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É irónico, profundamente irónico, que “Linha Fantasma”, de Paul Thomas Anderson, o melhor filme em liça para os Óscares deste ano, e que tinha seis nomeações — Melhor Filme, Realizador, Actor, Actriz Secundária, Banda Sonora e Guarda-Roupa — tenha saído da cerimónia apenas com este último. É reduzir uma obra de uma enorme riqueza visual, emocional, narrativa e dramática, e de um imenso requinte, para onde quer que se olhe, ao mais aparente e superficial: o seu guarda-roupa. Equivalente a dizer que “Linha Fantasma” se limita a ser a um filme sobre moda e sobre um costureiro excêntrico e perfeccionista, e por isso, é apenas essa dimensão que se distingue. A haver um pior momento na 90ª edição dos Óscares, foi a derrota de “Linha Fantasma” em toda a linha.

Sobre o não ter mandado Daniel Day-Lewis para a reforma com um quarto Óscar de Melhor Actor (que o poria a par com a recordista Katharine Hepburn), recompensando assim a interpretação mais complexa, mais subtil e mais absorvente de todas as que estavam nomeadas, e que espelha a mesma busca quase fanática de perfeição que move e transfigura a personagem do costureiro Reynolds Woodcock, a Academia desdenhou ainda premiar Paul Thomas Anderson. Ele, que é um dos mais talentosos, ousados e “cinematográficos” realizadores americanos contemporâneos, e um dos raros que consegue escapar à estereotipação, à tipificação e à vulgaridade que invade Hollywood — até mesmo quando falha um filme, como aconteceu com “Vício Intrínseco” (2014). “Linha Fantasma” foi o grande perdedor dos Óscares 2018. Ou seja, foi o cinema que ficou a perder.

“Ninguém é profeta na sua terra”, diz o provérbio. Resta a Paul Thomas Anderson, e a todos aqueles que admiram os filmes que concebe, escreve e roda, a satisfação de já ter sido premiado nos três maiores festivais de cinema do mundo, todos europeus: Berlim, com “Magnólia” e “Haverá Sangue”, Cannes, com “Embriagado de Amor”, e Veneza, com “O Mentor”. É a única pessoa a tê-lo conseguido. O reconhecimento em casa é que está em falta.

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