Em dia de jogo grande na cidade, o Liverpool Echo trazia a história do novo cântico “Allez! Allez! Allez!” que se canta com cada vez maior frequência em Anfield e que, curiosamente, começou quando os ingleses golearam o FC Porto no Dragão (a melodia é parecida com uma música dos Super Dragões). Traduzida, é qualquer coisa assim:

Conquistámos toda a Europa
Nunca iremos parar
De Paris até à Turquia
Ganhámos mesmo muito
Bob Paisley e Bill Shankly
Os suportes de Anfield Road
Somos apoiantes leais
E viemos de Liverpool
Allez! Allez! Allez!

Se os adeptos dos reds andam com pés no chão e cabeça nas nuvens, muito devem a Mohamed Salah. Mas se Mohamed Salah anda com pés no chão e cabeça nas nuvens também muito deve aos adeptos dos reds.

Faraó, Jóia do Nilo, Messi do Egito. Assim, estranho é chamar-lhe só Salah (a crónica do Liverpool-Roma)

“Ouço-os em todos os jogos, têm uma cantiga especial para mim. Adoro-os porque jogo em Anfield e ouço-os, não só nos jogos mas também na cidade e nos treinos…”, explicou numa entrevista publicada recentemente pela CNN que foi feita no dia 12 de abril. Mas o mais curioso viria num outro excerto : “Se quando comecei a jogar já conhecia o Liverpool? Claro, claro. É um grande clube, um enorme clube e toda a gente conhece. E quando era pequeno jogava na PlayStation com o Liverpool, então…”. Problemas? Só mesmo o sotaque que quer melhorar.

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https://www.youtube.com/watch?v=zJtCykSvruU

O avançado egípcio ganha cada vez maior protagonismo no futebol europeu e, como se percebe neste trabalho mais recente, tem Liverpool a seus pés. Mas o impacto está longe de resumir-se a uma cidade e a própria história de vida do melhor marcador da presente temporada nas maiores ligas europeias ajuda a ter esse impacto.

Depois de ter começado a jogar à bola com apenas sete anos, algo a que os pais não achavam muita piada porque queriam que se dedicasse à religião muçulmana, Salah passou para o Al Mokawloon aos 14. E só chegar aos treinos era uma aventura: tinha aulas das 7h às 9h, começava a apanhar autocarros que duravam cinco horas até chegar ao local da sessão, trabalhava e chegava de novo a casa por volta das 22h. Na altura era lateral, mas passou para os lugares da frente depois uma goleada por 4-0 da sua equipa em que não marcou: no final, o treinador perguntou-lhe porque chorava, Salah explicou que não fizera golos e no encontro seguinte foi avançado. Até hoje.

Na altura, o egípcio tinha três grandes referências no mundo do futebol: Zidane, Ronaldo (o brasileiro) e Totti, o eterno capitão da Roma. E o salto da Europa começa a ser desenhado após a tragédia de Port Said entre o Al-Masry e o Al-Ahly que vitimou 79 pessoas: a Primeira Liga do Egito foi suspensa, o país deixou de ter jogos e a seleção Sub-23 realizou um encontro particular a Basileia diante da equipa local, que já seguia há algum tempo o avançado. Aí, bastaram dois golos em 45 minutos para convencer em definitivo os dirigentes da formação suíça.

A partir daqui a história é mais conhecida: Salah destacou-se pelo Basileia em 2012/13, assinou pelo Chelsea duas temporadas depois, acabou por ser emprestado à Fiorentina e à Roma e assinou no início desta época pelo Liverpool, onde está a ter os melhores números da carreira que colocam o seu nome na luta pela Bola de Ouro (a Bota de Ouro, essa, parece ser mais garantida, face aos números que tem a nível de golos na Premier League).

E vamos agora para outra parte menos conhecida da história, aquela que faz com que Salah seja um herói para tanta gente: depois de ter marcado o golo que valeu a qualificação do Egito para o Campeonato do Mundo da Rússia, o avançado recebeu uma série de presentes extravagantes de milionários egípcios que adoram futebol. Agradecendo, o jogador acabou por ceder tudo isso às fundações com quem trabalha. Mais recentemente, soube-se também que Salah comprou uma ambulância e está a construir uma escola, um hospital e campos de futebol em Nagrig, cidade onde nasceu. Além disso, a Mohamed Salah Charity Foundation gasta cerca de quatro mil euros por mês em alimentação para crianças mais desfavorecidas da região.

Há outro ponto que mostra bem a verdadeira Salahmania que se vive no Egito: como contou o The Economist no mês passado, o jogador teve mais de 700 mil votos nas eleições para a presidência do país que foram ganhas de forma esmagadora por Abdel Fattah Al-Sisi, mais do que o segundo classificado. Questão? Não era candidato. Tendo em conta que houve pouco mais de um milhão de votos nulos, é uma questão de fazer as contas…

Mesmo em part-time, Salah a presidente! (do Liverpool e, pelos vistos, do Egito)

Como seria de esperar, já se fala de novos voos para Salah aos 25 anos. Em perspetivas distintas: por um lado, perfila-se como nome mais forte para render Gareth Bale no Real Madrid; por outro, fala-se em erro de casting do Barcelona ao ter contratado o antigo companheiro Coutinho em vez do egípcio. Qualquer que seja o futuro, uma coisa é certa: esta não será a última vez que falamos da grande revelação da presente temporada.