Davide Astori, capitão da Fiorentina, foi encontrado morto este domingo de manhã num quarto de hotel em Udine, Itália. O jogador terá morrido durante o sono, vítima de “causas naturais, na sequência de uma paragem cardiorrespiratória”, tal como disse este domingo o procurador da República de Udine ao jornal Corriere dela Sera. A imprensa italiana destaca que o jogador de apenas 31 anos — que para trás deixa a namorada de longa data e a filha de dois anos — fez um eletrocardiograma na passada quarta-feira, sendo que não foi detetado qualquer problema.

O jogador foi encontrado sem vida no quarto onde estava hospedada a equipa antes do jogo frente à Udinese, marcado para a tarde de domingo. Os colegas de Astori começaram a estranhar o facto de o jogador não descer a tempo do pequeno-almoço. Foram feitas tentativas de o contactar por telefone, sem efeito. Astori foi encontrado morto pelo massagista. O corredor do hotel encheu-se de colegas em choque, debruçados sobre si próprios, a chorar a morte do seu capitão.

Morreu Davide Astori, capitão da Fiorentina. Foi encontrado morto no quarto de hotel

A autópsia, o passo que se segue para determinar o que aconteceu ao jogador, é tida como essencial de maneira a que sejam colhidas amostras de sangue para realizar testes genéticos, tal como explica ao Corriere Della Sera Silvia Priori, professora de cardiologia da Universidade de Pavia. É ela quem diz que as doenças genéticas podem facilmente “escapar ao diagnóstico” mesmo quando são feitos os devidos exames. São precisamente as doenças hereditárias (ou genéticas) — que podem ser “causadas por defeitos de DNA que geram doenças do músculo cardíaco (como cardiomiopatia hipertrófica ou cardiomiopatia dilatada) ou por mutações no DNA que alteram as proteínas que controlam o ritmo cardíaco, causando doenças nas quais o coração está predisposto a ter arritmias graves” — que podem ser responsáveis pela paragem cardíaca numa pessoa tão nova.

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A morte súbita em idades tão precoces, lê-se também no artigo do Corriere Della Sera, é um assunto particularmente complexo, porque a ciência ainda não foi capaz de identificar todas as causas de arritmias fatais nos jovens.

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Ao Observador, o especialista em medicina interna e medicina desportiva Fonseca Esteves procura esclarecer como pode uma pessoa aparentemente saudável e altamente monitorizada, tendo em conta a profissão, morrer da noite para o dia. Na generalidade, diz, “há três causas que fundamentam a morte súbita”. A primeira remete para as causas estruturais, isto é, “defeitos na estrutura cardíaca ao nível das paredes do coração e das válvulas”. São as primeiras a serem investigadas, explica.

As segundas causas são as elétricas, associadas ao sistema elétrico do coração (sistema de condução que provoca a contração e o relaxamento do coração), e “que raramente se manifestam no electrocardiograma”, diz Fonseca Esteves. “As causas mais importantes são as doenças dos canais iónicos. São terríveis, porque se confundem com outras e em vida não se manifestam.”

A última causa, elenca o médico de forma sucinta, passa pela “ingestão de drogas ilícitas e outros componentes”. Qualquer que tenha sido o motivo que esteve na origem da morte de Astori, Fonseca Esteves esclarece que “todas as causas enunciadas acabam da mesma maneira: numa disritmia ou arritmia complexa”.

Já Manuel Carrageta, cardiologista da Sociedade Portuguesa de Geriatria, explica ao Observador que as duas causas mais frequentes da morte súbita nos atletas são a miocardiopatia hipertrófica (engrossamento das paredes do ventrículo esquerdo) e a displasia arritmogénica do ventrículo direito. No entanto, assegura o cardiologista, as patologias podem ser excluídas, considerando a morte da Davide Astori, uma vez que estes diagnósticos impossibilitam a prática do desporto.

Manuel Carrageta esclarece que há, então, duas hipóteses predominantes, partindo do princípio que o jogador terá tido uma paragem cardíaca durante o sono: enfarte do miocárdio (que depois dos 35 anos é a principal causa de morte nos atletas) e a miocardite (uma inflamação do miocárdio que se pode desenvolver devido a uma virose, não revelando grandes sintomas). Todas as causas elencadas por Manuel Carrageta dizem respeito a causas estruturais.

De acordo com ambos os especialistas, os italianos têm uma grande escola de cardiologia desportiva, senão a melhor do mundo. Independentemente disso, 1 em cada 100 mil atletas morre todos os anos de morte súbita.

A carreira de Davide Astori em fotografias e vídeos

Astoria não foi o único que morreu de causas naturais

Cheick Tioté (Pequim, 2017)

Aos 30 anos, Cheick Tioté morreu enquanto treinava na China, com a camisola do clube de futebol Beijing Enterprise. O internacional da Costa de Marfim — que jogou durante sete anos no clube inglês Newcastle — , colapsou no relvado e acabaria por morrer no hospital.

Patrick Ekeng (Bucareste, 2016)

A 6 de maio de 2016, Patrick Ekeng caiu no relvado numa sexta-feira à noite, durante um jogo da primeira Liga disputado entre o Dinamo de Bucareste e o FC Viitorul Constanța. Ekeng entrou no jogo aos 62 minutos para substituir um outro jogador, mas colapsou passados apenas sete minutos. Segundo o The Independent, que cita imprensa local, a ambulância onde Ekeng foi transportado para o hospital não teria equipamento para ressuscitar o jogador, com os paramédicos a aplicarem massagens cardíacas na tentativa de lhe salvar a vida. Aos 26 anos, o jogador foi declarado morto.

Piermario Morosini (Livorno, 2012)

Em 2012, Piermario Morosini, que jogava pelo Livorno, caiu no chão meia hora depois de o jogo começar. Viria a falecer no hospital uma hora e meia mais tarde. Após a morte do jogador de 25 anos, que sofreu uma paragem cardiorrespiratória, os três médicos que o trataram foram sentenciados a uma pena suspensa até um ano — foram acusados de homicídio involuntário, escreve a ESPN, num artigo datado de setembro de 2016. Os três médicos foram acusados de terem falhado no tratamento do jogador por não terem usado um desfibrilhador, apesar de existirem dois no estádio e um terceiro na ambulância que levou Morosini para o hospital.

Daniel Jarque (Espanyol, 2009)

O jogador do Espanyol de Barcelona morreu aos 26 anos, vítima de ataque cardíaco. Estávamos em 2009 quando o capitão foi encontrado inconsciente no seu quarto de hotel — a equipa estava a realizar um estágio em Itália — tendo sido depois encaminhado para o hospital. Os médicos não conseguiram reanimá-lo. Jarque terá sofrido uma paragem cardíaca quando estava a falar ao telefone com a mulher, grávida de oito meses.

Antonio Puerta, (Sevilha FC, 2007)

O jogador do Sevilha faleceu a 28 de agosto de 2007, também vítima de paragem cardiorrespiratória, embora tenha chegado a dar entrada no hospital com vida. O lateral desmaiou durante a primeira parte de um jogo e ainda foi assistido dentro das quatro linhas. Saiu de campo pelo próprio pé, tal como escrevia à data o Correio da Manhã, mas acabaria por ser vítima de várias paragens cardíacas sendo, por isso, transportado de urgência para o hospital. Tinha 22 anos.

Hugo Cunha (União de Leiria, 2005)

O médio português do clube União de Leiria faleceu aos 28 anos. O jogador sentiu-se mal quando participava num jogo de futebol com amigos, em Montemor-o-Novo. Hugo Cunha caiu inanimado no relvado e, apesar de socorrido primeiramente por um amigo e depois pelos bombeiros, acabaria por chegar sem vida ao centro de saúde local, segundo o jornal Público.

Miki Fehér (Benfica, 2004)

Foi também um ataque cardíaco que tirou a vida a Fehér na noite de 25 de janeiro de 2004. Nos minutos finais do jogo, o jogador do Benfica “curvou-se, de mãos pousadas sobre os joelhos, tombou de costas, desamparado e perdeu os sentidos”. Fehér tinha 24 anos e uma miocardiopatia hipertrófica, foi revelado depois.

A noite em que Fehér caiu (contada por quem lá esteve)

Serginho, São Caetano (Brasil, 2004)

A morte súbita do brasileiro Serginho aconteceu em outubro de 2004. O jogador do São Caetano desmaiou em campo aos 14 minutos, num jogo disputado contra o São Paulo, e não resistiu. Os médicos dos dois clubes tentaram reanimar o atleta com massagem cardíaca e respiração boca-a-boca. Nada resultou.

Bruno Baião (Benfica Júniores, 2004)

O capitão da equipa júnior do Benfica sofreu duas paragens cardiorrespiratórias, meia hora após o fim do treino dos encarnados. O jogador chegou a estar quatro dias em coma profundo. Tinha 18 anos.

Marc-Vivien Foé (Camarões, 2003)

Aos 28 anos de idade, Marc-Vivien Foé faleceu enquanto disputava um jogo internacional pela equipa que representava. O jogador caiu inesperadamente no chão, inanimado.