A liderança da Caixa Geral de Depósitos do mercado financeiro português no futuro “depende muito menos de balcões do que da digitalização”, afirmou o presidente do banco. Paulo Macedo sublinhou que o mais importante é responder às necessidades das pessoas e são cada vez mais as que não querem ir ao balcão, mas preferem outras formas de contacto. Comentando o plano de reestruturação em curso na instituição, o gestor disse defender uma banca alinhada com o que as pessoas querem e não uma banca com uma estrutura grande.

É isso que vai fazer a liderança da Caixa no futuro. Não passa por ter mais balcões e pessoas que os clientes dizem que não querem pagar (via comissões bancárias)”.

Paulo Macedo começou por responder às perguntas da deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, na comissão parlamentar de orçamento e finanças sobre o plano de reestruturação que está a implementar. Mariana Mortágua questionou Paulo Macedo sobre qual deve ser a dimensão e o papel da Caixa enquanto banco público na economia portuguesa, destacando a redução prevista de 170 agências e de 2.200 pessoas, bem como um corte de 100 milhões de euros nos custos.

O presidente da Caixa realçou que o plano prevê a redução das operações no exterior e a manutenção da posição de liderança interna. Mas essa liderança, sublinhou, depende também dos outros.

Se o Santander continuar a adquirir banco após banco (o Banif e o Popular por via de resoluções), a Caixa perderá a posição de liderança, independentemente da sua gestão. (…) A Caixa deverá chegar até 2021 com ativos que lhe permitirão manter a liderança em alguns indicadores — Macedo destacou depósitos — , mas depende do que os outros bancos fizerem. Se se fundirem ou praticarem loucuras de preços…. A Caixa não controla o que fazem os seus concorrentes”.

Paulo Macedo garantiu ainda que a redução entre 2010 e 2017 de 21% no número de colaboradores e de agências é inferior à realizada por outros bancos.

Questionado sobre o encerramento da sucursal em França previsto no plano negociado com a Comissão Europeia e que, segundo Mariana Mortágua, é muito importante ao nível dos colaboradores e da base de clientes, Paulo Macedo concordou. E acrescentou que a Caixa irá lutar por manter a operação francesa.

Auditoria a 15 anos de gestão concluída em abril

O gestor também não quer uma “caixinha”, pegando numa expressão usada pela deputada do Bloco, mas argumentou que isso teria acontecido se o apoio financeiro do Estado tivesse sido considerado uma ajuda de Estado pela Comissão Europeia. E foi além do que foi negociado com Bruxelas? — pergunta de João Almeida do CDS. Paulo Macedo respondeu que as reduções de trabalhadores, balcões e a subida das comissões estão alinhadas com as metas. A Caixa está melhor que o previsto na rentabilidade e no crédito malparado, disse.

Também em resposta a João Almeida, Macedo revelou que a auditoria “forense”, que está a passar a pente fino a gestão do banco entre 2000 e 2015, deverá ficar concluída no próximo mês. Esta auditoria foi pedida pelo Parlamento quando foram conhecidas em 2016 as necessidades de recapitalização pública da Caixa. A análise já estará feita, mas é muito difícil encontrar comprovativos e documentos de operações feitas há mais de 10 anos, justificou.

E o aumento das comissões? Caixa tem de ser rentável senão “desaparece”

No que toca às comissões cobradas, Paulo Macedo assumiu o compromisso que a Caixa irá comparar sempre bem com os outros bancos em relação a clientes mais desprotegidos, jovens e reformados. Garantiu que há 3,5 milhões de clientes com isenções das comissões de manutenção de conta.

Perante as críticas dos deputados à direita e à esquerda aos três aumentos de comissão feitos já por esta administração, Macedo contra-argumentou: Como é que se pode reduzir as receitas num negócio que está a dar prejuízos? E devolveu a pergunta ao deputado do PCP, Paulo Sá: “Se não forem as comissões bancárias e os juros quais são as receitas?” A resposta veio pouco tempo depois. A comissão corresponde a um serviço que é cobrado e as pessoas não percebem as comissões cobradas. “Não é legítimo criar comissões só para aumentar as receitas e que não fazem nenhum sentido. Isso é um assalto”, concluiu Paulo Sá.

Paulo Macedo sublinhou também que a Caixa lidera em vários indicadores, menos nas comissões, onde a receita cobrada estará a 60% da praticada por outras instituições. E cobra hoje menos comissões do que cobrava há anos atrás (em percentagem de negócios). E realçou que os custos regulatórios — a Caixa vai pagar 80 milhões de euros para o Fundo de Resolução — e de segurança não param de subir.

O gestor sublinhou por várias vezes a necessidade da Caixa ser competitiva e rentável.  Tal como outros bancos, a Caixa confronta-se com uma grande “disrupção” no sistema financeiro com a concorrência das fintech (serviços financeiros oferecidos por empresas de tecnologia). Se não fizesse nada, e com os prejuízos do passado, a “Caixa desaparecia” porque não pode estar sempre a pedir dinheiro ao Estado. Apesar de admitir que as agências no interior são uma questão importante, deixou a nota: “Temos que nos organizar”. Como é que se podem manter os balcões e atingir uma taxa de rentabilidade do capital de 9%, como exige a Comissão Europeia, o que já é uma meta “difícil”?

E afinal o que distinge a Caixa dos outros bancos privados? — pergunta feita por vários deputados. O presidente da Caixa deu vários exemplos, mas acabou por destacar um aspeto. “Tem a missão de captar as poupanças disseminadas no país“. Os depósitos, assinalou, são a principal fonte de financiamento da CGD que funciona como um refúgio para as poupanças. As grandes e as pequenas. O banco reivindica uma quota de 30% nos depósitos, acima da sua posição de mercado em outros indicadores.

A concessão de crédito a grandes clientes e investimentos, o apoio a linhas de crédito para PME e ao microcrédito, foram outros aspetos referidos.

Administração “não ganhou trabalhadores”. Macedo recusa pressões

Paulo Macedo justificou uma proposta de atualização salarial de 0,36% para este ano, com a circunstância de a Caixa ter custos salariais 27% a 40% acima dos níveis praticados por outros bancos. E avisou que os custos deste aumento serão suportados pelos clientes ou pelo Estado

Ainda na sua primeira intervenção — a audição a Paulo Macedo foi pedida pelo Bloco de Esquerda — Mariana Mortágua referiu que há “uma avaliação unânime” sobre a nova administração: “Não ganhou os trabalhadores”, acrescentando que essa avaliação é transversal e resulta do processo de saídas, mas também de pessoas que são transferidas para outras funções e “ficam a pairar” e sistemas de avaliação que não são previamente discutidos, para além do congelamento salarial desde 2010.

Já na resposta a Carlos Silva do PSD, o presidente da Caixa recusou a acusação de que há pressão sobre os trabalhadores do banco, em particular no que toca a transferências de funções e rescisões. E revelou que para uma meta de 540 saídas, a administração recebeu 827 pedidos, entre rescisões (334), reformas (114) e reformas antecipadas (320).

Os números detalhados foram apresentados em resposta a Rui Riso, deputado socialista que também é presidente do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas. O presidente da Caixa garantiu ainda que as condições de saída do banco são únicas no setor e eu mais números: o valor médio de saída por reforma é de 2.000 euros e pode chegar aos 5.000 euros mensais nos quadros diretivos.

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