Enquanto um falava, o outro ouvia na primeira fila. No meio, o elefante na sala: o que vai fazer o novo PSD de Rui Rio em relação ao PS? Vai-se aproximar? Vai viabilizar um Governo socialista? Há o risco de Rio e Costa reeditarem um Bloco Central? Ouvindo o líder eleito e ouvindo o líder cessante, duas histórias diferentes podiam ser contadas.

Pedro Passos Coelho usou a sua última intervenção antes de se votar à condição de soldado-raso para atacar o PS em força: traçou linhas vermelhas, não equacionou qualquer cenário de acordo ou apoio, e deixou claro que a postura do PSD deve ser apenas e só “bater” a geringonça. Já Rui Rio abriu a janela dos consensos antes de fechar a porta derradeira: Bloco Central é coisa que “não existe” nem “existirá”. Tudo o resto permanece em aberto. Ou seja, não disse o que disse na campanha, que irá viabilizar um governo do PS em caso de derrota do PSD nas urnas, mas também não disse que não o iria fazer.

No último momento antes de sair, Passos Coelho podia ter feito um discurso de despedida sem grande impacto político, mas quis vincar aquela que é, neste momento, a grande diferença que separa um PSD do outro: a postura face ao PS. Passos foi implacável, não poupou nem António Costa nem os parceiros do Governo; nem sequer José Sócrates, nem a “falta de memória” política que reina em Portugal, que faz com que o PS que “conduziu o país a uma situação de quase bancarrota” seja o mesmo PS que hoje governa. Foi aí que sublinhou bem qual devia ser o alvo do PSD: “Não é fácil bater a geringonça, mas é preciso bater a geringonça”, disse, num claro aviso ao novo líder de que não há outra opção senão a de fazer oposição firme ao atual PS.

Passos foi ainda mais claro, piscando o olho ao CDS e ao papel “importante” que ainda vai desempenhar no futuro. Ou seja, mais um aviso a Rui Rio: que deve olhar para o CDS e não para o PS num cenário de acordos pós-eleitorais, porque o que conta é a soma dos mandatos para que, no final do dia, PSD e CDS tenham mais deputados do que PS, PCP e Bloco de Esquerda.

Mas depois viria o “mas”. Quando chegou a sua vez de falar — na primeira grande intervenção enquanto líder –, Rio não deixou de “saudar de forma especial” o CDS que, ao lado do PSD, constituiu o Governo que foi “chamado a cumprir patrioticamente um exigente programa de austeridade, desenhado e negociado por outros”. Depois, diria que a tese de Bloco Central está fora de questão, até porque o PS nem sequer ganhou as eleições. E se o PSD vier a ganhar, não é com os socialistas que formará governo. “Nem vale a pena discutir o sexo dos anjos”, disse, entusiasmando os congressistas. Mas isso não é o mesmo do que dizer que Rio não será parceiro de Costa noutras danças. E foi aí que Passos ganhou pontos a Rio, pelo menos nos aplausos.

Rio quer consensos e acordos de regime com PS

As críticas foram de parte a parte. Rio disse que o Governo socialista só pensa na “popularidade imediata”, Passos disse que só se rege por “propaganda”. Rio disse que o Governo “governa mal, mesmo quando pode parecer que governa bem” e que o PS “meteu o país no buraco financeiro mais negro do pós-25 de Abril”, enquanto Passos disse que o PS de hoje é o mesmo que deixou o país “na quase bancarrota”, pelo que nada garante que “o buraco negro” não volta.

As diferenças vieram quando Rui Rio defendeu um “partido disponível para, em nome do superior interesse nacional, procurar dialogar e resolver com os outros, o que sozinho jamais conseguirá com a indispensável eficácia.

“Uma coisa é estarmos disponíveis para dialogar democraticamente com os outros e cooperarmos na busca de soluções para os graves problemas nacionais que, de outra forma, não é possível resolver. Coisa diferente é estarmos disponíveis para nos subordinarmos aos interesses dos outros”, disse. A última vez que o PSD deu a mão ao PS, foi precisamente no início da liderança de Passos Coelho, a quem José Sócrates chamou na altura de “parceiro de tango” por ajudar a viabilizar Programas de Estabilidade e Crescimento na Assembleia da República. Rio põe-se assim em posição de ser o próximo parceiro de tango, agora de Costa.

Passos fez levantar aplausos fortes com o tom muito crítico que escolheu usar para se dirigir ao PS na despedida. Era o que o Congresso queria ouvir (pelo menos uma parte), depois de Rui Rio ter feito campanha com base na ideia de que poderá vir a viabilizar um governo do PS (se Costa ganhar as legislativas). Rio ganhou pontos quando disse que o PSD era “um grande partido de poder e o seu objetivo é sempre ganhar”. “Sempre que nos candidatamos, o nosso imperativo é sermos os primeiros”.

Passos elogiou Santana Lopes, e também Hugo Soares, o líder parlamentar descartado por Rio; Rio ficou-se pelo elogio ao adversário de diretas, “porque teve a coragem e a humildade democrática de disputar as recentes eleições”.

Quando Passos se sentou e Rui Rio subiu ao palco para fazer a sua primeira intervenção de fundo enquanto líder, doseou aquilo que tinha de dizer e aquilo que os delegados queriam ouvir. É que Rio pode rejeitar a ideia de um Bloco Central, isto é, de um governo partilhado entre PS e PSD, mas faz questão de manter viva a ideia de que o PSD tem “dialogar” em nome do interesse nacional.  Desta vez, contudo, ao contrário do que fez na campanha eleitoral, não equacionou cenários de derrota, não rejeitando a hipótese de vir a viabilizar um governo de Costa caso seja o PS a vencer as legislativas de 2019. Sobre isso, nada disse. Nem que sim, nem que não.