Regressado do Canadá, onde esteve em visita oficial durante o mais recente drama socialista do abandono de José Sócrates, António Costa fez questão de sublinhar o que não quer ver debatido no próximo congresso do PS: “O drama de hoje nem a questão que se vai colocar amanhã”. O líder socialista considera que o partido pode, no congresso do final deste mês, “fazer algo que é essencial na política” e isso passa por “olhar para o horizonte de médio e longo prazo”. Mesmo assim, pouco depois, ouviu uma preocupação sobre o assunto do momento entre os socialistas que o ouviam na sessão de esclarecimento.

No discurso que fez aos militantes da capital do país, numa sessão no Fórum Lisboa, o socialista apresentou a moção, mas também deu as indicações para o que deve ser o próximo congresso socialista e isto numa altura em que o partido volta a viver tempos turbulentos com origem no ex-líder Sócrates. Sem nunca referir o caso ou o ex-líder, o secretário-geral socialista disse que “não faz sentido que o congresso seja sobre o presente, mas sobre o futuro do nosso país”. E ainda disse mais sobre o atual momento socialista:

O PS pode fazer algo que é essencial na política. Não ter de olhar para o drama de hoje nem para a questão que se vai colocar amanhã, mas podermos olhar para o horizonte do médio e longo prazo”

Na sala, na sessão de perguntas de militantes ao líder que se seguiu à porta fechada, um militante ainda suscitou a questão Sócrates, expressando preocupação com o julgamento público do antigo secretário-geral do partido, de acordo com fontes que assistiram a esta parte da reunião. A resposta de Costa manteve-se colada ao discurso “à Justiça o que é da Justiça”, repetindo a ideia que ninguém está acima da lei, nem o próprio primeiro-ministro. Já não repetiu a frase da passada quinta-feira sobre os casos de justiça a envolverem ex-governantes socialistas (Manuel Pinho, além de Sócrates): “Se essas ilegalidades se vierem a confirmar, serão certamente uma desonra para a nossa democracia”. Depois de dois dias de declarações socialistas que já iam neste mesmo sentido, Sócrates anunciou a sua desvinculação do PS.

Já no tal horizonte a “médio e longo prazo”, Costa vê dois combate eleitorais que quer ter preparados antecipadamente, voltando a referir a importância das duas convenções socialistas que tem alinhadas para preparar os programas das eleições Europeias e das Legislativas, uma em maio e outra em junho. Até porque, se considera que “hoje em Portugal se vive melhor do que se vivia há dois anos e meio”, também diz que “isto não significa que o trabalho esteja acabado”.

PS-Lisboa defende acordos com a esquerda

Agora o tempo é de receber contributos. E o que recebeu na sala que tão bem conhece dos tempos de autarca (é onde se reúne a Assembleia Municipal de Lisboa) foi no sentido da esquerda. Na intervenção que antecedeu a de Costa, o líder da federação distrital de Lisboa do PS, Duarte Cordeiro, foi claro na opção que quer ver seguida pelo partido no futuro: “É à esquerda que temos de ir buscar as forças para executar este programa e será à direita que temos de combater”.

E o socialista disse-o precisamente depois de referir o acordo na descentralização que o Governo fez com o PSD. Duarte Cordeiro elogiou a postura socialista, mas para logo a seguir sublinhar o que diz ver na moção que Costa leva ao congresso socialista e que tem as bases do futuro socialista: “Se pensarmos nos desafios que a moção de António Costa destaca, nas políticas públicas que implica, percebemos que será à esquerda que temos de ir buscar as forças para executar este programa e será à direita que temos de combater”. Foi o momento da intervenção do líder do PS-Lisboa que arrancou mais palmas da assistência.

A favor da esquerda, Duarte Cordeiro ainda acrescentou outra ideia, que a direita tem usado para diabolizar a atual solução governativa, garantindo que “os entendimentos, os programas políticos de esquerda não são apenas de vacas gordas“. Na argumentação contra o fantasma do despesismo de esquerda — de que Rui Rio tem sido um dos atuais agitadores –, o dirigente socialista diz que “as políticas de esquerda mantiveram durante muito tempo as vacas gordas” e que, por isso mesmo, há que “construir capacidade de reformar à esquerda, porque a reforma não é uma palavra do centro nem da direita. Também é uma palavra de esquerda e temos de incentivar um programa de esquerda com reformas de esquerda”.

O socialista disse, aliás, muito mais que Costa neste capítulo, defendendo que “a força do PS neste governo residiu na sua capacidade de manter o seu programa de Governo mas com negociações e entendimentos à esquerda”. Mas de António Costa não ouviu uma palavra sobre este assunto, apenas elogios à capacidade que o PS teve de “construir no Parlamento uma solução política maioritária que tem assegurado estabilidade e que tem permitido que cumpramos todos os compromissos assumidos com portugueses, parceiros parlamentares e internacionalmente seja com a NATO seja com a União Europeia”.

Costa ainda falou na descentralização, que acordou com Rui Rio, como a “pedra angular da reforma do Estado” e nas políticas de habitação como a prova que estavam “enganados” os que acharam os socialistas estavam “satisfeitos, ao fim de dois anos, e que estavam prontos para partir para outra. Continuamos com a mesma energia do primeiro dia”, garantiu o líder socialista na sua intervenção inicial. Sobre o programa de habitação que apresentou em abril, disse que esta vai ser “a marca da nova política pública que esta legislatura vai deixar para o futuro do país”, definindo como objetivo chegar a “2025 e comemorar os 50 anos do 25 de Abril com nenhuma das 26 mil famílias que vivem em condições precárias sem ter acesso a uma habitação digna”.

Neste capítulo ainda atirou forte ao Governo anterior, ao dizer que pretende “acabar com um dos maiores dramas sociais que o governo PSD e CDS legaram que foi uma lei das rendas injustas e desumana, que nem os idosos poupa à especulação imobiliária“.

Artigo atualizado às 00h15 com uma informação posterior aos discursos, na sessão à porta fechada