É uma declaração de amor de 30 segundos. Mas também podia ser um pedido de desculpas. Ou um obrigado. Um “até já”, talvez, se visto à luz dos últimos acontecimentos. Frente à câmara, sozinho no plano, Cristiano Ronaldo assumiu que, ainda em criança, e também mais tarde, como adolescente, olhava para gigantes como Zinedine Zidane, Roberto Baggio, Del Piero e tantos outros, de camisola branca e preta, as listas na vertical. E sorria.

Ronaldo tinha acabado de marcar um golaço aos italianos. Um golo daqueles que só acontecem uma vez, daqueles que ninguém esquece. E os adeptos da Vecchia Signora aplaudiram. Foi em maio. O estádio inteiro viu aquele salto, de costas para a baliza, o pontapé de bicicleta – Ronaldo mais alto que todos – e a bola dentro a bater nas redes, com Buffon  no chão, batido.

No relvado de Turim, Cristiano Ronaldo juntou as mãos, fez uma vénia, depois pousou a mão direita no peito e voltou a agradecer aquele gesto. De pé nas bancadas, os adeptos punham de lado a amargura de ver mais longe a taça de campeão europeu. Preferiram prestar homenagem ao pedaço de arte acabado de desenhar em campo. Sabiam que eram alguns milhares de privilegiados, testemunhas de um momento do outro mundo. Ronaldo agradeceu. E, depois, declarou-se.

Um estádio como aqui em Turim, da Juve, por onde passaram grandes futebolistas, onde estão grandes futebolistas, aplaudirem-te– para mim, é um momento top. Estou muito feliz, emocionado, também, porque é um clube de que, desde que era pequeno, já gostava. As pessoas aplaudirem-te, ficam-te no coração boas memórias”, disse o jogador do Real Madrid depois da final da Liga dos Campeões.

As coisas não andavam bem entre Cristiano Ronaldo e o Real. Isso já era sabido. O melhor do mundo por cinco vezes quis que, em sua casa, reconhecessem aquilo que em Turim se mostrava evidente. Florentino resistia. E provocava. Mandava recados a Ronaldo soltando elogios a Neymar. A relação degradava-se e o inevitável parecia ser apenas uma questão de tempo.

A declaração soa, agora, a premonição. “Desde pequeno” que Ronaldo admirava aquela camisola listada e, agora, o menino de 33 anos prepara-se para fazer as malas. E pode mesmo dizer adeus ao seu clube dos últimos nove anos, a equipa que representou quando ganhou quatro das cinco bolas de ouro que o elevaram ao Olimpo. O clube com o qual ganhou quatro das suas cinco Ligas dos Campeões. Tudo isso pode agora ficar para trás, numa troca de Madrid por Turim. Adiós España, ciao Italia.