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Há um ano, quando toda a gente já estava meio ensonada mas ainda a aguentar tudo e todos para saber quem ganharia o duelo “Moonlight” Vs. “La La Land” pelo Óscar de Melhor Filme, o inesperado aconteceu: o lendário Warren Beatty anunciou que o vencedor era o musical de Damien Chazelle… Para logo a seguir admitir que se tinha enganado, o grande premiado era o drama de Barry Jenkins. Dificilmente alguém se esquecerá desse momento mas de entre todos os que assistiram ao sucedido, Jimmy Kimmel, o anfitrião dessa noite, será quem mais recordará o maior lapso na história dos famosos prémios de Hollywood.

Na madrugada deste domingo, na 90ª cerimónia dos Óscares, a história repetiu-se… mais ou menos: Kimmel voltou a ser o anfitrião e Beatty regressou ao sítio onde não foi muito feliz para entregar o mesmo prémio. Enganos não houve, felizmente, mas o apresentador de talk show fez questão de recordar o sucedido logo no início da cerimónia, durante o já famoso monólogo de abertura.

“Tenham cuidado, este ano, quando ouvirem o vosso nome a ser chamado, não se levantem logo, dêem-nos um minuto”, atirou. O público explodiu em risos e foi dado o mote para os 10 minutos de sátira e humor inteligente que se seguiram.

Como se este primeiro golpe não fosse suficiente , Kimmel voltou à carga com uma rábula em que dizia que tudo aquilo aconteceu porque tinha recusado fazer um pequeno espetáculo de humor para os contabilistas da empresa responsável pela contabilização dos votos — “Como recusei, decidiram ser eles a fazer humor. E foram hilariantes!”, rematou.

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Costuma-se dizer que “à terceira é de vez” e o mesmo comprovou-se quando o anfitrião regressou à carga: “O Presidente da Price Waterhouse Cooper [empresa responsável pela contabilização e coordenação dos resultados dos Óscares] garantiu-nos que este ano estavam totalmente focados em entregar os envelopes certos. Faz sentido, mas qual foi o vosso objectivo durante os passados 89 anos?”, nova risota geral.

O momento inaugural dos Óscares costuma ter sempre um grande peso, não só porque é o ponto de partida da mais global das  cerimónias de prémios mas também porque costuma ser uma oportunidade para se abordar temas fraturantes ou tábus da actualidade. Kimmel, que já no ano passado tinha cumprido (e bem) o seu papel, não tardou a chegar ao “elefante na sala”, o tema do assédio.

“O Oscar é o mais respeitado e adorado homem em Hollywood”, começou por dizer, à medida que caminhava em direção de uma dessas famosas estatuetas douradas. “Vejam, ele tem sempre as mãos num sítio onde as conseguimos ver” — risota –, “nunca é mal-criado” — mais risos–, “e, o mais importante de tudo, não tem qualquer tipo de pénis” — gargalhada geral. “Precisamos de mais homens assim, em Hollywood!”

[A brincadeira de Kimmel com a duração dos discursos dos vencedores]

Harvey Weinstein tornou-se num dos homens mais odiados da indústria cinematográfica e foi a fagulha que fez espoletar todo o movimento #metoo e outros tipos de manifestações contra todo o tipo de abusos com que as mulheres do cinema (e não só) continuam a enfrentar. Como tal, não seria de estranhar que, mais cedo ou mais tarde, ele fosse visado por Jimmy Kimmel — da mesma forma que foi quando Seth Meyers apresentou (e muito bem) os Globos de Ouro.

“No ano passado, a Academia agiu contra Weinstein, expulsando-o das suas fileiras”, começou por dizer. “Eu tive o trabalho de ir investigar quem mais tinha sido expulso como ele foi e em toda a história da Academia só houve uma pessoa a ter o mesmo destino, o actor Carmine Caridi”, explicou o apresentador. De facto, sem contabilizar Weinstein, Caridi foi a única pessoa a ser expulsa, tudo porque “leakou” filmes sem autorização. “O Carmen Caridi teve o mesmo castigo que Harvey Weinstein por ter dado ao vizinho uma VHS do ‘Nascido Para Ganhar’!”

Depois da óptima reação do público, Kimmel ficou um pouco mais sério, aproveitando o “tempo de antena” para reforçar a ideia de que comportamentos iguais aos de Weinstein tem de ser veemente repudiados — “O mundo está a olhar para nós, temos de dar o exemplo!”

[o momento em que várias estrelas de Hollywood surpreenderam o público que assistia a um filme no cinema]

Muita gente esperava que Kimmel, que já tantas vezes se deixou levar pelas emoções em momentos parecidos com este (veja-se os vários monólogos no seu programa em que já se emocionou a falar dos tiroteios em escolas ou do mau plano de saúde dos EUA), fosse tomar uma posição assertiva em relação a temas como as armas, por exemplo, tendo em conta o recente tiroteio na Flórida. A verdade é que nada disso aconteceu: assumindo uma postura diplomática, pouco incendiária, Kimmel nunca mergulhou a fundo no poço da polémica. E isso viu-se logo a seguir ao momento, já citado, em que falou seriamente sobre o flagelo do assédio: “Se nós, em Hollywood, nos conseguirmos portar bem, as mulheres só terão de ser abusadas em todos os outros sítios do mundo!”

Em pouco tempo, o “tema quente” voltou a  mudar: questões de raça, nomeadamente, o papel dos afro-americanos na indústria cinematográfica e na sociedade norte-americana. Apoiando-se no recente (e estrondoso) êxito de Black Panther. “O sucesso de Black Panther é um marco importante e valioso para todos os afro-americanos”, disse. O comentário, que foi recebido com muitas palmas, rapidamente virou piada: “Foi importante para os afro-americanos… e para o Bob Iger [CEO da Disney, “proprietário”]”

“Filmes como o Black Panther ou a Wonder Woman foram grandes êxitos quase por milagre porque lembro-me de um tempo em que os grandes estúdios de cinema não acreditavam que uma mulher ou uma minoria podiam ser os protagonistas de um filme de de super-heróis. E eu lembro-me bem disto porque foi em março do ano passado.”

Piada/comentário sério, piada/comentário sério — todo o discurso de Kimmel seguiu sempre esta linha subtil. Nunca punha o dedo a fundo na ferida, mas não houve um único tema que deixasse por tocar. Da desigualdade de género nas nomeações (Rachel Morrison foi a primeira mulher nomeada para Melhor Fotografia e Greta Gerwig foi a primeira mulher, em oito anos, a ser nomeada para Melhor Realizadora), às diferenças de salários entre homens e mulheres (o exemplo de Mark Wahlberg e Michelle Williams), até Donald Trump e Mike Pence tiveram direito a uma farpa, por muito subtil que fosse.

No geral, a abordagem do apresentador norte-americano foi bastante sóbria e sempre espirituosa, por muito que a sobriedade possa ter sido confundida com o sempre incómodo “politicamente correcto”.

Houve também, claro está, as já habituais homenagens a muitos dos nomeados da noite como Timothy Chalamet (o mais novo candidato a Melhor Actor Principal), Christopher Plummer, Margot Robbie (“Que joelhos é que tiveste de mandar partir para conseguir este papel?”) e até Guillermo Del Toro, o realizador do grande filme deste ano, A Forma da Água (“Graças ao Guillermo pudemos perceber que os homens já fizeram tanta asneira que as mulheres tiveram de se meter com um peixe”).

Merece destaque ainda a “brincadeira” que Kimmel decidiu fazer a meio da cerimónia. O apresentador reuniu um grupo de atores — onde se encontravam nomes como Armie Hammer, Gal Gadot ou até Guillermo Del Toro — e guiou-os até uma sala de cinema normal, onde um grupo de pessoa assistia a um filme, ignorando o que estava prestes a acontecer. A “chuva de estrelas” entrou pela sala com cestos de guloseimas e cachorros quentes que distribuíram por todos. Até houve direito a uma foto de grupo.

Como não podia deixar de ser, no final, Jimmy Kimmel fez a piada do costume — “Desculpa Matt Damon, não temos mais tempo para ti agora.” Sobra a pergunta: Irá Kimmel fazer o triplete em 2019? É esperar para ver.