Há pouco mais de duas décadas, Andrés Iniesta, de 12 anos, deu uma lição a José António, o pai. E essa lição, de um miúdo e fora de campo, explica muito do que representa o pequeno génio que se vai despedir do Barcelona no final da época.

Começou a jogar nos pelados do Albacete com oito anos, mas não demorou a dar nas vistas. Era cobiçado pelos maiores clubes de Espanha e mais se tornou após um torneio realizado em Brunete, a 28 quilómetros de Madrid. As pernitas de galinha enganavam. Mesmo com aquela idade, já tratava a bola por tu. E foi aí que o Barcelona se chegou à frente para tentar assinar com o miúdo que, tal como o pai, torcia pelo Real. Mas havia algo que o fazia adiar a mudança: a proximidade à família, aos amigos, à terra que o viu nascer. Andou a adiar uma decisão que os pais deixaram que tomasse sozinho, respeitando a vontade de uma criança que nunca tinha falhado em nada e merecia seguir os seus sonhos. Um dia, no início da época e quando não se esperava pelo timing, aproximou-se do pai e disse: “Sei que era o que gostavas que fizesse, vou para Barcelona”.

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A mãe ficou em Fuentealbilla, o pai foi com Andrés para a Catalunha. Uma viagem com os seus 500 quilómetros que pareciam muito mais do que isso. Deixou o filho na La Masia, a academia dos blaugrana, e passou essa noite num hotel. José António não dormiu, teve ataques de ansiedade e pensou fazer a mala, agarrar no miúdo e voltar a casa. A mulher demoveu-o: “Foi a decisão dele, não podes ser egoísta”. No dia a seguir, Andrés ratificou a decisão: “Um ano aguento, depois logo vemos”. O pai despediu-se em lágrimas e voltou a Albacete, sabendo que iriam começar ali uma série de noites longas. Valeu a pena.

Aos 33 anos, à beira de fazer 34, o médio ofensivo anunciou o ponto final de uma vida inteira dedicada ao Barcelona, como produto da cantera, estrela, símbolo e capitão. Como resume o documentário Iniesta de mi vida”, a frase mais emblemática quando marcou o golo na final do Campeonato do Mundo de 2010 frente à Holanda, na segunda parte do prolongamento, mais do que um nome e um futebolista, Andrés tornou-se um sentimento. Um sentimento que nunca será esquecido.

Ao todo, soma 31 títulos pelos catalães, sendo o jogador com mais triunfos a par de Messi: oito Campeonatos (que deverão ser nove muito em breve), seis Taças de Espanha, sete Supertaças de Espanha, quatro Liga dos Campeões, três Mundiais de Clubes, três Supertaças de Espanha. A isso junta ainda um Campeonato da Europa Sub-17, um Campeonato da Europa Sub-19, dois Campeonatos da Europa de seniores e um Campeonato do Mundo, os três últimos de forma consecutiva (2008, 2010 e 2012). Um currículo esmagador que diz tudo. Um currículo que é esmagado pelos elogios que lhe foram tecendo e que fazem dele o mais humano dos extraterrestres que o futebol mundial conheceu ao longo das últimas décadas.

Uns chamam-lhe “O Ilusionista”, pela capacidade de inventar jogadas de génio em meio metro quadrado de terreno (como mostram as inúmeras imagens onde surge rodeado de quatro ou cinco adversários). Outros preferem descrevê-lo como “O Cérebro”, pela forma como consegue ver aquilo que os outros nem imaginam. Outros ainda falam no “Anti Galáctico”, aquela estrela que não anda com modelos, não tem grandes carros e foge dos holofotes da fama apesar de ter os mesmos centrados em si. E ainda há o “Cavaleiro Pálido”, uma espécie de herói entre os mais comuns dos mortais. “Não sou nem mais nem menos humilde do que os outros, não sou nem mais nem menos do que as outras pessoas”, referiu numa entrevista.

Após destacar-se num torneio da Nike Premier Cup, andou pelo Barcelona B e foi chamado à principal equipa em 2002, com 18 anos. 16 anos depois, era o último símbolo de uma geração que comandou os blaugrana e a Espanha a uma das eras com mais vitórias e melhor futebol de que há memória. Depois de Puyol, Valdés e Xavi, o derradeiro bastião de uma geração de ouro diz adeus aos principais palcos europeus por uma nova aventura na China, com a missão de “aprender um pouco mais todos os dias”, como fez ao longo de uma carreira de sucesso dentro e fora dos relvados.

Proprietário da Bodega Iniesta desde 2010, a época mais complicada da carreira por causa das sucessivas lesões e, sobretudo, pela morte do amigo e capitão do Espanyol Dani Jarque, mas que acabou com o golo que decidiu o Mundial, o médio vê nesta nova aventura uma oportunidade paralela de internacionalizar os mercados que os seus vinhos abrangem, prevendo-se a venda de cerca de dois milhões de garrafas por ano só para a China. Até neste particular, o futuro pós futebol está assegurado.

Esta semana, a France Football, através de um artigo de opinião assinado pelo chefe de redação, Pascal Ferré, pediu desculpa a Iniesta por nunca ter ganho a Bola de Ouro que, desde 2008, foi monopolizada por Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. E falou em “anomalia democrática” entre rasgados elogios ao médio. Também aqui, Andrés ficará como o mais humano entre os extraterrestres. E é também por isso que, mais do que um nome e um futebolista, representa um sentimento. “Hoje continua a ser aquele menino próximo e boa gente. Espero que no futuro volte a Barcelona porque é uma pessoa do clube e uma figura muito importante da sua história”, escreve esta sexta-feira Albert Benaiges, o seu “pai desportivo”, no El Mundo.

“Boas tardes a todos, esta conferência de imprensa é para tornar público… público que… esta vai ser a minha última temporada aqui. Foi uma decisão muito pensada e amadurecida, em termos internos e familiares. Depois de 22 anos, sei o que significa ser jogador desta equipa, a melhor do mundo. Sei o que é a exigência de jogar aqui, anos atrás anos, sei a responsabilidade de ser capitão deste clube, mas tenho de ser honesto comigo mesmo e com o clube e entendo que a minha etapa acaba este ano. Este clube que me acolheu com 12 anos merece o melhor de mim a todos os níveis, físico e mental. A melhor forma é acabar como titular, a lutar por títulos e ser útil. É um dia muito difícil”, começou por referir em lágrimas numa conferência de imprensa que contou com a presença dos companheiros de equipa e a família, incluindo a mulher e os três filhos.

Num momento transmitido em direto em todos os principais sites desportivos e generalistas de Espanha, o médio falou ainda de 22 anos que “transformaram um sonho numa realidade”, recordando o primeiro jogo no conjunto principal do Barça como o melhor momento. “Falei com muitas pessoas, dirigentes, treinador e jogadores. Todos queriam que ficasse, era esse o desejo deles, mas queria controlar os tempos da minha vida e ser o mais honesto possível comigo e com o clube”, destacou.

“Foram meses de reflexão, dias em que tinha mais dúvidas porque a minha vida era aqui, outros mais decididos. Não é fácil saber mas o clube deu-me a possibilidade de escolher o meu destino”, acrescentou, antes de falar da possibilidade de rumar à China: “Há coisas por falar e fechar. A única coisa que sempre disse era que nunca iria competir contra o meu clube, por isso qualquer coisa que seja fora da Europa é uma hipótese. Vamos ver como será. Tentarei ser feliz e igual como até aqui”.

Não é nenhuma espinha encravada não ter ganho a Bola de Ouro. Para mim, foi mágico quando estavam para ganhar eu, o Leo e o Xavi. O futebol não seria diferente para mim. Não tenho de aceitar desculpas, não há necessidade”, concluiu a propósito do pedido de desculpas da France Football.