televisivo. O contra-ataque veio sob a forma de canção. Rui Rio recorreu ao vídeo de 2013, que esta semana saltou para a ribalta, onde Santana admitia não ter condições para ganhar legislativas, para dizer que o seu adversário é o contrário da cantiga “o vento mudou e ela não voltou”: neste caso é “o vento mudou e ele voltou”. Para Rio, o passado de Santana serve para deixar uma mensagem de futuro: “Qual dos dois tem mais hipóteses de ser reconhecido como melhor primeiro-ministro? Eu acho que, face ao passado do Pedro e face ao meu passado, ele terá mais dificuldades”.

Mas Santana também tinha recortes para a troca. Leu uma longa citação de Rui Rio em 2005, num comício no Porto em vésperas de legislativas, quando era Santana o líder do partido, primeiro-ministro em gestão e candidato a primeiro-ministro, e Rio era o seu número dois. Na citação, Rio aparecia a falar longamente sobre a “injustiça que é uma pessoa ser julgada por cinco meses de mandato”. Ou seja: qual era agora a justificação de Rio para ter dito isso na altura e agora já não dizer

A “lealdade”, disse Rio: “Sempre fui leal aos líderes todos do partido”. “Querias que eu fosse à cidade onde eu era presidente da câmara, em vésperas de eleições, dizer mal do líder legítimo do meu partido, que eras tu?”, respondeu Rio, dizendo que se há característica, ou “defeito”, que tem é “dizer sempre a mesma coisa”: “Até sou maçador”. O ponto era esse, para Santana: Rio diz uma coisa, mas pensa outra, ou mais à frente vem dizer que não era isso que queria ter dito. “Passamos a vida a ter de pôr uma tradução simultânea: dizes isto mas não era isso que querias dizer”, ironizou Santana.

O futuro num cenário de derrota: a grande diferença entre os dois

Devia ser um não-assunto (porque é equacionar um cenário de derrota nas eleições legislativas), mas é o assunto onde nos últimos dias se têm deslindado mais diferenças entre os dois candidatos. Desta vez, as duas visões ficaram mais explícitas:

Santana insistiu que é contra um Bloco Central, e disse que a ideia de viabilizar um eventual governo minoritário de Costa, depois do que se passou com a geringonça, “não tem pés e cabeça”. Mas abriu a porta a uma condição. Depois de ter dito que António Costa devia pedir desculpa por não ter deixado Passos Coelho governar, agora diz que o líder do PS vai ter de esclarecer ao que vai, antes de ir a eleições: se quer governar à esquerda ou se quer “vir aqui ao PSD”. E para isso, Santana sugere um acordo escrito (tal como o acordo escrito para a PGR, exemplificou), para que ficasse claro que os dois maiores partidos se comprometem a deixar governar quem ganhar. Ou seja, para Santana aceitar viabilizar um governo minoritário socialista “o PS tem de voltar a provar que está de acordo com esta prática constitucional”.

Rui Rio mostrou ter uma visão oposta: o PSD deve ser coerente com a sua história e não deve fazer aos outros o que não gosta que lhe façam a ele. “Se perder, aquilo que eu entendo é que o PSD tem de ser coerente com o seu passado. Nós permitimos que o governo do engenheiro Guterres tomasse posse. A mesma coisa fez o PSD em 2009, 2010 e 2011. Houve este passado que acho que está correto. Se eu não conseguir o primeiro objetivo, que é ter maioria absoluta, nem o segundo, que é ganhar, quero o terceiro que é afastar a esquerda de estar no poder”, disse. Ou seja, para Rio, em caso de derrota, é melhor o PSD dar a mão ao PS, para evitar que o PS vá pedir a mão à esquerda.

O mandato da PGR: renovar, não renovar, ou não falar sobre isso

É o tema do momento e, curiosamente, também é um dos temas onde Rio e Santana melhor vincam as suas diferenças. Santana Lopes considerou a renovação do mandato da procuradora-geral da República “um não-assunto”, numa altura em que faltam dez meses para o final do mandato de Joana Marques Vidal, mas não se coibiu de fazer uma “apreciação geral muito positiva” do mandato, que tem levado o MP a “investigar pessoas normalmente intocáveis”, e admitiu mesmo que possa ser “adequado renovar o mandato” da procuradora, uma vez que não há dúvidas jurídicas sobre a questão.

Já Rui Rio não disse se era a favor ou contra a renovação do mandato de Joana Marques Vidal, preferindo rever-se “a 100%” na declaração de Marcelo Rebelo de Sousa: “É de bom tom fazer disto um não-assunto”. “O mandato só termina em outubro, não vamos começar a fragilizar, a politizar este assunto que não deve ser politizado. Nem sou líder do partido ainda, o partido há de pensar nisso no tempo próprio. Por isso não respondo nem que sim nem que não, não é tempo para fazer essa discussão”, disse.

Em tudo o resto, houve mais atropelos do que debate de ideias. Os dois concordam com o crescimento da economia por via do investimento e exportações, nenhum dos dois explica exatamente como o tenciona fazer, ou de que maneira diferente do atual executivo. Santana tentou entalar o adversário com a sua ideia de “défice zero”, mas Rio vincou que finanças públicas é a sua praia. Depois da vitória de Santana há uma semana, agora terá sido um empate. Daqui a umas horas, às 10h da manhã, é dia do confronto final. Desta vez nas rádios.